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sábado, 23 de outubro de 2021

Stuart

Lucio: O problema de defender que as diferentes morais provam que não há certo e errado é que o que é certo depende da natureza da realidade e outros fatos. Como os diferentes povos tem diferentes crenças filosóficas, científicas e históricas, acabam interpretando seu senso moral de formas diferentes.

Tomás: Isso é verdade. Fora que as condições históricas, materiais e políticas pros povos são diferentes, então obviamente eles terão diferentes formas de organização.

Murray: Isso, terem várias morais diferentes é compatível sim com uma ética objetiva. 

Roko: Talvez até seja, mas ainda não estou convencido. Qualquer crença minha pode estar errada, então não posso botar tanta fé no meu senso moral. Como posso saber sequer se devo tratar bem meu próximo?

Stuart: Sendo mais técnico, todo povo acha que devemos tratar bem o próximo, a regra de ouro é muito popular. O que muda é QUEM é meu próximo, isso depende de fatores não morais como a origem da ética, a natureza dos outros, as ações dos outros etc. Ao menos quanto ao próximo, você pode ficar certo de que ele deve ser ajudado.

Murray: Com certeza. Alguns selvagens defendem que o próximo é só quem é de sua tribo, alguns loucos defendem que até os animais irracionais são próximos, todos concordam que...

Lucio: Os animais SÃO próximos sim, ué.

Stuart: Exato, selvagem é quem defende os horrores da indústria dos produtos animais.

Murray: Bobagem, não há nada mais idiota do que dizer que um rato é digno de valor.

Tomás, Também não vejo lógica nesse tipo de ideia. 

Roko: Bom, vocês todos acreditam numa ética objetiva mas discordam sobre quem é digno de valor, dois chamam animais irracionais de próximos e dois não chamam. Não ia ser bom discutir isso para ver se essa briga é causada por diferenças filosóficas, científicas ou históricas? Se der pra sabermos ao menos quem é o próximo, não vejo porque ir contra a ideia de uma ética objetiva.

Murray: Parece justo, assim vemos se alguém pode defender ideias tão idiotas assim sem rir.

 Roko: A história da filosofia mostra que qualquer ideia pode...

Lucio: Boa ideia mesmo.

Stuart: Verdade.

Roko: Então quem começa?

Tomás: Eu começo, assim essa questão se resolve logo.

Roko: Certo, nos diga a base da ética e a posição dos animais nela. Se você sair falando besteira, se prepare pra ser corrigido. 

Tomás: Sem problema. Me parece que a ética é gerada por um tipo de pacto social. Para uma sociedade existir nós precisamos de regras, a convivência não é possível sem elas. Como a vida em sociedade é melhor do que viver só, nós seguimos essas regras, cedemos certas liberdades como poder matar ou roubar o próximo para usufruir dos bens que temos ao viver em paz com outros. 

Lucio: Isso parece pressupor que há algum tipo de "estado natural" do homem que, inicialmente solitário, que se junta com outros para formar a civilização. 

Tomás: E qual o problema com isso? 

Lúcio: Esse tipo de pensamento não se sustenta ao pararmos para olhar para as pessoas. O homem precisa dos país para nascer, leva vários anos antes de poder se alimentar sozinho ou se defender de qualquer ameaça, não é capaz nem de falar sem ter antes sido educado e não é exatamente capaz de sobreviver na maioria dos ambientes sem ter ajuda de outros. Como o homem, inicialmente solitário, pode um dia decidir viver acompanhado se só pode realmente existir graças aos outros? Só pode ser individualista ou qualquer outra coisa quem vive cercado pelos outros.  

Stuart: Além disso, ao olharmos para o homem vemos que é uma criatura extremamente dependente dos outros emocionalmente. Boa parte da auto-imagem que temos vem do que recebemos dos outros. Muitas vezes, a forma que nossas atitudes ou ideias são vistas por quem convive com nós define se vamos mudar ou não. Não há possibilidade da humanidade primitiva ter sido tão individualista. 

Murray: Verdade. Todo sujeito nasce no meio de um local específico e de um povo específico. 

Roko: Realmente. Parei de dar atenção pra essas ideias ao ver as crianças selvagens. O homem realmente é social.

Tomás: E se essa história de Estado da natureza for mais um mito? Seria uma história literalmente falsa mas que é verdadeira em outro sentido. Apesar de não criarmos a sociedade, é verdade que a sociedade precisa que obedeçamos certas regras e que costumamos as cumprir porque é melhor para nós. Muitas leis e muitas normas sociais são irritantes ou atrapalham mas são um preço pequeno a pagar pra manter a ordem. Por isso, continuariamos as aceitando mesmo se pudéssemos abandonar tudo para morar no mato.    

Lúcio: Como um mito, é uma ideia que não merece risos, ao menos de cara. 

Roko: Realmente faz mais sentido assim. Por que os animais não teriam direitos nesse caso?

Tomás: Direitos são no fundo obrigações que impomos aos outros. Quando a lei diz que você tem direito a vida, diz que tenho a obrigação de não te matar. Aceito isso mas exijo o mesmo: você não pode me matar também. Como os animais irracionais não podem seguir regras, não faz sentido dar direitos a eles. 

Roko: É por isso que os bichos não tem valor então? 

Tomás: Isso. É algo bem simples, não sei de onde vem essa bobagem vegana. 

Stuart: Você esquece que há pessoas que não podem seguir regras também por serem incapacitadas, muito pequenas ou loucas. Há também pessoas muito fracas fisicamente, financeiramente ou socialmente e que portanto não tem praticamente nenhuma capacidade de serem problema para os outros ou que podem ser paradas por ameaças, então não faz sentido fazer o acordo com essas para elas não te ameaçarem. Se essas pessoas não podem participar dessa relação reciprocra mas mesmo assim tem direitos, como os animais irracionais não tem o mesmo luxo?

Lúcio: Verdade. A sugestão de que os fracos não devem ter qualquer valor é abominável. Ou se cria alguma distinção entre humanos com problemas e animais irracionais ou tem que aceitar que os outros animais tem valor. 

Tomás: É simples: qualquer pessoas é sujeita a perder suas capacidades físicas, cognitivas, financeiras ou sociais. Como tenho medo de perder algumas e ficar em perigo, aceito não fazer mal aos de fora da reciprocidade sob a condição da sociedade me tratar da mesma forma se um dia eu acabar como eles. Como não tenho risco de mudar de espécie, não estendo essa proteção aos outros animais.  

Stuart: Você realmente não tem esse risco. A distinção entre humanos e outros animais funciona nesse caso então.

Tomás: Então resolvi o problema?  

Roko: Só se essa for mesmo a origem da ética. Se for, ai realmente o veganismo é bobagem.

Lúcio: Que bom então que a ideia é falsa, pois isso de jeito nenhum é a origem da ética.

Tomás: E por que não?

Lúcio: Esse mito no máximo explica porque nós aceitamos perder algumas liberdades nossas ao viver em civilização, mas não explica a origem dos nossos direitos e principalmente deveres naturais.

Tomás: Claro que explica. Nossos direitos e deveres são gerados via acordo, aceitamos ceder a nossa capacidade de fazer mal aos outros em troca deles fazerem o mesmo.

Lúcio: Então o motivo de eu não prejudicar os outros é porque isso me ajuda?

Tomás: Exatamente. Podemos dizer que a base da ética é a auto-preservação. 

Lúcio: Nesse caso, eu não cumpro as leis porque eu devo cumprir as leis, mas porque eu quero algo, vida boa, e seguir as leis é a melhor forma de obter o que quero.

Tomás: Sim, qual o problema? Isso não quer dizer que você deve obedecer as leis?

Lúcio: Você não entendeu. Quando eu quero, por exemplo, ficar bombado, eu devo ir para a academia porque esse é o melhor jeito de ficar bombado. Eu "devo" no sentido que é a ação que melhor atinge meu objetivo. Quando estamos falando de um dever no sentido ético, falamos do que eu devo fazer não porque é algo útil, mas porque é certo. No primeiro caso o que define o "certo" são meus objetivos e no segundo caso o que define o certo não depende da minha vontade, é um fato normatuvo. 

Stuart: Verdade. Essa ideia de acordo só lida com o que é mais racional, é útil seguir essas regras. A ética lida com valores, o que é objetivamente certo, qual conduta é mais nobre. São coisas diferentes.

Lúcio: Exato! Se essa é a base da ética, então a ética não existe, já que em momento algum nós chegamos a falar realmente de valores, só o que é mais útil. Em momento algum surgem deveres objetivos. Só ver que caso a única razão de eu seguir as leis seja isso ser vantajoso pra mim então não há nada de errado em eu descumprir as leis quando sei que não vai acontecer nada comigo. Isso é ridículo, há sim condutas nobres de verdade.

Tomás: Claro que minha ideia gera deveres! Não há nenhuma diferença relevante entre eu e os outros, então se eu defendo que todos tem que obedecer as leis eu também tenho! Logo, um hipócrita não presta e alguém que segue as leis é nobre.  

Stuart: Mas pro seu raciocínio funcionar eu primeiro não teria que ter a obrigação de não ser hipócrita? Sua posição não consegue gerar deveres sem pressupor que ser hipócrita é errado, ela precisa de certo e errado para gerar certo e errado. Como uma posição que depende da ética pode ser a base da ética?

Lúcio: Isso! Fora que nessa posição eu não tenho uma obrigação de defender que todos sigam as leis, eu só faço isso por interesse próprio. Alguém que defende uma guerra de todos contra todos não seria hipócrita ao desobedecer as leis. Fora que sua visão não há um dever de não defender o caos, a maioria das pessoas só não defende. 

Murray: São problemões! Além disso, como uma posição dessas ia ter como diferenciar uma sociedade com leis injustas de uma com leis justas? Se eu preciso escolher entre aceitar as leis ou viver sem regras então praticamente qualquer regra é boa. O individuo que sofra!

Tomás: Não tinha pensado nessas coisas. Realmente, não dá pra defender minha visão.

Murray: Não ia falar nada por concordar que veganismo é besteira, mas não deu não. É uma posição péssima e mesmo sua utilidade aqui não muda isso. O nível de opressão contra o individuo que isso poderia gerar é absurdo.

Tomás: Bom, tenho que concordar. 

Roko: Nesse caso, o veganismo ainda tá sendo debatido. Murray, já que não é vegano não quer defender seu ponto de vista? Se você falhar, ai os veganos podem defender a ideia.

Murray: Beleza. 

Stuart: Parece justo. Então em breve vamos mostrar os males da escravidão do nosso século. Tomara que a abolição seja mais rápida.

Tomás: Não seja tão dramático, haha.

Stuart: Se não posso ser nesse tema, não sei onde posso, hahahaha.

Lúcio: Hehehe. Realmente.

Murray: Bom, eu mostrarei que é um tema bem normal, não é nada de escravidão não. Teve um tempo que fiquei meio que em conflito com minha visão e outra mas achei uma prova da visão correta, então sei que posso defender o certo. 

Roko: Então nos explique sua visão da base da ética e porque ela anula o veganismo. 

Murray: A base da ética é a auto-propriedade, o único direito natural. Sou dono de meu corpo e minhas posses e portanto ninguém pode fazer nada comigo sem meu consentimento. Isso quer dizer que enquanto não perturbo ninguém posso fazer o que quiser, mas se prejudicar alguém sem consenso ai a coisa fica feia.

Stuart: De novo não...

Murray: Algum problema? 

Stuart: Nada, só uns flashbacks. Pode continuar.

Murray: Certo. Como podem ver, a ética tem como base a liberdade, garantida pelo direito natural da auto-propriedade.   

Lúcio: Então está dizendo que a única guia da ética é não matar, roubar e coisas do tipo? 

Murray: Exatamente. Se você não incomoda ninguém, não faz nada de errado. 

Lúcio: É uma ideia estranha e que seria motivo de riso pros antigos. Por que acreditar nisso e como essa ética exclui os animais irracionais?   

 Murray: É simples: o homem é o animal racional. Enquanto outros animais se sustentam usando seus instintos apenas, o homem precisa do uso da razão para planejar, escolher entre opções, argumentar, calcular etc. Só o individuo pode escolher seus meios e fins e o direito da auto-propriedade garante que é o individuo que toma essas decisões, então o direito a auto-propriedade é necessário para que o homem floresça mas não para os outros animais.

Roko: Então temos auto-propriedade porque só podemos florescer se tivermos esse direito?

Murray: Isso. Os outros animais não tem o uso da razão e nem precisam disso, então não tem o direito ou qualquer outro. Segue que não temos o dever de não tornar animais irracionais propriedade e que podemos fazer o que quisermos com eles.

Roko: É, se isso é verdade o veganismo é besteira. Só temos que ver se é.

Stuart: Ou talvez não, os outros animais também demonstram um nível bem alto de inteligência. Não sei se dá pra limitar a razão só pra nós.  

Lúcio: Ai depende do que queremos dizer por racionalidade.

Stuart: Ora, é a capacidade de planejar e de detectar soluções pros problemas, não? Alguns animais como corvos podem fazer coisa assim.

Roko: Bom, se for o caso, só os corvos devem ter racionalidade. Não provaria um veganismo total. 

Murray: Exatamente! E mesmo o que alguns animais como corvos e macacos fazem não prova nada! Até mesmo um computador tem certa capacidade de "planejar" e "detectar soluções" se bem programado e nem mesmo quem defende que a mente humana é um computador defenderia que os de hoje conseguem pensar.

Stuart: E como esses animais fariam os planos complexos que fazem sem racionalidade?

Lúcio: De novo, depende da definição. Você usa o termo num nível muito amplo e que não condiz com o que a maioria dos grandes sábios diria.

Stuart: E o que essas relíquias diriam que é a racionalidade?

Lúcio: A capacidade de transcender os particulares mutáveis e visíveis aos sentidos e adquirir o conhecimento dos universais necessários, eternos e visíveis aos olhos das almas que alçam voo! De subir até os céus e retornar ao corpo entendendo tão bem esse reino inferior que agora voltou a ter a capacidade de declarar com veracidade a natureza das coisas! De obter dessas informações tão antigos e tão novos conhecimentos através do puro raciocionio! Conhecimentos que os sentidos jamais dariam! 

Roko: Então...

Tomás: É, né...

Murray: Do que entendi, concordo.   

Stuart: O que exatamente isso significa? É bonito, mas só.

Lúcio: Quis dizer que a racionalidade é a capacidade de adquirir conceitos abstratos, como "homem" e "mortal", os relacionar em juizos, como "todo homem é mortal", e raciocinar de um juizo pra outro até novas conclusões, como ir de "todo homem é mortal" e "Sócrates é homem"  para "Sócrates é mortal". Era isso que tinha entendido, Murray?

Murray: Um pouco.

Tomás: Agora sim!

Roko: Faz sentido. Como se fala realmente muda tudo...

Stuart: Bom, realmente é mais claro agora. Mas como os animais podem fazer planos complexos sem esse tipo de capacidade?

Lúcio: Apesar de não terem acesso ao universal, imutável e imaterial, os animais tem instintos, sentidos, memória e imaginação. Essa mente mais humeana é muito útil. Com os instintos eles tem inúmeras informações importantes. Com os sentidos ganham o combustível para as outras duas. Com a memória aprendem a associar acontecimentos, cheiros, ações etc umas com as outras. Com a imaginação eles podem construir imagens mentais sofisticadas e construir cenários usando as regras de associação formadas via sentidos e memórias além da tentativa e erro. Eu estou bem longe de negar que os bichos podem fazer bastante mentalmente e quase todo mundo antes de Descartes também negaria.

Stuart: E acha que mesmo sem a razão isso tudo seria possível pra eles?

Lúcio: Sim, mas é uma questão mais empírica. Fora que mesmo que certos animais fossem racionais em algum nível isso não provaria o veganismo total. Falo isso como defensor da ideia.

Stuart: Bom, é verdade. Falando na ideia, Murray, então você está dizendo que pelos animais não serem racionais nós podemos fazer o que quiser com eles?

Murray: Exatamente. Os animais inferiores realmente são propriedade. O homem seria a joia da criação se tivesse sido criado por alguém.  

Stuart: Bom, e se existissem aliens muito mais inteligentes que nós? Eles poderiam nos escravizar também?

Murray: Não poderiam por termos auto-propriedade. Como só tem o direito quem é racional e nós somos, ninguém pode fazer nada com nós sem consenso.

Tomás: Tinha entendido assim mesmo. A capacidade racional é então como uma linha: se atravessou tem o direito e pronto. 

Murray: Exatamente. Assim que é de natureza racional, é iguais aos outros. Não importa o nível de racionalidade. Da mesma forma, quem está abaixo não é diferente das outras propriedades. 

Roko: Isso faz sentido. 

Stuart: Voltando a base, então o motivo de termos esse direito é que ele protege o uso da razão e assim garante nosso florescimento?

Murray: Isso. Ninguém pode prosperar sob o jugo da coerção e a auto-propriedade a barra, então temos esse direito. 

Stuart: Bom, Murray, é fato que todo ser humano precisa de comida e água para sobreviver e prosperar, isso significa que comida e água são direitos?

Murray: Jamais. Direitos positivos serem direitos naturais seria literalmente socialismo! Os únicos direitos são os que chamamos de negativos, como direito de não ser roubado, morto, agredido etc. A auto-propriedade garante só esses direitos, embora você possa ter "direito" a comida e água se morar numa comunidade privada onde essas coisas são garantidas por contrato.

Stuart: Então o fato de alguma coisa ser necessária para o florescimento do homem não garante que essa coisa seja um direito natural? 

Tomás: Entendi! É uma falha e tanto na argumentação...

Roko: Realmente.

Murray: O que?

Lúcio: Se não deu pra entender, responda a pergunta.

Murray: Bom, certo. Algo ser necessário para florescermos não nos dá direito nenhum, ou algum estadista podia defender que temos o dever de pagar aulas pra todos ou sustentar museus. 

Stuart: Então a auto-propriedade ser necessária pro nosso florescimento não nos dá o direito a auto-propriedade, certo? Dizer o contrário é abrir espaço pra exigências bizarras dos "estadistas", não é?

Murray: Oh...

Roko: Nesse caso, tem que ter outro motivo pra acreditarmos em auto-propriedade. 

Murray: Então eu tenho outro: sem a auto-propriedade, essa conversa ia ser impossível!  

Tomás: Esse é interessante, explica ai.

Murray: É simples: ou existe a auto-propriedade, ou toda a humanidade é dona de todos os corpos ou ninguém é dono de nada. Só existem essas três opções e a única válida é a auto-propriedade.

Roko: Eu consigo pensar em outras opções, mas acho melhor deixar pra discutir isso se precisar. Por que dessas opções só a auto-propriedade funciona?

Murray: Imagine que toda a humanidade é dona de todos os corpos: nesse caso, pra fazer qualquer ação uma pessoa precisaria ser autorizada por todas as pessoas que existem no mundo. Isso obviamente é impossível e portanto toda a humanidade já teria morrido, então essa opção não é a certa. Agora imagine que ninguém é dono de nenhum corpo: nesse caso, como ser dono de algo é ter controle de algo, ninguém teria como fazer nada e portanto não ia poder se mover, outra vez causando o fim da raça humana. Como podem ver, só a auto-propriedade garante a vida.

Stuart: O argumento contra o primeiro ponto de vista é interessante, se bem que acho que ninguém acredita nisso. Mas esse contra o segundo...

Murray: O que tem de errado?

Roko: Também queria saber! Como exatamente esse argumento falha?

Stuart: Bom, Murray não é vegano e portanto não acha que os outros animais tem auto-propriedade, certo?

