sábado, 23 de novembro de 2019

David

David: Eu diria que algo como ética não passa de sentimentos que parecem reais, Toledo. Não existe nada como certo ou errado no mundo, então é melhor manter esse papo longe da política.

Aris: O niilista conservador sempre me confunde. Se você não acha que existe um jeito certo de agir, ter padrões é bem estranho.

David: Todos querem viver numa sociedade que funciona.

Isaque: Não fica claro que forma funciona se não tem uma correta.

David: O tempo nos diz. Basta você observar o que dá certo com o tempo.

Aris: Entendo. Mas me parece claro que o mundo realmente é capaz de nos mostrar o que é certo com sua ordem.

David: Como assim? Ser bom envolve cumprir certo padrão. Você acha que o mundo nos mostra algum tipo de padrão? 

Aris: Ser bom consiste mesmo em cumprir padrões. Para se ter ética, precisamos então de algo como a essência do homem e o objetivo especifico do homem.

David: Isso soa estranho.

Isaque: Nem tanto: essência seria a natureza do homem que o define e o separa