Murray: Obvio. Como esses seres teriam qualquer direito sem terem racionalidade?

Stuart: E eles morreram todos?

Murray: Não.  

Stuart: Exatamente. Isso porque ter propriedade sobre algo não é ter controle no sentido de ter a capacidade de usar algo, um bandido tem a capacidade de usar um carro roubado mas não é o proprietário. Ter propriedade sobre algo é ter o direito de usar esse algo, o dar, o vender etc. É verdade que não daria pra vivermos sem ter a capacidade de usar nossos corpos, mas isso não prova o direito de propriedade sobre os corpos. 

Lúcio: Entendi. Temos auto-propriedade no sentido de que conseguimos fazer o que quiser com nossos corpos mas o argumento não prova que temos auto-propriedade no sentido de termos o direito de fazer o que quiser com nossos corpos. 

Stuart: Isso. Nesse caso, o argumento falha, já que não prova que esse tal direito exista. 

Lúcio: É verdade. Murray, tem mais alguma defesa da auto-propriedade?

Murray: Não diretamente. Mas de que outra forma podemos condenar as maldades feitas pelo Estado já fazem milênios sem esse direito?

Tomás: Não é justamente esse o assunto? Qual ética é a verdadeira?

Roko: Verdade. Como não tem nenhum motivo direto pra acreditar em auto-propriedade acho que dá esquecermos disso pra mudarmos de ataque ao veganismo pra defesa da ideia, não é?

Murray: É impossível essa ideia ser certa, mas tudo bem. 

Tomás: Então qual dos dois vai começar a defender qual a base da ética e como isso garante direitos animais?

Lúcio: Pode ser eu mesmo. Vai ser divertido.

Stuart: É uma boa.

Roko: Então pode começar. Vamos ver se o lado vegano ganha.

Lúcio: Certo. Eu pergunto então: qual a cor dessa parede?

Murray: O que é que uma coisa tem com a outra?

Lúcio: Tudo. Como dissemos antes, a ética certa depende de vários outas outras verdades metafísicas, históricas, mentais etc, não é algo que fica flutuando no meio das outras verdades sem conexão com elas. 

Tomás: Então o papo sobre a parede é para corrigir erros que fazem o veganismo difícil de aceitar.

Lúcio: Isso. Me parece que a separação entre nós e os outros seres conscientes vem de idiotices na área da metafísica e quero as corrigir.  

Murray: Entendi. Acho difícil qualquer coisa nessas especulações ai serem relevantes mas pode continuar.  

Lúcio: Então pergunto outra vez: qual a cor da parede?

Roko: Branca.

Lúcio: Essa cor é uma qualidade da parede em si?

Roko: Não, é como seu cérebro processa as coisas mesmo. A parede por si só não tem cor, sabor, textura etc, isso vem de nós. A própria ideia de parede vem de você, o que existe é um conjunto de partículas vistas pela sua mente como uma coisa só.

Lúcio: Entendo. Mas eu só percebo qualidades como a cor, formato, textura, dureza, cheiro etc. Está dizendo que por trás dessas qualidades há alguma coisa indetectável e que nem tem as características que eu vejo?

Roko: Parece estranho, mas sim. É o que chamamos de matéria. 

Lúcio: E o que exatamente é essa matéria? Como ela é?

Roko: É uma pergunta difícil. Acho que a matéria é algo que ocupa determinado espaço, que está numa área específica. 

Lúcio: Certo. Nesse caso, essa matéria então é algo que não tem as qualidades que meus sentidos mostram?

Roko: Isso. As qualidades como cor, cheiro, sabor etc não podem ser objetivas porque são variáveis demais. As coisas podem parecer de uma cor pra uma pessoa e de outra cor pra outra ou coisas assim. Segue então que a matéria só pode ter as qualidades objetivas que podem ser mensuradas e analisadas cientificamente, como massa, velocidade, número, peso, formato etc. 

Lúcio: Entendo. Então você concorda que essa matéria não é observável? Já que só vemos qualidades chamadas subjetivas e mesmo as objetivas não podem ser  totalmente abstraidas das subjetivas. 

Roko: É verdade que não dá pra ver a matéria, mas ela obviamente existe como substância por trás das qualidades.

Stuart: Ai já é muita especulação. Dá pra afirmar com certeza que temos sensações e que, se nada mudar, vamos ter sensações parecidas ao fazermos as mesmas coisas, só isso. Dizer que existe algo além do visto empiricamente é demais.

Roko: Então o mundo externo não existe? 

Stuart: Dá pra dizer que existe no sentido que há uma ordem sensorial: as sensações que temos são consistentes. Mas dizer que há substâncias vai além dos sentidos.

Tomás: Mas os sentidos também não dizem que as coisas vão ser como antes. Ter mil vezes a sensação de dor ao tocar numa panela quente não sugere por si só que vai acontecer o mesmo no futuro, ao menos os sentidos não dizem nada disso por si só.

Roko: É verdade.

Stuart: Nesse caso, dá para acreditar que vai acontecer outra vez via indução. É um método excelente.

Tomás: Entendo. Mas você não tem justificativa para acreditar nisso sem acreditar em substâncias.

Stuart: Tenho a indução. Confio que o mundo vai agir da mesma forma e sempre funcionou.

Roko: Mas se não há substâncias então como o mundo tem essa ordem? Uma substância é justamente o que une e ordena as características, então do fato de que há essa consistência dá pra justificar a crença em substâncias mesmo sem os sentidos a mostrarem.

Tomás: É verdade. Se substâncias não existissem, não haveria realmente uma razão para as sensações seguirem sempre uma ordem, então acreditar em substâncias seria justificado indutivamente.

Stuart: Bom, é verdade. Faz sentido. 

Lúcio: Então temos que saber qual é a substância que existe. A matéria parece muito problemática. 

Roko: E por que?

Lúcio: Você diz primeiro que tudo que existe é material, incluindo nossas mentes, certo?

Roko: Isso mesmo.

Lúcio: Você também diz que a matéria não tem as qualidades subjetivas cor, cheiro, sabor etc, certo?

Roko: Mas é claro. Qual o problema com essas duas ideias? 

Lúcio: Elas podem ser unidas em um argumento meio estranho, veja: Nada material tem qualidades subjetivas. A mente humana é material. Logo, a mente humana não tem qualidades subjetivas.  Consegue perceber o erro?

Murray: Caramba! 

Tomás: Achei que ia ser outro argumento contra o materialismo, mas isso é interessante! 

Stuart: Entendo. Através dessas suas premissas podemos tirar a conclusão de que a mente humana não tem experiências, tudo que vemos seriam ilusões. Como isso é ridículo, alguma premissa está errada. 

Roko: Pode parecer que sim mas isso claramente é uma limitação atual da ciência, um dia sei que será resolvida.

Lúcio: Se os dados científicos falassem que o materialismo é verdade talvez fizesse sentido pensar assim, mas eles na verdade parecem bem quietos. As premissas vieram da sua opinião filosófica de que por trás dos dados sensoriais há essa coisa chamada matéria que tem só as tais características objetivas. Como a ciência pode ajudar se o problema é a incoerência dentro de uma opinião filosófica?

Stuart: Realmente. A ciência pode funcionar com qualquer ontologia desde que essa não resolva negar certas coisas como a regularidade da natureza, então ter matéria ou não é uma decisão pro filósofo.

Lúcio: Exatamente. O problema é unicamente o materialismo, as duas premissas materialistas juntas levam a conclusão falsa então uma tá errada. Prefiro eliminar a que diz que a matéria tem características objetivas apenas porque na verdade ela não tem nenhuma, já que não existe.

Stuart: Mas vimos antes que tem que existir uma substância por trás dos fenômenos para a ordem que vemos existir. Se não tem matéria, existe o que?

Lúcio: Bem lembrado. Na verdade, há sim uma substância: tudo que existe é mental. Ao invés de um mundo material que gera a mente, só existe mente mesmo. É o idealismo metafísico.

Murray: Como assim? Você diz antes que tem que existir algo além dos dados dos sentidos e agora que não tem nada além deles?

Lúcio: Não exatamente. Ao invés da substância que ordena as características que vemos ser a matéria, eu estou dizendo que é mente. Eu nego que exista um mundo material além das nossas mentes mas ao invés disso defendo que somos todos meio que parte de uma mente maior.

Murray: Então ao invés de existir um mundo fora de mim só existe a minha mente e outras mentes que me mandam dados pra eu ter sensações?

Tomás: Não faria muito sentido, já que o que separa um ser humano de outro é cada um ter nascido numa data tal e estar num local tal. Essas duas coisas só são possíveis se a pessoa tem um corpo de matéria, que está sob o tempo e o espaço.  Se corpos não existem, então não haveria como separar os seres humanos.

Lúcio: Isso, por isso eu acredito que só existe uma mente que, como quem tem dupla personalidade, está por algum motivo dividida em várias experiências diferentes ao mesmo tempo: cada ser consciente. Ou seja, tudo que existe é Mente com m maiúsculo, e Esse que é dividido em várias pequenas mentes, todos nós. Como temos sensações tão constantes e que não podemos mudar, acreditamos que há um mundo material, mas não há.

Stuart: Então não podemos controlar nossas sensações por sermos um pedacinho isolado dessa mente suprema e não por sermos afetados por um mundo externo?

Lúcio: Exatamente. É como se a mente tivesse essas sensações mas algumas partes delas, nós, as recebesse sem saber de onde e sem poder se comunicar do mesmo jeito. O isolamento é tão grande que o todo do qual somos parte parece algo externo. Não sei o motivo disso ser assim, mas essa unidade de todas as coisas por baixo das diferenças é um tema bem comum das espiritualidades orientais e algumas pagãs ocidentais. Muitos sábios defenderam coisa assim.      

Roko: Certo. Como exatamente isso seria prova de que deveríamos ser veganos?

Murray: É, é bom que uma ideia assim ao menos seja relevante.

Lúcio: Simples: a Mente está dividida em todas as outras consciências que existem e muitos animais tem consciência, mesmo que num nível bem primitivo em alguns casos. Isso quer dizer que, como notado por tantos orientais, nós e os outros seres somos na verdade a mesma criatura. O "eu" que motiva o egoísmo é uma ilusão! Qualquer barreira entre o homem os ditos animais inferiores é quebrada! Comer um bicho é como comer o próprio braço...

Stuart: Isso é verdade! Se essa metafísica é verdade então toda forma de sapiência é parte de um só ser, destruindo a divisão entre sujeito e objeto ou entre proprietário e propriedade. Realmente fica difícil dizer que alguma forma de ser consciente não tem valor quando ele é parte sua!  

Lúcio: Isso. A base da ética é obviamente a inexistência de indivíduos.

Murray: Como assim indivíduos não existem? Negar que há sujeitos é negar qualquer regra que impeça a tirania da maioria. Se só há o coletivo, então não há limite pro voto, tudo pode ser arrancado de seu dono.   

Roko: É uma preocupação e tanto mesmo, como evitar que isso seja usado de forma totalitária? 

Lúcio: O sábio que reconhece a não-realidade dos bens visíveis e também sua relação de igualdade com os outros seres conscientes não é capaz desse tipo de coisa. Ao prejudicar parte de mim buscando alimentar um ego ilusório eu não estou indo contra a verdade e vivendo uma mentira? Os totalitários do século passado eram justamente nominalistas que aceitavam apenas a existência dos particulares e que portanto negavam qualquer lei além dos desejos de seus corpos. Alguém que entende a natureza da realidade não faz mal a nenhum ser.  

Stuart: Bom, realmente é mais provável um sujeito que leva essas coisas ao limite ir eremitar numa floresta do que ir pra política.

Murray: Mas essas ideias não acabariam gerando alguma bobagem comunista de todo mundo trabalhar pelo todo? 

Tomás: Gera no máximo aqueles grupinhos de hippies pacifistas ou comunidades monásticas. Comunismo bem voluntário. É o tipo de coisa que mesmo verdade só influenciaria minorias.

Murray: Assim tudo bem. Não que o veganismo tenha mais poder...

Stuart: Os tempos estão mudando, vocês vão ver.

Tomás: Duvido bastante.

Roko: Também acho difícil. 

Lúcio: Sim, a natureza da realidade nunca motiva muita gente a viver direito, mas estamos em busca do verdadeiro e não do popular, então isso não importa muito. A questão é que o materialismo leva a negação das nossas mentes, então o idealismo tem que ser verdadeiro.

Tomás: E o hilemorfismo? 

Lúcio: O idealismo postula menos coisa, é melhor ser mais econômico.

Murray: Não sei o que é isso ai mas deve ser melhor. Não vejo razão pra rejeitar o materialismo se vamos ficar com esse idealismo. 
 
Lúcio: O que no idealismo é mais absurdo que negar a consciência? 

Murray:  Simples: idealismo é bem bizarro. Por que não aceitar que a nossas mentes na verdade não tem experiências e que o que vemos não é verdade?

Lúcio: E isso é melhor?

Murray: Parece menos absurdo.

Tomás: Claro que esse idealismo é bizarro, mas dizer que é melhor negar que sentimos, ouvimos etc? Ai já é loucura.

Murray: E qual o problema? Ao negar um mundo além dos sentidos e ao negar que somos seres diferentes um dos outros já são duas ilusões. Aceitar o materialismo e negar que há consciência é aceitar uma ilusão a menos. 

Tomás: Não vejo como isso te ajuda... 

Lúcio: Isso. Como dizem por ai, é questão de qualidade, não de quantidade. Uma ilusão só é possível porque temos uma vida mental, então dizer que nossa vida mental é ilusória é dizer que um círculo é quadrado.

Stuart: Isso é obvio. Como todo pensamento parte das experiências, negar as experiências é negar o pensamento.

Murray: Como assim?

Lúcio: O que é uma ilusão?

Murray: É quando você vê ou pensa algo que não é real.

Lúcio: Então uma ilusão depende de eu ter certa experiência ou pensamento?

Murray: Isso, pedras ou coisas assim não podem ser enganadas. 

Lúcio: Então como alguém teria a ilusão de parecer ter experiências mas não ter?

Murray: É só você começar a... bem, tem como... é, não é possível.

Stuart: Se as experiências não existissem seria impossível parecer que as temos. Segue então que não podemos duvidar de que temos experiências.     

Murray: Entendi.

Roko: Realmente só um louco pra negar que experiências não existem, o materialismo é loucura. Mas então porque não defender que as partículas além de serem materiais tem meio que experiências e que quando as partículas se juntam numa coisa só, tipo num animal, essas mini-experiências viram uma única consciência complexa?

Stuart: Como se cada partícula simplesmente tivesse "grudada" nela um tipo primitivo de experiências?

Roko: Isso mesmo! 

Murray: Mas vocês só inventam coisas esquisitas... 

Stuart: Parece desespero pra mim. Se percebe que a consciência não tem lugar num mundo materialista ai se postula que a matéria tem consciência ao invés de largar o materialismo.

Roko: Mas ainda temos que considerar essa opção, não?

Stuart: Bom, é verdade.

Tomás: O problema de considerar essa ideia é que as nossas experiências sempre são unificadas. Quando vou tomar café só tem uma experiência única com cheiro, gosto, calor etc, não trilhões de mini-experiências. Dizer que as experiências das partículas iam se unir é como dizer que se todos os chineses do mundo se unissem do jeito certo eles literalmente virariam uma só mente, haha.

Roko: Mas os grupos e Estados não são uniões de pessoas que formam algo só?

Murray: Só na linguagem! Na prática, indivíduos querem a mesma coisa e se percebem como parte de algo mais, mas não há um ser além deles chamado coletivo, é uma das bobagens dos malditos socialistas! 

Tomás: Enfim... realmente não existem grupos nesse sentido de existir. O Brasil, por exemplo, não tem uma mente própria.

Roko: Sim. Viajei bastante mesmo.

Stuart: Acho que não há nenhuma outra sugestão metafísica, é bom ver então se o idealismo explica a ética, não é?

Lúcio: É bom mesmo. Me parece claro que essa doutrina revela nossa amizade com os outros viventes e o caminho para superar o mutável e chegar ao eterno e imutável, também provando o veganismo, mas vocês podem dizer se há algum erro.

Tomás: Bom, você apontou antes que uma ética não é um bônus que pode ser colado em qualquer visão de mundo e então combinar com o resto, uma ética na verdade é resultado de várias outras crenças sobre o mundo. Por isso, nossas éticas dependerem de crenças que não sustentam valores objetivos é o suficiente para elas não terem força, não é?

Lúcio: Com certeza. A ideia de que podemos dizer como um homem deve viver sem saber o que é um homem, o que é bom para ele e onde ele vive é o tipo de idiotice que só um acadêmico poderia defender. Além de ter uma vida virtuosa, requisito lembrado sempre pelos sábios que ignoramos nessa discussão por conveniência, aquele que deseja saber como viver deve ter um estudo holístico sobre a realidade. Como a casa é incluída na vila, é o conhecimento da boa vida incluído no conhecimento da realidade! Sem o todo, a parte perece...

Tomás: Isso levanta a questão então: de onde vem os valores objetivos no idealismo?

Lúcio: Vem do fato que as distinções que fazemos entre "eu" e "outro" são ilusórias e que o tal "mundo" também é. Não tem sentido usar e abusar de tudo e de todos para alimentar um falso ego, isso seria viver uma mentira.

Roko: É, isso explica porque as pessoas com crenças assim abandonam a vida comum.

Murray: Só assim mesmo pra largar tudo.

Tomás: Sim, se o idealismo é verdade então não dá pra ser autêntico, sincero com si mesmo, e ser hedonista. Mas por que ser autêntico? Dentro dessa filosofia, o que há de errado em agir como se o ego fosse real?

Stuart: Realmente, essa ética parece depender da existência do dever de não mentir pra si mesmo. É como seu pacto social, Tomás.

Murray: Filosofia movida pela vingança! Quem diria!

Stuart: Hahaha.

Tomás: Bom, hehe, isso não é importante. A questão é que nessa metafísica a ética não tem base. Se tudo que há é uma única mente então não há como ela ser a base da ética pois nesse mundo a ética seria a mente dando ordens a suas personalidades. Também não há como a Super Mente receber valores de fora pois só ela existe realmente. Não tem ética objetiva aqui.

Ļúcio: Entendi. Pensei na base da ética ser a natureza humana, a Humanidade que compartilhamos, mas agora vejo que isso exigiria distinções que são ilusórias no idealismo. A divisão entre certo e errado seria maya, útil mas que deve ser transcendida para conhecer a verdade. Nesse caso, o idealismo não é compatível com o normativo e portanto não pode ser o certo aqui...

Roko: Nesse caso, o idealismo não serve para provar o veganismo. Ao menos deu pra aprender coisas interessantes nessa área mais metafísica. 

Lúcio: É...

Roko: Stuart, só sobrou você. Se você falhar, vamos ficar sem saber se o veganismo tá certo ou errado.

Murray: Ou vamos usar a razão e rir disso...

Stuart: Nem um nem outro, vamos todos virar veganos hoje! Agora decidirei a questão.

Tomás: É bom ver essa confiança. Diga então a base da ética.

Stuart: Claro. A base da ética é o sofrimento. Causar sofrimento de forma desnecessária é errado e os outros animais, ao menos os mais complexos, claramente sofrem ao serem confinados em espaços pequenos ou lotados, feridos, mutilados e mortos com métodos brutais, algo que acontece na produção de carne, ovos, leite e outros produtos animais. Fora o impacto no meio ambiente. Como não precisamos fazer isso, então a produção de produtos não-veganos é errada. Se a produção é errada, consumir também.

Roko: Esse é o argumento mais comum mesmo. O do Lúcio é raro de encontrar hoje.  Há também quem defende e quem ataca o veganismo via religião, mas não tocamos nesse assunto. Realmente nossa discussão estava meio afastada das conversas normais. 

Tomás: Com certeza alguns veganos achariam a discussão antes inútil por causa disso. Fazer o que. 

Stuart: Realmente, mas foi uma discussão que tocou em outros temas importantes também, então não concordo com deles.

Tomás: É verdade, deu pra aprender coisas interessantes.

Roko: Isso sim.

Murray: Que estranho terem parado para meio que defender a utilidade do que falamos antes...

Roko: Bom, er, já falamos demais desse tema, vamos voltar ao veganismo: por que acreditar nessa sua opinião, Stuart?

Stuart: Simples: assim como sempre ver o mundo agindo igual nos leva a crer na indução, sempre ver alguém sofrer sem motivo como algo ruim nos leva a crer que sofrer sem motivo é ruim. Se isso é ruim, obviamente é errado causar sofrimento sem motivo.

Roko: É então com essa intuição, por assim dizer, que se vê que somos obrigados a não causar sofrimento sem motivo? Igual o caso da indução?

Stuart: Isso. Assim como um é racional, o outro também.

Roko: Entendi.

Murray: Mas qual a base metafísica desse dever? Você não devia ser o único a poder escapar dessa parte.

Stuart: Eu diria que não preciso disso, uma pessoa não precisa saber a base metafísica da ordem que vê antes de acreditar nela. Essa "intuição" de que esse dever existe já é o bastante.  

 Murray: E por que não posso apelar para esse tipo de desculpa também?

Stuart: Você pode. O problema é que pouca gente diria que a auto-propriedade é algo obvio como a indução. Agora, que é errado causar sofrimento sem motivo é bem mais obvio, então parece provável que seja dado intuitivamente. 

Murray: Só um comunista diria que a auto-propriedade não é obvia!

Stuart: Existirem tantos "comunistas" não mostra que não é algo tão obvio assim?

Murray: Só numa sociedade estadista não é!

Stuart: É difícil achar uma que não seja estadista então. Isso só piora sua situação, pois é algo claramente não-obvio.

Murray: Ou mostra que há algo de errado com a maioria...

Stuart: Isso é bem arrogante.
   
Roko: Na verdade, é um bom ponto até. Muitas culturas faziam, ou fazem, coisas como botar animais irracionais e seres humanos pra lutar brutalmente só pras pessoas se divertirem. Se a ideia de que sofrimento sem motivo é ruim vier por alguma intuição, como isso é possível?   

Stuart: As pessoas não são tão coerentes assim com suas intuições. A chance de ganhar uma vantagem financeira ou social, algum prazer sádico e coisas do tipo podem fazer o individuo ignorar essa sensação de que causar sofrimento é errado. Basta uma ou duas pessoas certas fazerem isso que o resto vai também. 

Murray: Eu digo o mesmo sobre os comunistas, então a auto-propriedade é dada por intuição. 

Roko: Exato, não acho que só um possa usar essa defesa. Salvo coisas como indução, da qual só desocupados costumam duvidar, fica dificil falar de intuições.

Stuart: Bom, realmente é menos óbvio que indução...

Tomás: Fora que termos acesso a essa intuição seria bizarro. Não ia chegar até nós pela análise do mundo ou um silogismo, já que, como você defendeu, não saberíamos a base metafísica da ética. Também não poderia vir dos sentimentos porque eles foran formados por uma história evolutiva bem contingente dos nossos ancestrais. Se um único ancestral nosso tivesse feito uma escolha diferente, nossos sentimentos também seriam diferentes, significando que sentimentos sozinhos não são garantia de verdade.  

Roko: Então essa intuição não poderia vir da razão ou dos sentimentos?   

Murray: Ou seja: não poderia vir.

Tomás: Sim pros dois. Essa intuição não é possível e portanto talvez causar sofrimento desnecessário de animais não seja errado.   

Stuart: É, concordo com vocês de que não consegui provar minha opinião. Mas o veganismo ainda tem que ser aceito por uma questão de prudência.  Não temos provas de que o veganismo é falso, então comer os outros animais pode ser errado ou não. Como não podemos arriscar comer bichos com direitos, temos que ser veganos.

Murray: Como assim? 

Roko: Se você pensa em fazer alguma coisa que acha que tem boa chance de resultar em consequências horríveis é melhor não fazer, já que é irresponsável brincar com a sorte se tudo pode dar tremendamente errado. Acho que é por ai.

Tomás: Isso. Seria como quem aposta todo o dinheiro no jogo. Você pode ficar rico, sim, mas não é esperto tentar pois tem boas chances de acabar sem nada.

Stuart: Vocês explicaram bem. Como os outros animais podem ter ou não ter valor nós não podemos os tratar como sem valor. Quem correria o risco de participar de um genocídio? 

Murray: Entendi. É um argumento insano! Um patrão de sucesso teria que largar tudo com medo do seu filho ridículo, inditoso esquerdista, estar certo...

Roko: Isso foi estranhamente específico mas concordo, é um princípio muito limitante. Se lembrem que existem várias éticas diferentes e que uma contradiz a outra, então é impossível você agir como se todas pudessem ser verdade. Por exemplo, há éticas onde machucar o outro é errado até pra salvar uma vida e há outras éticas onde é obrigatório usar a força para proteger os fracos.    

Murray: Ninguém leva esse pacifismo imbecil a sério, é igual veganismo.

Roko: Não acredito nessas coisas também, mas é algo que o principio pede pra considerar.

Tomás: Mas foi um bom ponto. Se a chance da ética ser verdadeira é quase zero, então não faz sentido ter cuidado para não a violar. Se eu tenho um esquema com o dono da jogatina capaz de garantir a vitória, apostar tudo é uma boa ideia.  

Stuart: Isso mesmo. Só temos que tentar obedecer as éticas que talvez sejam verdade, então o principio não é tão restritivo assim, só prudente. 

Roko: Na verdade pode ser restritivo demais sim, já que não é tão raro assim alguém cogitar éticas diferentes e que levam a caminhos contrários.

Tomás: Fora que o veganismo não é provável para muitos, então muitos não precisam aceitar esse argumento.

Stuart: Bom, realmente é uma questão subjetiva quais éticas parecem verdade. Mas confio que vários que olham para um cachorro ou papagaio no mínimo devem duvidar da ideia desses seres não terem valor.  

Murray: Ou podem olhar para um rato ou pombo e terem certeza...

Stuart: Há pessoas boas e pessoas ruins. Mas não dá para tratar o veganismo como loucura se ele parece aceitável e não há nenhuma confirmação de que a ética certa é outra.

Lúcio: E se houvesse essa confirmação?

Murray: Finalmente voltou? Achei que ia ficar ai refletindo até mudarmos de assunto.

Roko: Não que seja um problema. Quem dera se as pessoas refletissem antes de falar! 

Lúcio: É que realmente fiquei chocado com as informações novas e com a necessidade de largar minha metafísica outra vez. Estava vendo as opções.

Roko: Acha que encontrou algo melhor?

Lúcio: Sim.

Tomás: Hilemorfismo? 

Lúcio: Algo assim.

Stuart: Isso parece interessante. Qual é essa nova cosmovisão que gera uma ética que aparentemente refuta o veganismo?

Lúcio: É simples: Um leão por natureza tem garras e come carne, ser um leão é ter certas características e agir de certa forma se nada atrapalhar. Um leão particular pode não seguir essa tendência mas isso só por algum impedimento interno ou externo, ele vai seguir sua natureza se nada o impedir. O homem também tem uma natureza e portanto há características boas que ele tem naturalmente, as virtudes, e atos que ele naturalmente realiza, os bons. Até algo como a água ou mesmo um próton tem uma natureza específica, mas é mais fácil de entender com animais.

Stuart: Então essa é a base da ética?

Lúcio: Isso mesmo. A base da ética é a natureza humana, não a auto-preservação, a auto-propriedade, a ausência de indivíduos ou o sofrimento. Agora que percebi que o idealismo não é capaz de sustentar a ética por não ver os indivíduos e suas naturezas como reais, vi que ao dizer não pro idealismo eu tenho sim base pra ética, já que eles existem sim.

Stuart: É interessante, mas como isso gera ética? Você tem uma base pro normativo, mas um leão ou próton que age diferente do que pedem sua natureza é defeituoso, não é mau. 

Roko: É verdade, tem que haver alguma distinção entre o homem e os outros seres para haver uma ética.

Lúcio: E há: o homem tem intelecto e vontade. Que o homem pode transcender os particulares e perceber com os olhos da alma a ordem suprema refletida nas diferentes naturezas dos seres de baixo é provado por podermos discutir esse assunto. Que o homem pode decidir obedecer essa ordem quando livremente escolhe ignorar os impulsos e instintos corpóreos e agir com base na razão é provado pela ética ser algo sério e não mera idiotice. Por poder escolher agir bem ou não, o homem pode ter suas escolhas avaliadas e é essa a base da ética, a origem dos direitos e deveres e o caminho para a verdadeira alegria!

Roko: Faz sentido. Ai como os outros animais não tem intelecto e vontade eles não tem direitos ou deveres?

Lúcio: Isso, a ética não se aplica. Assim como pedras ou vento, eles estão abaixo do bom e do mau. Segue então, embora seja difícil de acreditar, que os outros animais podem sim ser usados como objeto.

Tomás: Isso parece mesmo uma boa base pra ética, pensei nisso desde aquela discussão mas não apliquei.

Roko: O veganismo perdeu?

Stuart: Ainda não, falta ver se essa ética faz sentido mesmo.

Lúcio: Realmente. Tragam suas objeções.

Murray: Essa ética não cai na guilhotina de Hume? Veja, você nos diz como as coisas são, fatos descritivos, e dai pula para como as coisas devem ser, fatos normativos. Como esse salto é possível?

Tomás: Sabemos que é possível porque a ética tem que ter base na realidade para ser mais do que besteira, então temos que ir do descritivo ao normativo.

Murray: Acho que sim, mas como saber que é nessa ética em que esse salto funciona?

Lúcio: Simples: não há uma diferença rígida entre o descritivo e o normativo. Cada ser tem uma natureza e portanto dá pra avaliar se é ou não um bom exemplar dessa natureza ao ver se o ser em questão a cumpre. Na estrutura de cada coisa há um padrão, então ao entender o que algo é tem como entender o que deve ser.
 
Murray: Entendi.

Lúcio: Então podemos ir pra próxima objeção.

Roko: Há mesmo natureza humana? Não existem várias culturas diferentes onde as éticas, comportamentos e até desejos das pessoas não combinam com nada na nossa sociedade? Se os humanos fossem como os outros animais, todas as sociedades não deviam ser iguais?

Lúcio: Um monte de argila pode tomar várias formas ou só uma? 

Roko: Várias formas, claro.

Lúcio: Então há várias formas dessa argila ficar mas sempre é argila?

Roko: Isso mesmo, a forma depende do jeito que ela for manipulada mas é tudo igual.

Lúcio: Da mesma forma é o ser humano. Como podemos criar infinitas culturas diferentes há várias e várias formas das pessoas serem, mas são todos humanos. Só ver que um cachorro não vira um de nós mesmo que bem criado.

Roko: Mas como pode ter tanta diversidade? Os outros animais não são assim.

Tomás: Até podem, os bichos da mesma espécie podem ser um pouco diferentes uns dos outros se forem criados em diferentes ambientes, de uma forma forma diferente, dependendo da genética etc.

Lúcio: Sim. Além das diferenças genéticas, o homem é um animal social e político, ele precisa estar dentro de uma cultura para se desenvolver direito e a forma dessa cultura vai mexer em seu desenvolvimento. Cada pedaço de argila começa parecido com outros mas cada um toma sua forma dependendo de quem nele trabalha e assim é com o homem.

Stuart: De fato, a criação é muito importante para um bom desenvolvimento. 

Murray: É isso mesmo. Toda pessoa depende de seu grupo para crescer.

Lúcio: O que mata qualquer individualismo, já que relações voluntárias dependem das não-voluntárias pra existirem.

Murray: Mesmo assim, ninguém é propriedade do coletivo.

Lúcio: Bom, é uma discussão e tanto.

Roko: Entendi a resposta, há sim natureza humana. Podemos ir pra próxima objeção.

Tomás: Essa ideia de que as coisas tem essências é compatível com a teoria da evolução?

Lúcio: Não vejo motivo para não ser, mas se não for então podemos descartar a teoria, já que ela seria incompatível com a ética também e portanto seria absurda.

Stuart: Há algo mais absurdo do que descartar os fatos?   

Roko: Bom, talvez exista uma teoria melhor e nós não saibamos ainda, não podemos descartar essa possibilidade. Newton via sua teoria como perfeita mas ela é bem limitada.

Stuart: É verdade...

Lúcio: Exatamente. Mas não vejo motivo para achar que a teoria não combina com minha metafísica. Tem alguma ideia, Tomás?

Tomás: Sim: de acordo com a teoria da evolução, os seres vão mudando através de mutações genéticas até acabarem virando outras espécies. Se os seres tem naturezas imutáveis, como isso é possível?

Murray: É assim que a teoria funciona? 

Stuart: Não, mas alguns infelizmente a interpretam assim. Simplificando, eu diria que de acordo com a teoria alguns membros de certos grupos de seres vivos acabam tendo mudanças genéticas leves que vão garantir algum sucesso reprodutivo maior e, graças a isso, essas variações vão se tornando mais comuns de uma geração pra outra. Com MUITAS gerações ficando levemente diferentes de uma a uma pelo tempo, uma hora a população de animais já é totalmente diferente do que tinha beeem antes. Então nenhum bicho vira outro não. 

Murray: Isso parece mais próximo da realidade mesmo.  

Lúcio: Isso mesmo. 

Tomás: Certo, mas então como acontece essa mudança de uma geração de uma espécie x para a de uma espécie y?

Lúcio: Bom, para explicar isso eu tenho que introduzir o conceito de acidente. Cada ser é uma substância que possui acidentes, meio que características. Por exemplo, eu sou uma substância e tenho certas características como altura, peso, idade etc. Essas características são os acidentes da substância Lúcio, que é a base deles. Faz sentido?

Tomás: É aceitável. Realmente não existem alturas, cores ou idades flutuando por ai, essas coisas são os acidentes e a substância que liga tudo junto numa coisa só é a base, não é? 

Lúcio: Isso. Vimos isso antes nas agora tá mais definido. Uma substância pode deixar de existir e ser substituída por outra se os acidentes mudarem radicalmente, isso até acontece bastante.  Por exemplo, toda morte envolve uma mudança substancial causada por mudanças acidentais.   

Tomás: Como assim?

Lúcio: Imagine que um homem começa uma greve de fome política mas ninguém liga, era uma causa bem ruim, de forma que ele morre por sua greve. Com os primeiros dias passando ele só tem mudanças acidentais, uma falta desse nutriente e daquele, perda de peso etc. Se essas mudanças continuarem por muito tempo, ele morre e seu corpo deixa de ser um corpo vivo e vira um cadáver, não?

Tomás: Com certeza.

Lúcio: De forma semelhante, de uma geração para a outra um monte de variações genéticas acumuladas se unem a novas e a combinação faz esse ser que vai nascer acabar nascendo de outra espécie. Assim, essas mudanças acidentais acabam culminando numa mudança substancial, de forma que a teoria da evolução não é problema pra minha filosofia. 

Tomás: Caramba! Faz sentido. Não tenho mais problemas com a ideia, você e o Aris estão certos quanto a existência de naturezas. 

Roko: Entretanto isso gera outro problema: como dá pra dizer que há essa mudança entre espécies se não daria pra ver diferença? A olhar o pai de certa espécie e o filho já de outra, você não vai saber diferenciar pois eles são quase iguais sob qualquer teste cientifico possível, de forma que não tem como as espécies serem diferentes.    

Lúcio: Bom, isso no máximo gera um problema gnosiógico mas não ontológico. Não temos tanta capacidade de reconhecer substâncias mas elas ainda podem existir.  

Roko: E como isso é possível?

Lúcio: Não concordamos antes que a ciência não pode nos dizer se substâncias existem ou não? 

Roko: Sim, já que ela não lida com o que não pode ser detectado por nossos sentidos ou equipamentos e substâncias não podem ser vistas. 

Lúcio: Exatamente, só acidentes podem ser detectados pelos sentidos ou equipamentos, as substâncias só são conhecidas pelos nobres olhos da alma. Nesse caso, não é esperado que mesmo caso as naturezas diferentes existam essas confusões devam acontecer? Já que o pai e o filho possuem acidentes parecidos e não detectamos substâncias com nossos intrumentos

Roko: Bom, é verdade. Mas então como o conceito pode ser útil para nós? Talvez substâncias existam mas nós podemos confundir substâncias diferentes. 

Lúcio: É um risco sério, mas em qualquer ramo do conhecimento sempre é possível que estejamos errados então não é um drama só da minha filosofia. O que importa é que podemos diferenciar claramente uma bactéria de um urso ou fungo. Só investigar bem casos difíceis que estaremos bem. Ninguém promete que a investigação é fácil.

Tomás: Realmente. É claro que sempre vai haver situações complicadas, mas claramente existem seres diferentes. 

Roko: Entendi. Não tenho mais nenhuma outra objeção contra a ideia.

Murray: Eu tenho: se ações são boas ou ruins dependendo de se a ação é conforme a natureza humana ou não, então algumas ações, as ruins, não poderiam ser escolhidas por irem contra a natureza. Isso não significa que eu não tenho liberdade de fazer certas coisas por serem prejudiciais a mim mesmo? 

Lúcio: É. 

Murray: Como isso mantem a minha liberdade?

Stuart: Sou obrigado a concordar, parece uma ética bem limitante. 

Lúcio: Olha, poucos olhariam para um suicida ou usuário de crack e sairiam achando bom...

Tomás: A opinião de vocês realmente é controversa demais. Se essa ética dissesse que é errado ajudar os pais ou que é dever cívico dar rasteira em carecas ai eu acho que poderíamos deixar ela pra lá. Quando a reclamação é sobre ela não deixar gente se destruir não tem a mesma força...

Stuart: Justo.

Murray: Essa falta de respeito a liberdade é base prum socialismo, mas já que acham tão controverso então tudo bem fingir que não é um problema por hoje.

Roko: Nenhuma refutação da ideia deu certo, então podemos avaliar se a ideia é verdade. Se sim, o veganismo é falso mesmo.

Stuart: Em compensação, se essa ética não tem razão pra ser vista como verdadeira então vamos ficar sem saber se o veganismo é verdade. Lúcio, por que sua ética é verdade?

Lúcio: Nós partimos da ideia de que algumas atitudes são certas e outras erradas, não foi?

Stuart: Isso, sabemos que existe sim certo e errado e queremos descobrir a base da ética para descobrir quem é o próximo, aquele com valor.

Lúcio: Então há algo como condutas boas e algo como condutas ruins?

Stuart: É claro.

Lúcio: Isso não significa que há então um tipo de padrão para a conduta do ser racional e portanto também um padrão natural que define o que é um ser racional? 

Stuart: Com certeza. Não faz muito sentido existir um padrão objetivo para julgar a conduta dos seres racionais se o conceito de ser racional é algo subjetivo.

Lúcio: Então para que a ética seja verdade o conceito de ser racional não pode ser uma invenção humana mas sim uma natureza real e objetiva da qual fluem normas de conduta que devem ser seguidas pelos seres racionais? 

Stuart: Isso mesmo. Existem sim seres racionais e suas condutas são julgáveis através de padrões gerados por sua natureza racional e não por invenção humana. 

Lúcio: Você me deu o que eu precisava, então. Você admitiu que há pelo menos uma natureza, a racional, e que dela flui padrões normativos, o que os seres racionais podem ou não fazer. Ninguém que acredita que existe certo e errado pode negar essas duas coisas. Mas como alguém pode aceitar essas duas coisas e negar que existe natureza humana ou outros tipos de natureza? 

Stuart: E o que me impede de defender que a categoria seres racionais é real mas que as categorias físicas, químicas, biológicas etc são criações humanas? 

Lúcio: Bom, parece extremamente obvio que coisas como seres humanos, macacos, mangas, fungos, bactérias, água, ouro, prótons etc existem, é senso comum total. Como você já aceita que pelo menos um tipo de normativo existe, por que não concordar com o senso comum e aceitar que essa aparência que o mundo tem de conter inúmeras naturezas diferentes é não uma ilusão mas sim uma revelação de como é a realidade que você recebeu através de seus sentidos e mente?

Tomás: Realmente parece plausível. Sem nenhum motivo bom para tirar as naturezas e o normativo da minha vida, parece inteligente concordar com o homem comum e enxergar esse mundo como cheio de coisas e criaturas diferentes. 

Roko: Também acho aceitável. Essa ética e essa metafísica juntas parecem bem plausíveis. Sem refletir muito ainda, parece que a ideia que há uma ética verdadeira faz sentido sim e uma que parece confirmar que o veganismo é falso. Sendo assim, parece que os outros animais tem sim naturezas próprias que definem o que é bom e o que é ruim para eles mas que confirmam que não são nossos iguais.

Lúcio: Então todos acham que essa é a ética certa?

Murray: Não mesmo! essas ideias de naturezas próprias e que geram padrões destroem a auto-propriedade, nossa única defesa contra a tirania estatal! 

Stuart: Também acho que esse essencialismo pode levar a ideias arcaicas que destroem a liberdade, principalmente a dos animais não-racionais, que seriam objeto se isso fosse verdade.

Lúcio: É, acho que quando temos pessoas tão diferentes não tem como achar algo que agrade todo mundo, nem a verdade!

Stuart: Haha, sim. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Bento

 Bento: Não vejo nenhum sentido nas coisas continuarem como são, tudo tem que mudar nesse país.

Pedro: É verdade, esse sistema politico só favorece alguns e precisa deixar de existir.

Stuart: Com certeza as coisas precisam mudar, a pobreza e a desigualdade existem em níveis absurdos aqui. Temos que achar uma solução.

Henrique: É isso. As coisas precisam ser melhoradas se queremos viver em uma sociedade melhor. 

David: Acho que ninguém discorda disso, tudo mundo consegue ver os problemas e perceber que algo está errado. Mas devemos parar e analisar tudo pra não piorar as coisas mais ainda, essa falta de prudência brasileira nunca ajudou.

Henrique: Eu não acho, é melhor realizar as mudanças bem rápido. Se formos lentos, os efeitos positivos vão demorar pra superar os negativos e a vamos sofrer por muito tempo, é melhor que tudo mude de uma vez.

David: É um ponto de vista interessante, mas é perigoso demais achar que você pode consertar tudo num piscar de olhos, esses delírios revolucionários provocaram muito sangue e pouca ação positiva. Geralmente onde mais arrogante é o homem é onde ele mais erra, sendo dominado pela emoção e deixando de pensar.

Henrique: Sim, é um medo justo, mas essas teorias revolucionárias eram lotadas de falhas, então o fracasso ia acontecer de qualquer jeito. De qualquer forma, pelo menos sabemos que algo tem que mudar.

David: Isso sim.

Stuart: Podemos certamente mudar tudo pra melhor, só precisamos manter o diálogo político o mais civil possível, assim vamos chegar a uma solução.

Hans: Ao contrário, acabar com a política é o único jeito de consertar tudo!

Stuart: Você acha mesmo que acabar com o Estado vai ajudar alguém? Só pode estar brincando!

Hans: Não tô brincando, é o único jeito de corrigir a nossa situação.

Pedro: Eu acho uma boa ideia, sinceramente.

David: Bom, todos tem visões bem diferentes de como consertar as coisas. O que um vê como bom é horrível pro outro.

Henrique: Sim. Acho que seria inteligente fazermos algum tipo de comparação entre os objetivos de cada um. Podemos assim usar o método do Stuart pra tentar achar a melhor forma de melhorar esse país.

Bento: Esse excesso de debate típico da democracia não ajuda, não vejo como a solução para o país.

Henrique: Não vamos conseguir muita coisa separados, não acha a melhor opção nós acharmos uma solução juntos? Mesmo que não façamos ela virar realidade vai ajudar a sabermos o que fazer e passar o conhecimento pros outros.

Bento: Bom, cada um ter um ponto de vista é realmente uma péssima ideia, nos unirmos em um ponto de vista é melhor, é verdade. 

Hans: Um pouco de diálogo realmente deve ajudar a vermos quem está certo, boa ideia.

Stuart: Parece uma ótima ideia! Eu começo então falando sobre como eu acho que vamos melhorar as coisas.

Henrique: A ideia do debate como solução foi sua mesmo, acho justo.

Stuart: Certo. A pobreza e a desigualdade aqui são muito altas, as pessoas precisam parar de passar fome e sofrer com o medo de ficar sem nada, então o primeiro ato seria dar uma renda universal para todos que não deixasse ninguém passar necessidade. Enquanto isso, eu também diminuiria o tamanho do Estado pra poder pagar essa mudança e para ter outros benefícios causados por menos intervenção.

David: Você ia então aumentar os benefícios pras pessoas muito pobres? 

Stuart: Também, eu ia deixar esse benefício ser universal, assim todos iam receber igualmente. Além de ajudar os prejudicados pelas falhas econômicas isso ajudaria as pessoas a não ser forçadas a trabalhar.

Pedro: Espera, isso valeria tanto pros pobres quanto para os ricos? Todo cidadão ia ganhar dinheiro?

Stuart: Sim.

Hans: Você então acha que é uma boa ideia olhar para as pessoas que produzem e tirar delas e dar para quem não produz nada? 

Stuart: Sim, as pessoas que não tem nada não podem simplesmente morrer de fome, elas tem que receber uma ajuda. O Estado não produz, então lhe resta distribuir o que é produzido. Pode parecer ruim se falado do jeito errado, mas seria a ação que provocaria as melhores consequências.  

Hans: Mesmo que alguém tenha direito real ao trabalho dos outros, isso no máximo daria direito a uma renda mínima para os incapazes de se sustentar. De jeito nenhum você pode usar os pobres pra justificar a confiscação da riqueza daqueles que produzem para pagar um "direito" a uma renda universal. 

David: Verdade. Se numa pequena comunidade de pescadores uma família não conseguisse pescar muito e sofresse necessidade certamente as pessoas achariam justo que separassem um pouco de alimento para ajudar eles. Agora, acho que a ideia de que uma parte da pesca de todos deva ser separada e distribuída igualmente pra todos, ricos e pobres, não seria pensada por ninguém, é besteira. 

Stuart: Mas você não considera o perigo que a automação causa! No futuro, milhões de empregos podem ser perdidos, o proletariado pode acabar sem o que fazer! Ao invés de manter a ilusão da "utilidade" deles e "santidade" do trabalho, podemos libertar todos os proletariados e os deixar não precisarem sofrer para viverem, mas poderem aproveitar a vida. 

Bento: Haha! Só ai já se vê a ideia de que os gênios da tecnologia vão resolver todos os nossos problemas e que vão, por pura generosidade, estender a mão para as massas ignorantes! Você absorveu a ideologia dos seres mais desprezíveis!

Stuart: Quem seriam eles?

Bento: A maldita elite tecnocrata! Esses seres hedonistas tratam o prazer e como deus e olham o esforço, o trabalho pesado e a virtude como uma maldição! Esses individualistas desprezíveis não se importam com o povo, com a nação, com nada, só querem "curtir" a vida tendo o máximo de satisfação que puderem.   

Stuart: Não é uma ideia da elite, eu quero ajudar os pobres a se libertarem da opressão do trabalho!

Bento: "Opressão"? Você vê os pobres como a elite burguesa os vê, você acha que destruindo o mais nobre neles os liberta!  

Stuart: Ora, é um fato que a felicidade é o objetivo de cada homem, então devemos ajudar todos a buscar isso e acabar com tudo que gera dor. Logo, a renda universal que daria fim ao trabalho é uma linda medida.

Bento: É linda aos olhos de burgueses de alma decadente que não tem nenhuma dedicação a nada que não seja o próprio ventre, isso sim! Uma nação onde as pessoas acham seriamente que tem direito a ter seu hedonismo não só permitido como sustentado! Como uma população dessas conheceria honra, sacrifício ou dever? Um monte de indivíduos egoístas e atomizados não são uma nação. 

Stuart: Não é assim, essas noções antigas de um "dever" coletivista quanto a nação não tem base na realidade! Não devo a ninguém essa devoção aos outros. Viva a sua vida e esqueça essas ideias retrógradas!

Bento: E é exatamente esse individualismo que está destruindo a nação. Imagina quanto suor e sangue foram derramados por nossos antepassados para seus descendentes poderem jogar tudo fora...

Hans: Olha, eu não sou coletivista, mas essa ideia de que alguém tem direito a propriedade dos outros é loucura. Além de imoral, esse roubo teria consequências horríveis. 

Stuart: Também acha isso? A parte do roubo é uma diferença de ética, mas a parte das consequências me interessa. Essa ideia não se sustenta, já que os experimentos com a renda universal não mostraram redução da procura de emprego ou da empregabilidade dos indivíduos testados.  

Hans: O problema de apontar para esses estudos é que essa metodologia científica não funciona em economia, já que os experimentos controlados feitos nas ciências naturais não podem ser realizados com sociedades. Essas pessoas podem continuar trabalhando por causa da renda universal ou apesar da renda universal, você não tem como separar várias sociedades com todas as variáveis iguais exceto a renda universal e ver as diferenças.

Henrique: Sim, é verdade que não tem como se fazer experimentos controlados nessa disciplina, então talvez essas pessoas não deixem de trabalhar com a renda universal  graças a outras razões.

Hans: Olhando estatísticas você pode observar, por exemplo, que donos de carros vermelhos se acidentam mais do que os donos de carros de outras cores, e existiriam várias possíveis explicações pra esse fenômeno. É difícil saber qual a explicação certa, então esses exemplos não provam que a renda universal não provocaria desemprego.

Stuart: Então a evidência empírica é inútil?

Pedro: Acho que o ponto deles é que existem várias explicações possíveis para os fatos, então esses experimentos não provam nada sozinhos, dependem da teoria que os explica. Vemos isso por exemplo na física quântica, a economia sofre do mesmo problema.

Hans: Exatamente. A interpretação certa dos fenômenos econômicos não pode ser decidida por experimentos como nas ciências naturais, então eu diria que o debate deve ser a priori, onde vemos qual a teoria correta a analisando como analisamos uma posição filosófica.

Stuart: Bom, é um bom ponto esse de que não é possível fazer experimentos com a economia igual nas ciências naturais, mas eu não rejeitaria a evidência empírica. No fim, estamos tentando explicar a realidade, e pra isso temos que olhar pra ela.

Pedro: Exatamente, esse método dedutivo também não vale nada se as suas conclusões não refletem o mundo. Não dá pra escolher um lado e ser dogmático.

Henrique: Isso, um meio termo entre vocês parece aceitável. Devemos ver as posições que são consistentes, então ver as que batem com a ação humana e com a evidência empírica.

David: Olha, todo esse debate teórico tem a sua importância, mas olhar para o que funciona faz tempo é um guia muito melhor do que teorias abstratas. Pegue por exemplo a liberdade econômica: países com um bom nível dela consistentemente demonstraram bom nível de crescimento econômico e baixos níveis de pobreza e desigualdade. Se uma teoria econômica não explica isso é inútil.    

Bento: Talvez, mas os fatores econômicos não são os únicos importantes. 

David: É verdade, mas estamos falando disso no momento.

Stuart: Então o ponto parece ser que devemos olhar as questões tanto pelo método a priori quanto o a posteriori

Henrique: Me parece justo.

Pedro: Realmente. Alguns preferem esse e outros aquele, mas a teoria certa não falharia em nenhum.  

Hans: Sim, apesar de eu desconsiderar no geral a evidência empírica sozinha, ela pode fortalecer uma teoria. O que importa é que concordamos que "experimentos econômicos" não podem refutar fatos irrefutáveis sobre a base da economia: a ação humana.

Stuart: E você acha que a tese de que uma renda universal não causaria diminuição no número de empregados vai contra um desses tais fatos da razão humana?

Hans: Sim. Assim como nenhum experimento pode provar que dois mais dois é igual a cinco, nenhum experimento pode provar que a renda universal não causaria desemprego. Se isso parece ser o caso, o experimento está sendo mal interpretado.   

Stuart: Você está livre pra dizer o motivo.

Hans: Assim como é um fato irrefutável que dois mais dois é igual a quatro, é um fato irrefutável que cada ação humana racional busca conseguir o melhor estado possível, não é? 

Stuart: Sim, é verdade que ninguém age de forma a ter um estado pior, isso não faria sentido algum. Mesmo que a ação escolhida seja não agir isso é por acreditar que não agir é o melhor de alguma forma.

Hans: E as pessoas preferem entre dois caminhos de ação que levam ao mesmo resultado o caminho mais difícil ou o mais fácil?

Stuart: Certamente o mais fácil. 

Henrique: Exatamente, cada ação racional tem como objetivo um estado percebido pelo agente como melhor de alguma forma e cada agente busca satisfazer seus desejos da forma que menos exija esforço. Esses axiomas são a base da reflexão econômica e não podem realmente ser negados. 

Stuart: Sim, é verdade. Como isso seria um problema para a renda universal?

Hans: Você paga as pessoas pra não trabalhar usando riqueza confiscada dos que trabalham. O objetivo principal do indivíduo ao trabalhar é pagar contas e obter acesso a bens, então se receber a renda universal e não trabalhar for o suficiente para isso, o individuo não vai trabalhar. 

Stuart: Mas o individuo não poderia ganhar mais trabalhando E recebendo a renda? 

Hans: Poderia, mas provavelmente arranjar um emprego precário pra receber um salário mínimo não compensaria o tempo gasto e o esforço empreendido.

Henrique: Verdade, o indivíduo busca satisfazer seus desejos com o mínimo de esforço. Se a renda permite isso, vai estimular não trabalhar. Muitos só trabalham em certos serviços precários por necessidade financeira. Se dá pra manter o mesmo padrão de vida apenas com a renda universal, muitas pessoas não veriam sentido em trabalhar em outros empregos ruins apenas para ganhar um pouco mais.

Bento: Vocês falam muita besteira! O trabalho não é só um meio de ganhar dinheiro, mas também uma forma de transformar o mundo, de servir os outros e a nação, de dar sentido a vida, de desenvolver virtude etc. Ver o trabalho como um tipo de maldição ou só como um jeito de obter bens são ambas visões hedonistas e sem sentido.

Stuart: Apesar de achar sua visão romântica demais, concordo que o homo economicus que só pensa em ganhar dinheiro não tem base na realidade, não existe só negatividade e egoísmo nos homens. 

Hans: Mas sem fazer qualquer juízo de valor me digam: acham que os indivíduos de classe baixa no geral estão tão motivados assim por causas nobres? Ainda mais nesse país?

Stuart: Não, realmente temos a cultura de tirar vantagem em tudo. Mas isso é algo contingente que pode ser mudado.

Bento: Não só pode como deve. Mas a sua visão faria o contrário disso e nada mais. Dizer que ninguém deve servir a nação com o seu trabalho e ainda pagar todos por existirem É o caminho para fazer cada vez menos pessoas trabalharem. 

Henrique: Você realmente não pode dizer que busca libertar as pessoas do trabalho e então dizer que seu plano não diminui o incentivo para o trabalho. 

Stuart: Acho que entendi o problema, realmente muitos deixariam de trabalhar com a renda.

Hans: Ótimo. A ideia de que a renda universal não diminui o incentivo ao trabalho contradiz os resultados do estudo da ação humana e portanto tem que ser abandonada a priori. Segue então que os resultados dos estudos supostamente não mostrarem isso deve ser explicado de outra forma que não seja a rejeitada.  

David: Talvez essa seja uma conclusão muito forte. O mostrado foi que essa ideia pressupõe uma visão anti-trabalho que ia tornar trabalhar menos bem visto.

Hans: É o bastante pra mim.    

Stuart: Sim. Mas mesmo que seja assim a automação vai fazer a renda universal ser necessária! Vários empregos vão sumir no futuro.  

David: Como então você explica que os países com grande nível de automação como a Dinamarca, a Alemanha e o Japão não estejam com altos níveis de desemprego? Não era para terem perdido os empregos para os robôs? 

Stuart: As pessoas nesses países estão em empregos melhores e mais técnicos.

David: Então basta investirmos em educação melhor, ora! Basta preparar a sociedade para novos empregos. Ficar fechado em medinhos apocalípticos sem nem olhar pro mundo é coisa de maluco.   

Hans: Exatamente. Você acaba de mostrar o erro fatal dessas pessoas com esse medo.

Stuart: E qual seria esse erro?

Hans: Olhar só para o que se vê de cara. Essencialmente olhar unicamente para um grupo específico e não pra sociedade inteira e olhar somente para os efeitos no curto prazo e não para os de longo prazo.

Stuart: Desenvolva.

Hans: Quando uma área começa a ser automatizada, é visível que muitos funcionários serão substituídos e perderão o emprego, qualquer um pode ver os homens na rua, mas exige algum esforço ver além disso.

Stuart: E o que tem além?

Hans: A área automatizada agora é mais eficiente, permitindo produzir com menos gasto e assim permitindo vender mais barato. Isso significa que enquanto alguém antes gastava dez reais no produto agora gasta três, permitindo assim comprar mais do produto ou gastar em outra coisa. Ou seja: algumas pessoas perdem o emprego, sim, mas o aumento da eficiência permite que a sociedade em geral se beneficie e novos empregos surjam.

Henrique: Exato. Esse argumento da automação parte da ideia de que existe uma quantidade x de trabalho, de modo que tornar o trabalho mais eficiente é tornar alguns desempregados. O erro obvio ai é que, numa economia livre ao menos, se o trabalho fica mais eficiente os recursos economizados podem ser usados de outra forma, gerando assim uma nova demanda. 

David: Um exemplo fácil disso é a criação do tear na Revolução Industrial, onde a automação da indústria têxtil permitiu o barateamento dos produtos antes feitos de forma artesanal, o que aumentou muito o acesso a eles e com isso aumentou também muito os empregados nessa área pra poder lidar com a nova demanda. 

Hans: Um bom exemplo mesmo. Olhar para as pessoas perdendo o emprego e não olhar para a sociedade em geral é um erro bem grande. 

Stuart: Entendo o que querem dizer, numa sociedade certa a automação não seria um risco sim. O problema é que não é o nosso caso, as coisas ficam mais eficientes e muitos ainda passam fome, precisamos da renda universal para acabar com isso! 

Hans: Não vejo forma dela não piorar tudo, além, é claro, dos problemas éticos.

Stuart: Não vejo outro caminho, esse é o caminho certo. É o único jeito de vencer a pobreza.

Pedro: Bom, a sua preocupação com os pobres é boa, Stuart, mas como essa renda é o caminho certo?

Stuart: É que muitos não tem o básico no nosso país mesmo com aumentos da produtividade, então temos que garantir que as pessoas tenham um mínimo garantido, assim não passarão fome.  

Pedro: E qual é a razão das pessoas passarem fome mesmo com a eficiência aumentando? Não é a exploração que sofrem graças a um sistema injusto?

Stuart: Exatamente, esse é o problema, apenas poucos se beneficiam do sistema. 

Pedro: E a sua ideia é deixar esse sistema explorador continuar intacto enquanto dá para as massas exploradas o necessário para a subsistência? Seria como se os abolicionistas desistissem da causa e começassem a só defender salários para os escravos.  

Stuart: Bom, olha, é que demoraria muito para reformar o sistema, a renda é um projeto só. Não é importante salvar os pobres o mais rápido possível?

Pedro: Claro que é importante, mas deixar as coisas como estão só mudando tão pouco é não fazer isso. Além dos problemas que essa renda universal tem, a aprovar seria o suficiente pra calar aqueles que pedem por mudança. Os poderosos que oprimem as massas usariam esse projeto para tirar da cabeça dos oprimidos o desejo da emancipação. Concordo com o Bento, essa é uma ideia burguesa. 

Henrique: Tenho o mesmo problema com essa ideia. A justiça só pode ser feita se a injustiça for corrigida, você só vai parar de sangrar se primeiro parar de ser esfaqueado toda vez que o ferimento é costurado.

Pedro: Exatamente. O maior erro dos que se dizem defensores doe pobres nesse país é só tentarem fazer mudanças pequenas e irrelevantes, sem irem até a raiz do problema.

Hans: Eu acho que esses tipos só tem erros mesmo, sinceramente...

David: Haha. Sim, é por ai mesmo. 

Stuart: Nunca olhei as coisas dessa forma, realmente é melhor tentarmos corrigir as injustiças diretamente e não só enxugar gelo. Até que foi uma conversa produtiva. 

David: Ótimo, foi mesmo. Agora, quem é o próximo a dar sugestões de como mudar as coisas?

Hans: O Stuart podia indicar, já que ele acabou de fazer as sugestões. 

Henrique: Faz sentido. 

Stuart: Vocês tem certeza? 

Pedro: Deve ter tido alguém que te deixou curioso, aproveita.

Bento: É, já pode se livrar da duvida de uma vez.

Stuart: Então vai você, Bento, quero ver a sua solução honrada e anti-burguesa. Deixe a nação orgulhosa! 

Pedro: Hehe. Sabia que ia ser ele depois do pequeno debate. 

Bento: Sabia também. 

David: Então nos diz a sua ideia, vamos ver se é melhor. 

Bento: Claro. A primeira coisa a se fazer seria implantar uma ditadura de um grupo especifico com a figura de um líder para unir a nação sob um só conjunto de valores. Assim como na Era Vargas, as mudanças necessárias não podem ser realizadas por meios democráticos.

Stuart: Já sabemos que essa ideia não é melhor do que a minha. Como pode ser bom acabar com a liberdade?

David: Também acho bizarro, mas acho justo ouvir antes de criticar. Para por ai ou você tem mais ideias?

Bento: Além de derrubar a democracia, deveríamos buscar deixar de depender do comércio com estrangeiros e atingir algo não tão longe da autarquia, nossos recursos naturais permitem isso. Essas duas medidas já seriam o bastante para garantir a unidade da nação, a protegendo de ameaças internas e internas que romperiam essa união. Isso seria essencialmente para a parte politica. 

Pedro: Você deve ter algo quanto a economia também, certo?

Stuart: Realmente, não tem como deixar como está.

Bento: Sim, é uma preocupação muito válida essa com os trabalhadores explorados. Nesse campo, deveríamos estabelecer uma visão mais corporativista, unindo os trabalhadores em associações de forma que pudessem negociar em igualdade com os patrões, com essas interações sendo mediadas pelo Estado.  Dessa forma, a economia poderia ser "dirigida" não para o interesse de alguns poucos capitalistas mas para o interesse de todos, substituindo o conflito entre as classes por cooperação. Essas são as mudanças básicas que eu defendo pra tornar esse país grande outra vez.

Henrique: Bom, o primeiro ponto que me choca é a ideia de derrubar a democracia. Como isso pode ser bom?

David: Acho que esse é o ponto mais controverso, então deve ser melhor fazer a crítica em ordem reversa, assim deixamos o melhor pro final.

Henrique: Olha, parece uma boa, tudo bem.

Bento: Tudo bem pra mim também.

Pedro: Sim, vamos começar então com a visão corporativista do Bento. 

Hans: Visão comunista na verdade! Essa ideia de dirigir a economia é pura palhaçada vermelha!

Bento: Eu não sou comunista, é tão ridículo quanto ser liberal. Não quero estado máximo nem mínimo, só o necessário!

Pedro: Também não entendi, de que jeito essa é uma ideia comunista?

Hans: Ué, todo governo comunista controlou a economia e essa ideia envolve controlar a economia, então ambos são irmãos.

Bento: Na realidade, o que se chama "comunismo" é uma sociedade onde os meios de produção e a riqueza são de todos, "comuns". O que você descreve é uma forma de socialismo onde os meios de produção pertencem ao Estado, representando a sociedade. Eu fui esquerdista quando era mais novo, antes de rejeitar essa ideia de ressentidos, a tal "igualdade".

David: E existem um monte de formas de comunismo, não é? Umas onde não tem socialismo antes mas pulam direto pro comunismo.

Bento: Isso. Várias escolas de pensamento comunista rejeitam a ideia do Marx de ter o socialismo antes, tanto é que criticaram muito os países socialistas e os dois lados até se sacanearam, como na Guerra Civil Espanhola. 

David: Convenhamos que esses grupos brigarem não é ruim, haha.

Bento: Não mesmo, he. 

Henrique: Dá pra entender o motivo dessa briga. É meio difícil de acreditar que vão assumir o controle do Estado e eventualmente devolver. Não é a toa que essa ideia sempre falhou. 

Bento: Exatamente, essa era a crítica dos anarquistas aos marxistas, crítica essa confirmada. A crítica marxista aos anarquistas também se confirmou. Eu não vejo sentido em defender qualquer um dos dois.

Hans: Ora, mas isso só significa que você é um socialista no lugar de comunista! Você ainda é algo que odeia. O único jeito de escapar dessas ideias é parar de tentar regular a economia e se render ao capitalismo ou livre mercado.  

Pedro: Caramba, você tem uma certa dificuldade com a ideia de meios de produção, não é? Ver alguém confundir capitalismo com livre mercado é doloroso.   

Hans: O que você entende por "meios de produção"?

Pedro: Todo bem físico usado pra produzir outros bens ou pra produzir serviços.

Henrique: Isso. Eu dividiria os meios de produção entre "recurso natural", que é todo bem oferecido pela natureza, e "capital", que é todo bem criado pelo homem usado para produzir outros bens. Esses dois juntos com "trabalho", que é esforço humano físico ou mental usado na produção de bens, são os três fatores de produção.

Pedro: Valeu! Definir bem as coisas vai ser necessário. Então, Hans, entendeu o que são meios de produção?

Hans: Sim, mas o que é um meio de produção? A terra é um meio de produção para uma sociedade agrária mas não é para uma sociedade caçadora-coletora. Seu conceito é arbitrário, não vejo a importância dele.

Bento: Até ai, preços são arbitrários também e você não ia rejeitar eles e com isso voltar pro escambo...

Pedro: Exatamente, uma característica não ser essencial para a coisa não significa que ela não seja útil, como vemos com preços em produtos ou com profissões em pessoas. O importante é: o Bento ainda mantém os meios de produção na mão dos capitalistas, então ele não é comunista ou socialista.

Hans: Bom, é verdade, mas esse tipo de coisa é errada, o Estado não deve ter qualquer controle da propriedade privada dos outros. 

Bento: Acho melhor você deixar pra defender essa ética burguesa depois, na sua vez. 

David: É, acho que essa discussão ia render mais se fosse assim. 

Hans: Certo, provarei depois o erro do estadismo. 

Stuart: Com outro argumento "irrefutável"?

Hans: Dessa vez vai funcionar, não se preocupe. 

Pedro: Acho que a minha critica também é algo que tem que ficar pra depois, já que envolve muito pesadamente a minha forma de pensar. 

David: Certo. 

Stuart: Bom, nesse caso vamos voltar pro tema. O problema dessa medida corporativista é que ela pode acabar sendo um instrumento para os ricos usarem a força do Estado contra os pobres e manterem privilégios, como é tradicional no nosso país.

Bento: Reconheço que é algo tradicional mesmo, mas isso acontece porque o nosso país, sendo uma democracia, acaba se dividindo em grupos que só pensam em se apoiar e ignoram a nação, além de valorizar o relativismo e com isso o hedonismo. Acabando com a democracia, uniríamos todos em um único objetivo: a nação. Além disso conseguiríamos reabilitar a moral, assim permitindo que todos os setores trabalhem unidos como as partes de um corpo para o bem de todos!

Stuart: Bom, ainda acho improvável que os mais poderosos fossem fazer assim, você dependeria dos revolucionários serem verdadeiros santos. 

David: Concordo, fora que é meio idealista achar que dá pra implantar uma moral nova em pouco tempo, o povo não esquece suas raízes rápido.

Bento: Você ficaria surpreso com o que se pode fazer com o domínio do Estado. 

David: E você ficaria surpreso com a capacidade de um povo de resistir a isso, basta olhar o fracasso do governo militar em deixar essa população diferente. Não só é difícil fazer um povo mudar suas características como esse país é muito grande, o povo ainda continuaria quase igual. A corrupção que vemos no nosso corporativismo ia continuar. 

Stuart: Concordo, o fracasso da ditadura não é exatamente defesa dessa visão...

Bento: Os militares foram muito incompetentes, principalmente na educação e na cultura, então acho que isso poderia mudar. Não estou falando de um presidente que fica oito anos e tolera oposição, sei que ia demorar para esse povo mudar. 

David: Honestamente, acho que é melhor falarmos disso daqui a pouco,  quando o assunto for a democracia. Sua visão revolucionária é meu problema principal com seu pensamento, então vou me concentrar nela.

Bento: Certo.  Acho que não sobrou nenhuma outra objeção contra esse ponto de vista, então fiquem livres pra atacar a ideia de se aproximar da autarquia.

Henrique: Nesse caso você procura mesmo controlar o livre comercio e deixar o Brasil um pouco mais isolado?

Bento: Exatamente, podemos e devemos fazer assim. Não podemos deixar nossa economia depender dos outros países! Parceiros comerciais podem nos controlar com ameaças de embargo e com isso estrangeiros ditam nossos rumos! Uma crise internacional pode nos arruinar de novo! A única forma de manter nossa soberania e nossa segurança é sermos independentes dos outros! 

Hans: Ora, tudo que vale para um agente econômico vale pra outro, então a ação que é boa para o indivíduo é boa para o país e vice versa. Mas buscar ser semi-independente seria desastroso para um individuo, que teria um padrão de vida muito ruim, então a mesma coisa aconteceria com o país. 

Bento: Não, esse argumento imbecil não funciona. Você pressupõe que o que é verdade para o indivíduo é verdade para a nação, o que é claramente falso. Um homem sozinho dificilmente tem como fazer todas as tarefas necessárias pra vida, enquanto uma nação claramente pode dividir bem o trabalho e assim se manter em pé enquanto acumula capital pra desenvolver tecnologia e industrialização. 

Hans: Olha... Admito que tem essa diferença sim, reconheço que o argumento falhou.

David: Um problema desconsiderado é a reação de outros países, você ia tomar embargos se tentasse agir assim, já que ia prejudicar os nossos parceiros comerciais.

Bento: Bem pensado, mas bastava fazermos isso lentamente e só revelarmos nossas intenções quando já estivéssemos próximos de estar prontos.

David: Provavelmente ia ter embargos na hora que fizessem a revolução anti-democrática, você teria que ser rápido e mudanças econômicas não são rápidas.

Bento: Se fizessem isso, íamos ter quem culpar pelo estrago causado e com isso teríamos um inimigo a mais para utilizar para unir a a nação. 

David: Bom, é um plano coerente com seu pensamento, vou deixar pra atacar tudo junto depois.

Bento: Certo. 

Stuart: Ignorando a reação dos outros países e as mortes e pobreza que tomar embargos iam causar, que é algo importante pra mim, essa medida não tornaria todo mundo mais pobre? 

Henrique: É o que eu ia falar. Se eu compro o produto estrangeiro ao invés de fazer aqui é porque ele é mais eficiente em produzir o que quero do que eu. Ao invés de tentarmos fazer tudo, deveríamos deixar cada país exportar o que faz melhor e importar o que outro faz melhor. Desse jeito, a eficiência reina. Países tem estruturas, culturas e climas diferentes, então é ridículo sugerir que alguns não sejam mais eficientes em produzir certas coisas.  

Bento: É eficiente, não nego isso. Mas o problema é outro: economia não é o único bem social, nossa autonomia, unidade e segurança são tão importantes quanto ter bens. Não vale a pena ter mais eficiência com o livre comércio completo e ser escravo dos capitalistas internacionais porque setores inteiros seus dependem deles. 

Henrique: Mas não precisamos depender deles para sempre, a competição com a indústria internacional forçaria a nossa a se tornar mais eficiente, assim todos ganhariam.

Stuart: Fora que enquanto dependêssemos  dos estrangeiros ao menos teríamos acesso a bens e tecnologias que não teríamos como usar de outra forma, dando mais opções a nós.  

Bento: As indústrias estrangeiras são mais bem equipadas, treinadas e ricas do que as nossas, uma competição irrestrita com elas seria a destruição das nossas. Para podermos competir, o único jeito seria se regulássemos e taxássemos a troca com os estrangeiros, isso ia nos ajudar a ter como desenvolver a indústria com a riqueza ganha.

Stuart: Mas regulando e taxando você ia fazer menos investimentos aparecerem aqui. É claro, nós temos objetivos diferentes, então isso não ia te incomodar tanto. 

Bento: É, temos objetivos bem diferentes. Essa abordagem liberal é meio limitada, eu não olharia só pra economia, e mesmo nela essa visão parece falhar feio em nos deixar competir, tanto é que os ingleses e americanos sempre foram protecionistas ferrenhos antes de serem os maiores.

Stuart: Nossa diferença de valores é bem grande mesmo, como dá pra ver com isso da democracia...

Henrique: Sim. Falando em democracia, seria uma boa falar disso agora, não?

Bento: Se vocês tem problemas com isso, podem falar. 

Pedro: Honestamente? É pura tirania achar que você pode impor sua vontade assim nos outros, seja se escondendo atrás de um partido armado ou de um tal Povo. Mas acho que um apelo a liberdade e a decência não vai ajudar muito agora. Vou deixar pra falar disso depois.

Bento: Certo.

Stuart: Ignorando o aspecto ético, uma sociedade intolerante corre um risco sério de se tornar dogmática. Se isso acontecer, o erro pode ser defendido como verdade absoluta e mesmo a verdade pode ser defendida sem se saber o motivo. Sem tolerância, a verdade é perdida, os intelectos atrofiam e a discussão se transforma em uma briga de vontades. Por isso, a tolerância tem que ser uma virtude celebrada. 

Bento: Bom, então você acha que toda opinião deve ser tratada com respeito?

Stuart: Sim, é o único jeito de não se prender ao dogmatismo completo. 

Bento: O que você tá sugerindo é loucura. Cada povo tem uma determinada lingua, uma determinada história e uma determinada cultura e são todas essas características que o une, de forma que um tipo de preconceito é pressuposto na existência de um povo. Sem essa união mental, a civilização é impossível. 

David: Verdade. A própria tolerância depende da sociedade ter um preconceito contra os intolerantes, que podem ser "agredidos" por lei ou por meios civis. Tente defender totalitarismo para as pessoas normais que você vai ver a tolerância delas... 

Stuart: Você até que tá certo que a tolerância não permite tolerar todos.

David: É claro. Como o Bento falou, toda sociedade tem bases que garantem a sua existência, e, como tudo que é mortal, ela precisa se defender de ataques a essa base.

Bento: Exato, e ai está o problema da democracia. Ao dizer que a opinião mais popular é a "certa", a sociedade democrática não só tolera mas garante inúmeros grupos que não pensam em todos como partes de um todo, mas que só tem lealdade para seus próprios companheiros e que enxergam seus vizinhos como estrangeiros. Democracia é divisão! Democracia é fragmentação! Democracia é destruição!

David: Olhando a situação dos americanos e de alguns europeus, eu entendo o que você está dizendo. Mas será que isso é algo intrinsico a natureza da democracia? Países como a Suiça e a Austrália tem uma forte tradição de liberdade e democracia e não parecem fragmentados.

Henrique: Isso! Esse relativismo que vemos em alguns países não é uma característica essencial da democracia, a democracia pode ser sustentada por uma forte cultura de amor às liberdades e respeito ao individuo. 

Hans: Mas a democracia ainda tem esse problema de, em um lugar tão grande quanto o nosso, ajudar na divisão da sociedade em grupos que se interessam só em roubar os outros com o poder do voto. Se eu me identifico mais com o meu grupo do que os outros do país, vou usar a política para beneficiar meu grupo à custa dos outros. Basta ver o quanto a influência do Estado na vida aumentou com a democracia.

Bento: Exato, esses países são do tamanho de um ovo, então não tem a variedade que temos. Cada estado é quase um país diferente, exigindo um Estado forte para manter a ordem.

Pedro: Ou exigindo o fim do Brasil gigantesco e a criação de vários pequenos países. Esse território virou um por imposição estrangeira e depois continuou um por imposição também, afinal.

Hans: É o que eu ia falar. Descentralizando nós acabamos com esse problema, enfraquecemos o Estado e ainda promovemos competição entre os novos territórios! 

Bento: "Competição?" Tipo fazendo um país ter que ser melhor pra não perder habitantes pros outros?

Hans: Sim, como um livre mercado de países! 

Bento: Hahaha! A imigração de um país pra outro do mesmo continente, ou parte do continente, é razoavelmente fácil e ninguém nunca viu essa competição!

Stuart: É verdade. Tentar deduzir tudo é um erro grande...

Hans: É claro que isso ia acontecer se dividíssemos o Brasil! É como duvidar que dois mais dois é igual a quatro!

Bento: Eu duvido é da sua capacidade de conectar silogismos vazios com a realidade mesmo. Sua ideia só criaria países fracos que não teriam como se manter independentes, especialmente com seu livre comércio maluco que só beneficia os burgueses estrangeiros.

Hans: Ora, mas de qualquer forma o melhor jeito de fazer as pessoas não se dividirem em grupos que brigam pelo controle do Estado é descentralizando.  

Henrique: Ou, nós garantimos que o comando desse país se torne menos centralizado em Brasília, dando assim mais autonomia para os estados.

David: É uma solução bem melhor. Não tem motivo pra acabar com a unidade de séculos assim do nada, acabar com o Brasil é um erro completo. Dar aos estados autonomia seria a melhor opção sim.

Bento: E como evitar que essa liberdade acabe dividindo os estados ainda mais?

David: Divisão em baixa escala é garantida, os estados tem territórios, populações e tradições diferentes e tentar lutar contra isso é loucura. Dando autonomia aos estados, você garante que os problemas de cada um podem ser resolvidos sem apelar pra Brasília, tirando o foco nessa esfera. 

Henrique: É o que eu acho também. Se o povo não precisa competir pelo poder central a união entre os estados é fácil.

David: Isso, e uma união real, sem ser imposta de cima. Um governo autoritário só causa mudanças temporárias, é como tentar educar uma criança com pura violência sem jamais explicar o porquê, como se treina um animal. 

Pedro: Mas mantendo esse poder central você ainda deixa bem possível que alguns grupos influenciem a lei de forma a aumentar o poder do governo federal e tomar controle dele. Mantendo esse país gigantesco você pede pra tudo se centralizar denovo.

David: Mas não tem vários países onde isso não aconteceu?

Pedro: Tem, mas a maioria são pequenos e com populações bem homogêneas. Um exemplo de país enorme e diversificado com um poder central no inicio descentralizado é o dos norte-americanos, que há no mínimo décadas tem uma população que briga entre si enquanto é roubada por uma elite...

David: É, é um exemplo complicado mesmo. Esse é um ponto interessante, vale a pena debater isso, mas uma coisa é certa: autoritarismo não é o jeito de gerar mudanças de verdade.

Bento: Acha que não é possível? Mesmo com a propaganda moderna e o controle da educação?

David: Não preciso achar nada se os exemplos são vários. Autoritarismo na nação gera internamente ressentimento em direção ao Estado, mesmo que no "subconsciente", e externamente gera medo e sabotagem. Com o primeiro grande sinal de fraqueza, talvez causado por outros países, a derrubada desse regime acontece e as ideias dos ditadores viram heresia. Nada muda no fim.

Bento: Está mesmo tão confiante de que não dá pra fazer isso direito?

David: Sim, tenho certeza de que tentar impor algo do tipo é loucura. Na primeira chance, tudo acaba e a democracia volta. Quer dizer, você lembra de algum exemplo onde tudo acabou diferente?

Bento: Bom, acho que não. Tiveram alguns onde boas mudanças aconteceram até aqui como o Getúlio, mas as coisas sempre voltaram ao normal.

David: Se ninguém fez isso funcionar nem mesmo em tempos onde a democracia não era um dogma entre os países grandes, como eu vou acreditar que isso vai funcionar hoje? Me parece tão prudente quanto acreditar em marxistas.

Bento: Bom, admito que não pensei direito nessa questão e tentei deduzir demais. Derrubar a democracia violentamente é sim uma má ideia, realmente errei.

Pedro: Estou feliz e surpreso agora, não imaginava que argumentos pudessem funcionar com autoritários.

Stuart: Digo o mesmo, não contava com isso.

Bento: Parece que funcionam sim as vezes. Nem todos somos crianças querendo incomodar ou perdedores frustrados.

Henrique: Então é isso, acho que o tema anti-democrático já rendeu o suficiente.

David: Sim, a ideia de revolução autoritária já não vai ser defendida hoje. 

Stuart: Justo, esse sistema claramente é falho.

Hans: Especialmente porque esse autoritarismo se auto-destrói, já que comete dois erros que pedem a volta da democracia: Primeiro, não tem qualquer forma boa de sucessão, o líder morre e o partido que improvise. Segundo, com sua ideia de partido, mantém a noção republicana do que é o Estado: um tipo de administrador impessoal. Se for pra derrubar a democracia, é melhor restaurar a monarquia mesmo, a sucessão é obvia e torna o Estado um ser de carne e osso, é a forma de governo menos ruim.

Pedro: Ai não dá! Como alguém que se chama de anarquista pode sequer sugerir que um tirano é uma ideia aceitável?

Stuart: Soa estranho mesmo essa ideia de que colocar de volta uma instituição tão retrógrada pode ser boa. 

Hans: A monarquia, de todas as formas de Estado, é a que mais se aproxima da ordem natural, ou duma sociedade onde a propriedade privada é respeitada, não exagerem.

Pedro: A monarquia é a opressão por um tirano, a democracia é a opressão pela multidão, e a oligarquia é a opressão pela "ordem natural". Nada disso é liberdade...

Hans: Pois espera um pouco! Em breve mostro que a liberdade e a propriedade privada sao irmãs. 

Pedro: Não se tenta provar que dois é maior do que cinco, mas pode tentar depois.

Hans: E eu vou!

Bento: Você levantou bons pontos, mas não confio em monarcas. O tempo deles já passou, as coisas são outras hoje.

Henrique: Também não confio, é muito perigoso dar tanto poder prum individuo. Mesmo um monarca não-absolutista pode fazer bastante e eu não vejo com bons olhos um sistema onde dependemos da boa vontade de um cara só.

Hans: Não seria pior do que hoje, já que um monarca é treinado para a função, então no mínimo tem preparo. Já na democracia é eleito não quem é competente, mas quem consegue voto. Fora que o monarca fica a vida toda no poder e passa pros filhos, então tem mais incentivo para pensar no longo prazo que alguém que não fica nem dez anos.

Henrique: Mas ai você olha os sujeitos como se fossem robôs sem ideias, desejos, cultura ou passado que foram programados pra ter o máximo de bens. Na vida real muitos monarcas não agiram ou agem direito e muitos chefes de nações democráticas agiram ou agem direito. Apesar das vantagens da monarquia, a dificuldade de limitar o poder do rei e a falta de um processo seletivo são falhas enormes. 

David: Olha, é verdade. O pior dessa forma a priori de pensar típica de "iluminados" é a falta de semelhança com o mundo real. A forma de governo monárquica tem vantagens mas tem defeitos também, nenhuma forma de governo é perfeita, depende da situação e história do povo. Democracia, aristocracia, monarquia, fica pra nação usar o que funcionar melhor. 

Hans: Mas ao menos você concorda que é melhor do que só dar o poder todo prum partido, né?

David: Isso sim. Achar que dá pra reformular a sociedade inteira da noite para o dia é ridículo.

Bento: Já que a conversa sobre minhas ideias acabou, tá na hora de escolher outro pra falar, não é?

Stuart: Isso, já pode escolher o próximo.

Bento: David, pode ir. Vamos ver o que você tem, quem sabe eu não lhe derrubo as ideias também...

David: Talvez, hehe. Eu só faria mudanças simples: remover burocracias, tornar o sistema tributário mais progressivo e simples, praticar desenvolvimetismo controlado, diminuir os gastos do Estado, focar os gastos em saúde, educação e segurança etc. Só fazer o que os grandes fizeram.

Stuart: Bom, melhoraria o país bastante.

David: Sim, e melhorar esse lugar já seria uma vitória. 

Pedro: Você não ia fazer nada novo? Não acha que poderia gerar uma sociedade melhor que as atuais?

David: Isso. Como eu disse antes, a melhor direção é a história, é olhar o que funciona. Não tenho confiança em mudanças grandes.

Pedro: A prudência é algo ótimo, mas toda ideia bem sucedida era pouco confiável antes de dar certo. Não acha que você também poderia fazer algo melhor surgir? Esse sistema precisa mudar muito. 

David: Precisa sim, mas tentar criar uma utopia sempre falhou historicamente, não vejo como sonhar demais possa ser uma boa ideia. 

Pedro: Então você prefere dar passinhos calculados em direção ao progresso na sua frente quando pode correr? 

David: Se pra chegar a ele tenho que atravessar um campo minado, sim...

Pedro: Que exagero. Você devia confiar mais na capacidade humana de acertar!

Henrique: Concordo, devemos ser mais ousados, as grandes mudanças só acontecem assim.

Hans: Isso! A capacidade humana de racionalmente descobrir como melhorar a vida já mostrou serviço várias e várias vezes.  

David: Vocês acham que podem deduzir a perfeição? 

Hans: O que nos impede?

David: Bom, Pense que no futuro as coisas estão tão boas quanto nos sonhos dos nerds de ficção cientifica. A humanidade resolveu todos os problemas e a tecnologia transformou todos em deuses, tudo está bem.

Hans: Certo.

David: Agora imagine que um sujeito desse futuro quer ouvir uma apresentação específica do Mozart, o que o leva a criar um universo exatamente igual ao nosso, partícula por partícula, e então cochilar até a história desse universo chegar nessa apresentação. Até aqui dá pra imaginar?

Hans: Dá, mesmo sendo bem bizarro.

Henrique: Não era mais fácil ele voltar no tempo ou coisa assim?

Stuart: Verdade, ia ser mais rápido e fácil.

David: Talvez seja impossível ou proibido, ou ele só goste de criar universos. Não é importante.

Henrique: Entendi.

Bento: Onde você quer chegar?

David: Enfim, digamos que assim que o sujeito dormiu, um amigo entrou e viu o universo antes do seu Big Bang, o que lhe deu vontade de mexer em...

Hans: Espera, como ele não acordou? Alguém capaz de conhecer perfeitamente as condições iniciais do universo deve conseguir sentir alguém do seu lado.

Stuart: O sujeito pode ter ido dormir em outra dimensão onde o tempo passa mais rápido, duvido que ele fosse perder bilhões de anos da vida social pra ouvir música.   

Hans: Mas o tempo ainda tem sentido pra um ser nesse nível?

Stuart: É uma boa pergun...

Pedro: Não é não! Dá pra irmos pro ponto disso?

Stuart: É acho que é melhor deixar pra outro dia mesmo esse assunto.

Hans: Pensando bem, verdade.

David: Obrigado! O amigo nem mexeu tanto, ele apenas apagou algumas partículas, criou outras, mudou algumas de lugar etc. Foram mudanças simples mas que mudaram totalmente a estrutura desse universo. Quando o primeiro sujeito acordar, ele vai ver a cena que queria?

Hans: Não, com as mudanças será algo bem diferente. 

Stuart: Verdade, mudanças pequenas nesse estado inicial iam mudar tudo lá na frente.

David: Então mesmo um ser com uma mente muito superior a nossa poderia se enganar totalmente por errar em alguns detalhes?

Hans: Sim, um único detalhe importante muda tudo.

David: Exatamente. Nesse caso, como confiar que vocês vão captar todos os detalhes necessários pra remodelar a sociedade direito? Como acreditar que um sujeito sentado numa cadeira vai deduzir a perfeição?

Bento: Verdade! O racionalismo político não é capaz de resolver nada sozinho...

Hans: Então você acha impossível alguém saber o que fazer via dedução?

David: Tenho certeza, o seu método a priori, "estudando a ação humana", não alcança a realidade completamente. 

Stuart: Sim. Esse método lida apenas com agentes atomizados cujo interesse é ter mais bens materiais. Isso negligencia tantas partes da realidade social que não dá pra levar a sério alguém que usa exclusivamente isso...   

David: Exatamente. O que nos ensina é olhar o que funciona mesmo. O que não foi testado não é confiável.

Hans: Se esse método é tão falho, como a liberdade econômica trouxe tanto bem?

David: Seu método pega direito parte da realidade, então a vida real reflete em parte as conclusões tiradas dele. Vou dar um exemplo: pode me resumir a tragédia dos comuns?

Hans: Fácil. Quando um recurso valioso não é propriedade de ninguém, as pessoas tendem a ficar com medo de outros usarem tudo antes delas, então todos usam o máximo que podem do recurso e com isso ele se esgota. Isso é uma boa amostra da necessidade da propriedade privada, já que se uma porção é minha só eu uso, e assim, sem medo de pegarem tudo, posso usar sem esgotar.

David: Sim, já vi tipos defenderem a necessidade da propriedade privada em tudo assim, graças a essa ideia.

Pedro: Uma ideia ridícula! Pastos, lagos, florestas e tantos outros recursos em comum foram bem administrados por vários e vários grupos durante a história sem a necessidade de propriedade privada! 

Hans: Mas a tragédia é uma dedução que refuta a ideia de que a falta de propriedade privada é melhor do ter ela. Esses grupos administraram APESAR de não terem propriedade, não por não terem.

Pedro: Essa "dedução" pressupõe que todos os agentes são egoístas atomizados incapazes de se organizar e que ganhariam ao pegaram mais do recurso pra vender mais no mercado ou coisa assim.. Nenhum dos dois pressupostos é verdade pra grande maioria das pessoas fora de uma sociedade capitalista, então não, essa "dedução" não nos dá nenhuma informação necessária e imutável. 

Hans: Então a dedução tá errada?

Pedro: É claro. Ela erra ao considerar que o individualismo egoísta e a importância do mercado, coisas modernas, são eternos e sua "previsão" erra em um monte de exemplos. A tragédia real é que algo que falha na teoria e na prática é levado a sério. 

David: É o que eu ia dizer. Esse método ignora muitas coisas importantes. Você pode fazer o silogismo certinho, se as premissas são falsas o argumento falha.

Stuart: Tentei dizer isso antes pra ele. Querer deduzir tudo assim sem olhar pra realidade é loucura, você só vai produzir um formalismo lógico inútil.

Pedro: Bem isso mesmo, temos que olhar pro mundo sim. 

Hans: Olhando assim, acho que entendo o problema...

David: Bom que viu a fraqueza desse método: só produzir resultados inúteis. Confiar em algo assim é loucura, sempre vai faltar algum detalhe!

Henrique: Isso é exagero. Não temos que só repetir o que vimos antes, mas podemos analisar o que acontece e disso tirar relações de causa e efeito. Não é perfeito, mas nos ajuda a saber o que fazer. 

Pedro: Sim. Não dá pra deduzir a perfeição, mas não querer pensar por causa disso é idiotice, esse mundo pode mudar e podemos descobrir como. 

Stuart: Penso assim também. O fracasso da dedução pra achar uma sociedade melhor não quer dizer que tudo fracasse.

David: Mas como saber que você vai mudar pra melhor ou pra pior? Quantos fatores importantes você pode esquecer? Quantas coisas uteis parecem inúteis? Não confio em ter ideais, eles tem muita chance de serem falsos...

Pedro: Ter esse medo de errar já demonstra que existe algo como acerto e algo como erro. Se temos padrões temos um ideal. 

Henrique: Verdade. Se as pessoas estão dirigindo em direção a ponta de um penhasco, você vai dizer pra elas irem pra outro lugar, não pra elas dirigirem mais devagar. Prudência é bom, mas podemos ter um pouco de ousadia.

David: É verdade que existem sociedades melhores do que outras. Mas será que inovar é uma boa ideia?

Henrique: Podemos olhar os erros e acertos e com isso aprender. Assim podemos, mesmo que devagar, ver o que fazer.

Pedro: Sim! Podemos mudar as coisas pra melhor. Não é tão obvio como, mas é possível.

Bento: Se tem uma coisa que a história diz é o que não fazer mesmo. Concordo, as coisas podem mudar, com cuidado.

David: Acho que entendi, ceticismo político não é tão necessário assim. Nesse caso, inovar com prudência é uma opção sim. Bom, acho que deu pra concordar nisso.

Henrique: O nível de prudência deve ser um ponto de discussão, mas todos então concordam que prudência e inovação devem andar juntas.

Pedro: Justo.

Stuart: Faz sentido.

Hans: Não faz! O que devemos fazer é obvio...

David: Nesse caso, pode falar. Já foi minha vez de defender meu ponto de vista. Você pode dizer o seu.

Hans: Tudo bem. Vocês vão ver o que é uma sociedade ética de verdade!

Stuart: Já que o método a priori já era, vai tentar argumentar pro seu anarquismo pela ética de novo? 

Hans: Sim! O que temos que fazer pra melhorar o Brasil é acabar com o país Brasil! O Estado é uma quadrilha e tem que sumir!

Bento: Você quer destruir totalmente o Estado? Tá louco?

Hans: É claro! A propriedade privada é um direito natural inviolável! O Estado é ruim por si só já que precisa roubar nossos bens pra existir, então é o único jeito de ter uma sociedade boa. 

Pedro: Você quer abolir o Estado e manter o capitalismo? 

Hans: Sim. Não tem qualquer erro nisso, ao contrário, é bom eticamente e utilitariamente. 

Henrique: O excesso de ação estatal é um problema sério pro país sim, mas acabar com o Estado não é uma boa ideia.

Hans: Se diminuir é bom, imagina abolir!

Henrique: Não funciona assim não...

Hans: Claro que é! Conseguem ver algo que a propriedade e o mercado não resolvam?

David: Monopólios naturais, fraude, poluição, free riding, assimetria de informação, exploração, abandono dos não-trabalhadores, falta de investimento em inovação e pesquisa científica e, claro, falta de um poder capaz de garantir a paz. Sério, anarquismo é uma piada.

Bento: Fora que algumas cidades privadas ou coisas do tipo não teriam como se defender de Estados envolta delas. O governo brasileiro derrubou várias revoltas sem ter acesso as tecnologias de um exército moderno, afinal. Supor que todos os Estados envolta vão ignorar essa oportunidade de se expandir e ganhar recursos naturais é ser moleque...

Pedro: Não vejo problema na falta de um Estado, ao contrário, mas o capitalista tem a propriedade de um bem que deixa pra outros usarem diretamente, como fabricas e casas pra alugar. Sem um poder reconhecido por todos lhe dando esse "direito" e o protegendo com armas, como o capitalista médio fará pra não perder os bens da forma que JÁ acontece as vezes? Capitalismo precisa de um Estado.

Stuart: É o que eu vivo dizendo! Essa ideia simplesmente não faz sentido! As defesas desse ponto de vista geralmente partem desse método a priori fajuto, são pseudo-defesas e só.

Hans: Mesmo que seja assim, a propriedade privada só não é violada se o Estado não existe, então temos que acabar com ele e começar a ordem natural logo! Só assim seremos livres!

Stuart: E lá vamos nós...

 Pedro: Onde isso é liberdade? O capitalismo dá poder pra poucos e nos impede de decidir o que fazemos com nossas habilidades, já que poucos são chefes. Sua ética não nos protege da tirania! Nem mesmo da estatal!

Hans: Quanto comunismo! É claro que a liberdade vem da propriedade! E como a ética de autopropriedade não protege do Estado?

Pedro: Eu nem sou comunista! Embora isso fique pra depois. A questão é que você não pode recusar um Estado a priori com sua ética! É uma tirania que ainda pode aceitar...

Henrique: Também acho que essa ética não vai tão longe, mas agora fiquei curioso!

Bento: Também quero ver. Esses "defensores da liberdade" são irritantes demais, pode ser útil ouvir isso.

Stuart: Pode mesmo.

David: Também tô interessado. Conta ai, Pedro, o problema.

Hans: Eu que quero ouvir. Como assim na minha ética o Estado não é injusto a priori?

Pedro: Nos diga o porquê dele ser que eu mostro.

Hans: Eu tenho o direito da autopropriedade, posso fazer oque quiser com meu corpo e meus bens. O Estado moderno consiste em uma instituição com o monopólio da força em um local, sendo totalmente soberano em "sua" área. Como essa instituição pode decidir tudo que acontece numa área sem ferir os direitos dos outros? De onde vem essa autoridade?

 Pedro: Suponha que derrubamos o Estado. Agora, eu posso ter propriedade absoluta em um território que é meu, né? Só entra quem eu quero e as minhas regras são lei nesse local, né?

Hans: Exatamente! Com o fim do Estado, cada individuo é o rei de seu próprio castelo. Como isso não é liberdade?

Pedro: Então se eu comprar um terreno grande e alugar pra outras pessoas eu decido as regras e cobro as taxas que quiser? Eu sou o dono absoluto do condomínio, né? 

Hans: Sim. Você decide as regras que quiser, contanto que não impeça os inquilinos que não gostam de sairem.  Contanto que as pessoas escolham viver assim e tenham o direito de sair, está tudo bem.

Pedro: E dentro do meu condomínio eu poderia ser aquele que resolve os conflitos, que garante a lei e a ordem e que tem o poder armado? No meu território eu poderia barrar agências de segurança independentes e dar o monopólio da força para eu e meus subordinados?

Hans: Claro que sim. Seria estranho pra mim, mas talvez muitos achassem bom. A ordem natural, o verdadeiro capitalismo, te permite viver com os iguais a você em liberdade!

Pedro: E poderia eu só permitir um único tribunal privado dentro do meu território que é ligado a agência de segurança? 

Hans: Sem problema nenhum.

Pedro: E já que eu posso fazer as regras, eu poderia dar a propriedade do condomínio para um grupo de pessoas ou transformar o local em uma pessoa jurídica que tem a propriedade?

Hans: Pode sim.

Pedro: E eu poderia fazer todos esses serviços não serem pagos por quem os usa mas pagos por taxas pagas por todos os inquilinos?

Hans: Sim. Algumas pessoas preferem assim por acharem que é gratis, haha. Acredita?

Pedro: Sim, hehe. Falando em acreditar, você gostaria de um resumo do que vimos até aqui?

Hans: Claro. 

Pedro: Você defende que o Estado, ao se declarar o dono de uma área, viola nossos direitos. Ao se declarar o soberano que decide as leis, controla o uso da força e cobra as taxas que quiser, o Estado viola a autopropriedade, não é?

Hans: Exatamente isso.

Pedro: E a sua solução é abolir o Estado e gerar a "ordem natural", onde cada individuo com muito dinheiro pode comprar uma área e... se declarar o soberano que decide as leis, controla o uso da força e cobra as taxas que quiser? A sua ética rejeita o Estado em favor de outros Estados menores?

Bento: Hahahaha! 

Stuart: Nunca pensei nesse ponto, não faz muito sentido mesmo.

David: Verdade! Agora eu quero ver!

Henrique: É, concordo que propriedade privada e anarquia não combinam.

Pedro: Exatamente! É uma piada dizer que se apoia o anarquismo, o fim da hierarquia, e ai apoiar o capitalismo, que deixa poucos indivíduos controlarem os bens de todos assim!

Hans: Mas, veja bem, o negócio é que o condomínio é voluntário e o Estado não! Eu não tenho que pagar o condomínio mas tenho que pagar o imposto!

Pedro: Se você morar no condomínio igual mora no Estado vai ter que pagar do mesmo jeito que paga hoje.    

Hans: Mas eu escolho morar no condomínio! Eu escolhi morar aqui?

Pedro: Se seus país tivessem ido morar no condomínio antes de você nascer você teria que seguir as regras dele igual acontece no Estado.  

Hans: Mas o dono do condomínio é dono legítimo da terra e o Estado não é!

Pedro: Talvez todo Estado moderno não tenha surgido por meios que você aprovaria, não importa! A questão é que não existe nenhuma diferença essencial entre a relação de um Estado para seus cidadãos e a relação de um locador para seus inquilinos ou e a relação de um capitalista para seus empregados. Em todos esses casos alguém se apropria de algo necessário para a vida querendo lucrar com o trabalho de outros! É tudo tirania!

Hans: Bom, não é bem assim, tem algo mais, sua analise ignora...

Pedro: O que falta nessa conversa é você decidir se quer apoiar a liberdade ou a tirania...

David: É, nessa "ordem natural" um Estado provavelmente ainda seria o comum, só muda o nome. É meio redundante então.

Henrique: Realmente.

Stuart: Isso foi bem experto, uma contradição tão grande e eu nunca vi. Ia ter me ajudado, hahahaha.

Pedro: Hehe. Imagino, esse tipo de "anarquista" é bem irritante. 

Hans: Que tal então você dizer o que é uma sociedade boa? Nos impressione.

David: Boa! Fiquei interessado em ver o que você sugere, Pedro.

Bento: Eu até que também, só pra ver como alguém defende essa igualdade doida sem virar comuna.

Pedro: Certo, vou tentar sugerir como ter uma sociedade que preste.

Hans: Boa sorte.

Pedro: Não preciso, acho. Eu diria pra abolir totalmente o Estado, com as pessoas se unindo em cidades menores depois disso. As regras das comunidades seriam democráticas, não legais, algo que só funciona com grupos menores que metrópoles. 

Stuart: Seria então como o que o Hans sugeriu?

Pedro: Não. Como falei antes, os capitalistas e donos de propriedades não iam conseguir proteger suas "propriedades" muito bem sem o Estado lhes dando o direito. Vejo então as propriedades sendo mais bem distribuídas. Ia ter bem menos gente vivendo de aluguel e bem menos gente assalariada. Com os capitalistas sumindo e os meios de produção bem espalhados, vejo os trabalhadores se unindo para trabalhar com todos recebendo o que produzem e com a produção sendo mais local.

David: Bom, parece mais realista que todos obedecerem direitos de propriedade sem o Estado os reconhecendo. Sem o Estado, arranjar armas seria fácil, proteger a propriedade seria um custo e tanto...

Stuart: Verdade. Sem uma ordem legal no território dando o direito ao proprietário, não ia dar pra manter a propriedade que você nunca usa. Os interessados tomariam controle sem problemas, como vemos as vezes. Mas ainda vejo problemas sérios nessa ideia de sociedade anárquica.

Pedro: Podem dizer os problemas, não vejo nenhum.

Henrique: Sem o Estado, como centralizar capital o bastante pra ter pesquisas tecnocientificas? 

Bento: É verdade! Sem financiar pesquisas, a tecnologia ia estagnar. Não ter tecnologia de ponta pra oferecer é pedir pra ter que importar tudo de outros lugares. Suponho que um anarquista não ia querer depender de Estados.

Stuart: Verdade. Só ter padarias e agricultura não basta pra ser um local com importância na economia. Fora a perda de uma medicina melhor.

Pedro: Como assim?

Stuart: Pesquisa tecnocientífica não é algo provável de existir sem o Estado. Não é exatamente rentável ficar anos financiando uma pesquisa quando você não sabe se ela vai gerar qualquer aplicação prática.

David: Fora que é difícil de dizer se seria viável juntar recursos o suficiente para inicio de conversa. Pequenas comunidades talvez nem tivessem o capital necessário. Não é a toa que existe uma ligação histórica entre o rápido avanço tecnológico dos últimos séculos e o Estado moderno.

Pedro: Bom, talvez algumas comunidades pudessem ter mais interesse em tecnologia e se unirem para custear a pesquisa. Uma pessoa normal teria mais dinheiro sobrando e as comunidades seriam mais unidas, afinal.

Stuart: Mesmo assim, a pesquisa ocorreria então bem menos, ia retardar bastante o avanço tecnológico. Fora, de novo, a ciência.

Pedro: Admito que é verdade, mas acho que valeria a pena abrir mão disso para acabar com a pobreza e opressão, é questão de prioridades. Algum outro problema?

David: Como impedir a violência de crescer sem Estado?

Pedro: Bom, as comunidades seriam bem menores e a pobreza seria menor também, então acho que daria pra ter um regulamento interno razoavelmente bom.

David: Não, nem perguntei de violência interna mas externa. Como não perder esses recursos naturais pra Estados?

Pedro: Os nossos terrenos são variados, o país é enorme e o porte de arma seria fácil de arranjar. Provavelmente o homem comum seria mais preparado pro combate, sem poder depender de policia ou exército. Fora que regiões diferentes poderiam se ajudar em combate.

Bento: Se ajudar a morrer? Desde o inicio do mundo até hoje impérios conquistaram pequenos povos, Estados venceram anarquias...

Pedro: Mesmo que seja assim, essas comunidades costumam dar trabalho, como vimos no século passado. Seria bem desvantajoso, no mínimo, conquistarem esses lugares.

Bento: Bom, mesmo sendo desvantajoso as vezes os grandes fazem isso. Motivações econômicas ou ideológicas sempre atraíram conquistadores.

David: Concordo, rezar pra ninguém querer te atacar não é muito inteligente, não dá pra apostar em algo assim. Algum tipo de classe guerreira é importante num contexto onde você não está cercado de tribos.

Stuart: Fora a questão já abordada da tecnologia e avanço científico. Comunidades menores parecem boas, mas sem o Estado duvido que sejamos muito mais do que tribos...

Pedro: De qualquer forma, acho que poderia funcionar. Tem que funcionar, nada mais parece justo...

Stuart: E qual o motivo desse tipo de sociedade ser obrigatória?

Pedro: Bom, uma ideia muito comum é que opressão é ruim, e é bom que todos concordam com isso.

Bento: Depende do que se chama de opressão...

Pedro: Bom, não vou debater o que é certo com quem sugeriu fuzilar gente e tomar o país... 

Bento: É uma discussão inútil mesmo.

Pedro: Enfim, o problema ignorado é que muitas das coisas "normais" são opressivas. Hans estava certo em ver que o Estado é naturalmente opressor, mas ele não percebeu que as relações econômicas capitalistas também são ruins. O q..

Hans: Viu só! Falei que era comuna!

Bento: De novo isso...

Pedro: Eu acho que o livre mercado é uma coisa boa, o trabalhador merece o que produz. Onde que ser anti-capitalista é ser comunista?

Hans: Capitalismo é livre mercado, então você é comunista sim, já que o contrário de livre mercado é planejamento estatal ou comunismo.

Bento: No comunismo nem tem Estado...

Pedro: Exato, uma economia planificada totalmente comandada pelo Estado é no máximo um tipo de socialismo mesmo. A sua definição de capitalismo é muito vaga, a economia diz respeito à produção e alocação de riqueza e você só fala de uma parte.  Você acha que qualquer sociedade onde tiver livre troca tem capitalismo?

Hans: Sim.

Pedro: Então se dois grupos comunistas trocarem riquezas na verdade eles são capitalistas?

Hans: Claro que não.

Pedro: Então a sua definição falhou...

Henrique: Pegando a ideia de considerar a produção e alocação de riqueza, acho que todo mundo vê o capitalismo como um sistema económico onde a produção é via trabalho assalariado e a alocação é via livre mercado. Parece bom?

Pedro: Pensei em algo assim.

Stuart: É razoável sim. 

David: Se lembrarmos que isso é um tipo ideal, concordo. Existem diferentes tipos como anarcocapitalismo, minarquismo, capitalismo liberal, weberiano etc.

Bento: Faz sentido.

Hans: Digamos que eu aceite essa definição, como o capitalismo seria ruim?

Pedro: A relação econômica normal no capitalismo não é a de um sujeito que é dono de algum meio de produção e de outro que, não sendo dono do meio, trabalha diretamente em troca de um salário?

Hans: E qual o problema nisso? O chefe ganha com o produzido com a sua propriedade e o contratado ganha um salário no fim do mês. Alguém perde algo nisso?

Pedro: Pra te ajudar a ver a resposta, eu lhe pergunto: por que o contratado se assalariou? Ele não poderia trabalhar diretamente em algum meio de produção?

Hans: Se ele escolheu trabalhar, não deve ter algo assim. Pra poder virar o próprio chefe ia precisar arranjar algo útil, pra conseguir gerar valor. 

Pedro: Então ele ia precisar arranjar algo material pra poder gerar valor, certo. Ele teria como arranjar esse meio de produção sem antes trabalhar pros outros e juntar dinheiro? 

Hans: Acho difícil pra maioria das pessoas.

Pedro: Então pra ser o próprio chefe o sujeito médio primeiro ia precisar trabalhar pros outros?

Hans: Isso ai.

Pedro: Veja, muitos governos cobram imposto sobre o salário, sobre lucros, sobre dividendos etc. Acha que é um tipo de opressão?

Hans: É claro que sim! O sujeito trabalha e dai vem o Estado e surrupia uma parte do nada porque diz que é o "dono" do produzido, piada né?

Stuart: Fiquem olhando...

Pedro: Não fala não. Enfim, mas esse imposto não é voluntário, já que você só paga se trabalhar? Você não pode deixar de trabalhar?

Hans: Claro que não! Trabalhar ou não não é escolha! Quem não trabalha não produz, então não realiza trocas e morre de fome sem nada!

Bento: Ou ao menos devia ser assim com vagabundo...

Hans: Verdade! Só comuna vagabundo que acha que os outros tem que trabalhar pra eles de graça!

Pedro: Vocês tão certos, trabalhar não é escolha e nem devia ser. Quem puder tem que trabalhar. Mas o imposto sobre trabalho não poderia ser justificado pelo Estado oferecer ajudas pro trabalhador como segurança, dados e direitos trabalhistas? 

Hans: Não! Você não pode chegar e cancelar essa "troca", então ela não é voluntária. Se milicianos "protegerem" ou "auxiliarem" você durante o trabalho, ainda é opressivo!

Pedro: Mas a troca não é voluntária já que você pode sair do país?

Hans: Não, eu só ia parar em outro Estado. Fora que mesmo que fosse não justificaria esse confisco do que eu fiz!

Pedro: Então o imposto não é voluntário porque você tem que trabalhar e o Estado botar a mão no que você produz não se justifica por ele te oferecer ajuda em troca e nem por você poder ir pra outro Estado?

Hans: Isso é pura verdade!

Pedro: Se você obrigatoriamente tem que trabalhar e vimos que só poucos não tem que trabalhar como assalariado, segue que o trabalho assalariado na prática É obrigatório. E o capitalista botar a mão no que você produz não se justifica por ele te oferecer ajuda em troca nem por você poder ir pra outro Estado! 

Stuart: Sabia que ia ser algo assim!

David: Mas também né, tava na cara.

Pedro: Só queria mostrar que a ideia de que o Estado e o capitalista são diferentes é louca, já que o Hans não viu antes. Nenhum anarquista pode acreditar em propriedade privada.

Bento: Que seja! Essas ideologias anarquistas são fundamentalmente coisas de gente fraca. A ficção de conflitos e opressão serem "errados" surge de gente que não se dá bem com essas coisas...

Pedro: De novo, ignorado. Conseguem ver que a relação entre patrão e assalariado é tão justa como a entre Estado e cidadão?

David: O que significa que se uma é válida a outra também. 

Pedro: Exatamente isso. Como a autoridade estatal não é legitima, nem a do capitalista é.

Hans: Você não quer nenhuma propriedade privada? Vai me dizer que não é um comunista?

Pedro: Você tá certo que os comunistas e eu não queremos propriedade privada, é verdade. Mas eu concordar com eles em algo não me torna comunista.

Hans: Mas sem propriedade privada tudo é público! Como podemos ser livres se tudo é do Estado?

David: Me intrometendo rápido: ser público não significa ser do Estado, mas sim ser disponível pra todos. Muitos territórios na Era Medieval eram usados por todos sem existir um dono, por exemplo.

Pedro: Exatamente. A propriedade pública não é a única possível pra mim. A propriedade pessoal ou posse, é aquela que o individuo realmente usa, sua casa, seu celular etc, até um meio de produção de um autônomo. Já a propriedade privada é aquela que não é usada efetivamente pelo individuo, como uma segunda casa ou uma fábrica.

Bento: Então você quer acabar com aluguel e assalariamento deixando os meios de produção e bens imóveis serem propriedade de quem os usa? Já ouvi falar disso mas nunca vi defenderem realmente. A esquerda odeia a ideia de livre mercado, afinal.

Pedro: Exatamente. Realmente é uma visão rara mas acho certa. É que eu acredito que o individuo merece receber o que seu trabalho gera, então não gosto da ideia de não ter um sistema de preços e troca voluntária. Não acho que ninguém deva ser forçado a trabalhar pros outros, embora provavelmente iam ter comunidades comunistas.

Bento: Entendo. 

Stuart: Mantendo o mercado você escapa de algumas objeções comuns ao comunismo, mas ainda não confio na ideia de não ter Estado.

Pedro: Sei que tem umas incertezas, mas deve ter algum jeito de viver respeitando os direitos naturais.

Hans: Mas como diferenciar propriedade pessoal e privada? Você podia roubar muito inocente.

Pedro: Não existe uma regra que serve pra absolutamente todos os casos, Mas provavelmente ia ser decidido com base no uso e o reconhecimento dado pela comunidade. Se você nunca usa uma casa e ninguém da vizinhança dela te conhece a casa não é sua, ponto. 

Hans: Mas a casa era propriedade! Como assim eu deixo de ter propriedade por ter deixado um tempo sem usar?

Pedro: Recursos são escassos e necessários pra vida. Alguém realmente merece morar na rua porque um idiota quer ter duas casas?

Hans: E qual o problema? Se você não roubou o homem então não há nada de errado, ele não tinha direito à casa.

Pedro: Se eu sou um bilionário que te odeia e compro vários metros de propriedade envolta da sua casa, de modo que só dá pra passar pisando no que é meu, e estabeleço que pra pisar na minha terra e sair você teria que pagar um trilhão de reais. O que acontece com você?

Henrique: Interessante, eu ia usar esse argumento depois.

Pedro: Legal saber,  é uma contradição importante nessa tal "ordem natural". Enfim, como isso ia terminar?  

Hans: Eu não tenho esse dinheiro, então vou ficar isolado do mundo e morrer de fome, acho.

Stuart: Não daria pra alguém te dar a comida?

David: O Pedro poderia cobrar o mesmo preço pra esse alguém poder pisar na terra e entregar a comida, então não. 

Pedro: É isso mesmo, ou paga ou não pisa na terra. Nesse caso, eu teoricamente não cometo injustiça porque ninguém tem o direito de pisar na minha terra, certo?

Hans: De certa forma sim.

Pedro: Mas mesmo que nenhuma propriedade seja violada você não acaba morto porque eu te privei do contato com o mundo?

Hans: Acabo morto por causa de você sim.

Pedro: Nesse caso, eu não te agredi de certa forma?

Hans: Bem, sim, agrediu.

Pedro: Ótimo, então você concorda que privar alguém indiretamente do necessário para a vida por capricho é agressão. Como sabemos que você não precisa de uma bem que não usa e que mantendo a propriedade dele prejudica outros segue que só existe propriedade se você efetivamente usa a coisa. 

Hans: Por isso só a tal propriedade pessoal é boa? 

Pedro: Isso. Acha algum erro nisso?

Hans: Tenho certeza que tem algum...

David: É um argumento interessante. Consigo ver de onde vem a noção de que a propriedade privada é usada para se aproveitar dos outros. Mas embora uma sociedade com melhor distribuição de propriedade seja provavelmente melhor não segue que toda forma de propriedade privada seja opressiva.

Pedro: Como não? Precisamos trabalhar para ter acesso aos bens, então quando o capitalista se apropria do meio de produção para só me deixar trabalhar em troca de um salário ele necessariamente usa de coerção contra mim. Isso é claro pois minhas escolhas são trabalhar para ele, e assim perder a maior parte do valor que gero, ou morrer.

Bento: Indo por essa lógica, então é necessariamente errado vender comida ou outros bens e serviços essenciais. Agora sim ouço um comunista...

 David: Pensei em algo assim também.

Stuart: Não entendi o argumento.

Pedro: Também não entendi isso, podem explicar como sou comunista?

Bento: Claro, primeiro pode explicar porque comunismo é errado?

Pedro: Um trabalhador não é obrigado a trabalhar para os outros sem motivo. Se eu planto maças, por exemplo, não sou obrigado a dar elas aos outros de graça,  pois dizer que sou é dizer que sou obrigado a trabalhar para satisfazer caprichos alheios, o que é escravidão. Se um grupo quer ser comunista não há problema, mas isso nunca deve ser imposto.

Bento: Mas se os outros não comem eles morrem, então você deveria sim dar as maças.   

Pedro: Se eles comem minhas maças ou morrem então eu tenho que dar elas sim. Mas se não é caso de vida ou morte eu posso muito bem exigir uma compensação pelo meu trabalho, assim vendendo as maças.

Bento: Então alguém só pode ter direito ao produzido por você se for caso de vida ou morte?

Pedro: Exatamente.

Bento: E se for algo que você não produziu mas ganhou ou comprou?

Pedro: Mesma coisa. Eu não fiz essa blusa mas ela é minha, então eu só teria que te dar ela de graça se você estivesse literalmente morrendo de frio. Se não é um caso de vida ou morte eu posso te vender se quiser.

Bento: Certo. Então é lícito em algumas situações lucrar com algo que é seu mesmo que esse algo seja um item essencial? 

Pedro: Se não for um caso de vida ou morte, sim.

Bento: Bom, como seu argumento de antes contra a propriedade privada depende da ideia de que é sempre errado lucrar com algo essencial e acabamos de ver que isso está errado, seu argumento não funciona. Significa então que algumas propriedades privadas são lícitas, não é verdade?

Pedro: Isso é algo que eu não tinha parado pra ver antes. Talvez não seja verdade porque a propriedade privada é ao mesmo tempo algo desnecessário para o dono e necessário para quem não tem nada, diferente dos itens nos exemplos com vendas, então, embora lucrar não seja sempre errado, lucrar com propriedade privada sempre é.

Bento: Mas a comida, a roupa, serviços médicos e tantas outras coisas muitas vezes são desnecessárias para o vendedor, já que ele está disposto a trocar elas, e necessárias para aquele que está disposto a comprar. Se o lucro é valido com essas coisas, então possuir propriedade privada é "certo" em algumas situações. Nos dois casos você é dono de algo e lucra trocando o acesso com outro por outra coisa.

Pedro: Só que na propriedade privada você priva o outro de moradia ou do necessário para o trabalho e então "troca" o acesso a propriedade necessária. Não é justo porque não há outra opção.

 Bento: Bom, se eu sou o único médico ou fazendeiro disponível em uma região então as pessoas negociam comigo ou morrem. Eu privar elas do acesso gratuito a essas coisas é errado? Não vejo como você pode negar que  seja justo cobrar nesses casos sem cair em comunismo.

Pedro: Entendi. Talvez você tenha razão, até...   

Hans: Não é bom tomar uma porrada dessas, né?

Pedro: Não é muito prazeroso, mas deve ser útil...

Henrique: Pra alguém que não acredita em valores, até que você entende do assunto!

Bento: Eu fui comunista, então aprendi algumas coisas.

Henrique: Faz sentido.

Bento: Então, David, tinha pensado em algo assim? 

David: Tinha. Me parece que a ideia de que o individuo tem que ser protegido de tudo que "oprime" naturalmente cai em algo assim. 

Stuart: Então o argumento contra o Estado falha? 

Pedro: Pelo visto sim. As dificuldades que vocês colocaram pra anarquia mostram que nâo é a opção mais vantajosa e não tenho mais um argumento moral contra isso, então terei que apoiar a existência de algum tipo de Estado. Não apoio todos os tipos, é claro, já que a propriedade deve ser bem distribuida.

Stuart: Poucas pessoas serem donas de tudo é ruim mesmo. Querendo acabar com isso, que tipo de medidas você sugere então?

Pedro: Além de dividir bastante o país, para termos comunidades mais orgânicas, devemos acabar com toda ajuda estatal à concentração de recursos. Então ter uma reforma agrária, se livrar da propriedade intelectual, parar de dar subsídios para grandes organizações privadas e remover algumas regulamentações que só servem para prejudicar pequenos competidores no mercado seriam medidas bem úteis. Assim a competição ia acontecer mais naturalmente.

Stuart: Entendo. São medidas bem interessantes e necessárias aqui nesse país se você quer combater privilégios.

David: São ideias realmente interessantes, alguém ai discorda de algo?

Hans: Sim, essa ideias dos trabalhadores serem os donos dos meios de produção não faz muito sentido, já que as responsabilidades desse cargo hoje são muito grandes para alguém cuidar enquanto realiza o resto do trabalho. Uma separação forte entre trabalhador e chefe é necessária.

Pedro: Bom, muitos trabalhadores autônomos, donos de empresas familiares e membros de cooperativas são donos dos meios de produção que usam. É claro que enormes organizações em uma economia oligopolista vão gerar tanto volume de dados que se precisa de gente que lida unicamente com eles. Pequenas organizações em uma economia descentralizada são bem mais fáceis de administrar.   

Hans: Mas ter profissionais com o estudo e tempo pra lidar com isso torna a empresa mais eficiente, então é melhor deixar como tá. 

Pedro: Ao contrário, o modelo atual é bem menos eficiente se comparado com um onde o trabalhador é dono dos meios de produção.

Hans: Pode explicar?

Pedro: É claro. Se eu fizesse um desenho e pedisse para você descrever o desenho para uma outra pessoa que ia desenhar com base na sua descrição, esse segundo desenho ia parecer com o primeiro?

Hans: Não muito, já que eu poderia não notar certos detalhes ou descrever algumas partes errado, fora que a outra pessoa não ia visualizar perfeitamente pela descrição ter que ser interpretada, de forma que mesmo uma descrição perfeita não seria o bastante.

Pedro: Perfeito. Bom, mesmo alguém que observa o chão da fabrica não vai ter o mesmo conhecimento da situação que o trabalhador, seja por falta de experiência ou por certos conhecimentos  não serem conseguidos sem estar fazendo o trabalho. Quando você sobe na hierarquia o problema piora, já que os superiores vão ter ainda menos contato com o nível operacional, lidando quase só com relatórios, vão ter um volume de dados muito maior para analisar e muito provavelmente vão ter ainda menos experiência com o trabalho. O que um CEO realmente conhece dos níveis mais baixos? Provavelmente quase nada. Mesmo que todo funcionário deseje o bem da empresa, esse problema do conhecimento continua, o que fica ainda pior com a falta de motivação média... 

Hans: E por acaso a falta de motivação é culpa do sistema também?

Pedro: Claro. Quando o trabalhador é o dono dos meios de produção seu trabalho é controlado unicamente por ele mesmo e beneficia principalmente ele e sua família. Nesse caso, ele tem o controle do que faz, o quanto faz e onde faz, ele pode trabalhar no ritmo necessário para ter o que precisa e pronto. Assim, o trabalho é uma forma de se alimentar e alimentar quem se ama. Não é assim? 

 Hans: É verdade.

 Pedro: Mas não é assim para o assalariado. Ele labora mas não somente para si, labora principalmente para o dono dos meios de produção. Ele, por não ser o dono de nada, só tem a liberdade que lhe for dada por outro, que geralmente não é muita. Além disso, o assalariado não trabalha somente o necessário para os seus, mas ele também tem que produzir muito mais do que isso para compensar pelo seu salário e não ser substituído por outro, o que pode significar a pobreza. Nesse caso, o assalariado trabalha feito uma maquina, seguindo os comandos de outro, e em grande parte para sustentar aquele que lhe tira a liberdade. Não é assim?

 Hans: É a verdade que é assim para muitos, embora as empresas tenham formas de tornar o trabalho mais prazeroso para o colaborador.

Pedro: Mas ai é que está: quando o trabalhador é dono dos meios de produção, seu trabalho vai gerar receita para si e pros seus, ele trabalha no ritmo que quiser e sabendo que sua produção só beneficia a ele e quem ele quiser, a motivação é fácil de se ter. O assalariado não tem nada disso, então precisa do acompanhamento de profissionais para lidar com problemas causados pelo trabalho. Precisa de lideres motivadores, slogans, missões, valores etc para internalizar as metas da empresa. E, claro, mesmo com tudo isso ainda precisa de cobrança e supervisão pra manter a produtividade. Isso tudo não parece gastar recursos demais?  

Hans: São falhas importantes, mas existem formas de lidar com esses problemas.

Pedro: Verdade. Mas os métodos, funcionando ou não, são enxugar gelo. Vale a pena gastar recursos, estudo e pessoas para manter um sistema falho de nascença? Não é melhor corrigir as falhas atacando a base: a separação entre o usuário e o dono dos meios de produção?

Stuart: É, admito que são problemas meio grandes, não tinha pensado na relação entre eles e o trabalho assalariado.

David: Também não. Consigo ver como esse modelo descentralizado é mais eficiente.

Hans: Se é mais eficiente, como o modelo centralizado é muito mais popular hoje?  O mais eficiente vence num livre mercado sempre.

Pedro: Estamos num livre mercado?

Hans: Não. O Estado interfere pesadamente na economia, favorecendo muitas vezes poucos amigos do rei, impedindo a competição e assim piorando a vida dos outros.

Pedro: Então você está me perguntando porque a economia é toda centralizada mesmo sabendo que o Estado favorece uma economia centralizada?

Hans: É... entendi o erro.

Pedro: Isso é bom. Alguém tem alguma outra objeção?

Bento: Como ficaria a produção da cultura numa sociedade onde a desigualdade é menor? Tradicionalmente, as classes ociosas que produziam a literatura, a música etc. 

David: Já ouvi isso antes em circulos mais tradicionalistas, mas nunca entendi muito bem. Acha que a maioria dos donos dos meios de produção produzem muita cultura?

Bento: Não diretamente, mas os maiores financiam. A aristocracia sempre teve o papel de gerar a cultura enquanto o povo trabalhava para gerar os recursos. Desse forma, se mantinha o equilíbrio. 

David: E é uma boa cultura ou o que vemos na grande mídia é mais um monte de bobagem hedonista?

Bento: É, não é nada que vale a pena, é verdade.

David: Bom, já temos hoje com a internet outros jeitos de financiar artistas, muitos vivem só de ajuda dos fãs. Acho que com mais pessoas sendo donas dos meios de produção, e com isso tendo condições de bancar quem gosta, isso se popularizaria mais e a cultura provavelmente se desenvolveria de um jeito mais orgânico. Com certeza ia ser melhor do que a cultura de massa atual...

Pedro: Obrigado, David, ia dizer isso mesmo. Recebendo o valor total do seu trabalho o individuo ia poder escolher bem mais o que consumir, sem ter que aceitar o que é mandado de cima. Vocês mais conservadores com certeza iam preferir que a cultura venha de baixo, não é?

David: É, talvez fosse um jeito de acelerar a mudança da cultura de massa para a volta de uma cultura orgânica, como na maioria dos povos. 

Bento: Faz sentido. Impressionante como por baixo dessa retórica igualitárista tinha algo que presta. 

Pedro: É o poder da verdade, sabe. 

David: Enfim, alguém tem alguma outra objeção ou todo mundo concorda que distribuir os meios de produção ia ser bom?

Henrique: Não lembro de nada.

Stuart: É também não.

Pedro: Então só falta as suas sugestões, Henrique. Como salvar essa sociedade? 

Henrique: Bom, é até simples, pelo menos na prática. Começo lembrando do obvio: Deus é o dono de todos os recursos naturais, então não podem ser nossa propriedade. Esse é o ponto de partida.

Pedro: Sério? Você me perdeu ai...

Stuart: Também...

Hans: Não vejo o que a religião tem a ver com isso não.  

Bento: É melhor ter um outro ponto de partida. Tudo bem que a moral de escravo igualitarista nos deu uma boa ideia, mas dificilmente surgem no mesmo dia duas ideias que prestam dessas fontes ruins.

David: Bom, eu concordo que é melhor não falar desse tipo de coisa aqui. Tem outro jeito de argumentar?

Henrique: Tenho sim, é que era mais fácil de visualizar assim. 

David: Então vá em frente.

Henrique: Certo. Como já vimos, o direito a propriedade não pode ser tão forte a ponto de impedir os outros de terem qualquer chance de ter acesso aos recursos, já que não há diferença entre isso e agressão. Nesse caso, eu proponho algo mais radical: não é possível que recursos naturais sejam propriedade. Como os recursos naturais, diferente do capital, tem uma oferta fixa, deixar alguém se apropriar deles seria permitir a agressão. 

Pedro: Sim, você tinha dito isso antes.

Stuart: Então de quem os recursos naturais seriam?

Henrique: Já que não querem falar de Deus, dá pra dizer que a natureza não pertence a ninguém. Todo ser humano tem o direito natural de usar recursos naturais, mas não de os tratar como propriedade. 

Bento: Você me parece bem anti-comunista, vai defender que a terra tem que ser nacionalizada ou coisa assim?

Henrique: De jeito nenhum, os recursos naturais não são propriedade mas devem ser tratados como tal, com as pessoas que usam algum podendo impedir outras de usarem. 

Bento: Entendi. 

Stuart: Estava pensando nisso e me veio na cabeça: eu não devia receber algum tipo de compensação por alguém se apropriar de um recurso natural? Afinal, é um roubo contra a comunidade!

Henrique: Isso! Já ia chegar nisso.

David: Por que ter acesso exclusivo a um recurso natural é um roubo?

Stuart: O valor de um local não é construído pelo dono, geralmente. Imagine que você tem um terreno com um valor tal e outras pessoas começam a construir shoppings, lojas, escolas, belos apartamentos etc bem próximos desse local. Sua propriedade não vai passar a valer muito mais?

David: Vai sim.

Stuart: E você ajudou a criar esse valor?

David: Entendo. Realmente, o dono se apropria de um valor criado pela comunidade.   

Stuart: Por isso me parece que é um roubo, tem que ter algum jeito de compensar por isso. 

Henrique: Bom, na verdade tem sim. Primeiro, temos que lembrar que é necessário que eu aja como o dono de recursos naturais porque se eu não tiver acesso exclusivo a eles então vou perder as melhoras que meu trabalho gera no recurso, como uma casa construída na terra. Então, nacionalizar tudo está fora de questão. A solução é então o individuo ter que pagar de volta à comunidade o valor que ela constrói via um imposto sobre o valor da terra.

Hans: Como assim?

Henrique: Pagar de imposto o equivalente ao valor da área possuída, mas desconsiderando a propriedade ou outras melhoras. Se você tem uma casa paga pelo terreno em que ela fica mas não por ela.  

David: Com os valores tão altos de hoje, talvez até desse pra financiar o Estado só com esse imposto.  

Henrique: Você chegou na minha ideia! É isso mesmo que eu quero: abolir todos os impostos, exceto o único. O Imposto Único ia tornar meio que inviável ter várias propriedades, dando um duro golpe naqueles que vivem de aluguel e em especuladores. Isso ia garantir que a distribuição de habitações fosse mais equilibrada, dando a muitos a chance de ter seu próprio terreno e se libertar do jugo do aluguel.

David: É uma ideia e tanto! Além desse efeito, cortar os outros impostos seria muito bom, já que ia permitir um aumento da produção e da geração de emprego. Vou procurar algum defeito, já que é bom demais pra ser verdade.  

Stuart: Tanto o corte dos impostos sobre geração de renda quanto a maior oferta de terrenos acessíveis iam garantir esse efeito. Tenho que procurar defeitos também, já que isso pode resolver a desigualdade e o desemprego juntos!

Henrique: Acho que não tem defeito, não. Mas já que estamos falando disso, alguém tem alguma objeção à essas minhas ideias?   

Pedro: Apesar de provavelmente contribuir muito pra diminuir o monopólio da terra e a desigualdade, são bem estranhas. Esse imposto não poderia fazer as pessoas comprarem pouco terreno e usarem ele ao máximo? Por exemplo, construírem, ao invés de casas, prédios lotado de andares ou gastarem todos os recursos naturais de uma área rapidamente.

Henrique: Bom, realmente ia ter esse efeito. Sobre as casas, seria melhor, já que com um uso menos ineficiente da área as cidades seriam menores. Teríamos menos gasto com logística, menos necessidade de usar carros e com isso menor transito e poluição. 

Pedro: É verdade, isso seria bom. Mas e quanto ao gasto dos recursos naturais? Com esse imposto, seria bom maximizar o valor tirado da área área que você controla.

David: Além disso, reduzindo os recursos você ia ter uma diminuição do valor da área, o que diminuiria o imposto pago. Isso ia incentivar mais exploração.

Stuart: Mas então o Estado teria interesse em melhorar as regiões e impedir a depredação e poluição, não? Já que ai o valor das áreas aumentaria e também o imposto.

Pedro: Não pensei nisso, realmente ia causar algo assim.  

David: É verdade, seria um efeito interessante.

Henrique: Exato! O Estado teria interesse em garantir que as coisas melhorem, o que seria bom em todos os sentidos.  Provavelmente multas e regulamentações anti-poluição teriam mais importância, eu mesmo apoiaria.

Pedro: Entendo, então esse imposto não sofre realmente com a minha objeção.  Alguém tem a próxima?  

 Bento: O que, por exemplo, impediria o dono de um apartamento de aumentar o preço do aluguel ao começar a ter que pagar esse imposto?

 Henrique: Por que ele não aumentou o preço antes do imposto?

 Bento: Se ele tivesse aumentado antes, o seu inquilino poderia não ter como pagar ou não querer pagar e ir para um lugar mais barato.      

 Henrique: Então antes do imposto ele já está cobrando o máximo que pode sem perder o inquilino?

Bento: Exatamente.

Stuart: Então ele não pode aumentar mais! O preço do aluguel é definido pela oferta e demanda e o imposto não vai diminuir a oferta de apartamentos na área nem aumentar a demanda, logo, não tem como aumentar o aluguel assim. 

 Henrique: Isso. Na verdade, a tendência seria o preço médio do aluguel cair com o Imposto Único. Isso porque com algumas pessoas desistindo de viver de aluguel e vendendo suas propriedades teria mais lugares pra comprar e, com esse aumento da oferta, preços menores, tornando mais fácil para o inquilino sair do apartamento e arranjar outro lugar. Além disso, como melhorias no local não seriam mais taxadas, você teria apartamentos com mais vagas, de novo facilitando a vida do inquilino.  

Bento: Entendi, faz sentido. 

Henrique: Ótimo. Falta algum problema com a ideia?

Hans: Se o imposto só considera a área em si e não o construido nela, então tem que haver uma separação entre o preço das duas coisas. Como fazer pra separar os dois? Mandar um bando de burocratas separar seria bem ruim. 

Bento: Mas já não se faz isso? Basta olhar transações com propriedades semelhantes. O mercado imobiliario já faz o trabalho.

Hans: Certo. Mas forçar toda a terra a ser usada assim não ia desperdiçar recursos por fazer trabalho e capital serem gastos com as áreas menos capazes de gerar valor?

Henrique: Não, acho que o contrário ia acontecer. Isso porque as áreas que mais são capazes de gerar valor, por serem mais caras, iam ter que pagar mais imposto, então seriam largadas primeiro, liberando áreas melhores para o uso produtivo.

Pedro: Fora que essas áreas mais caras tem mais usos não-produtivos como especulação e rentismo, então liberar elas realmente ia dar ao trabalho lugares mais eficientes para usar. 

Hans: Entendi. Não sei do que reclamar agora, é uma boa ideia.

Pedro: Verdade. Alguém tem alguma objeção ainda? 

Henrique: Parece que não. 

Stuart: Então teminou, já discutimos as sugestões para tornar esse país bom.

David: Exato. Vou precisar pensar bastante, tem muitas ideias interessantes. 

Bento: Eu também. Isso levanta a questão: como aplicar essas ideias?

Pedro: Acredito que devemos defender as ideias com bons argumentos de forma a começar a conscientizar o povo até termos condição de produzir alguma militância politica e assim mudar essa sociedade via voto.

Henrique: Concordo.

Bento: Tem chance disso funcionar?

David: Do voto mudar o país pra melhor? Não. E uma ditadura seria ainda pior, como vimos antes.

Stuart: Infelizmente, é verdade.

Henrique: É... concordo.

Hans: Concerteza.

Pedro: Bom, a história... é imprevisível, sabe.

Bento: Complicado...

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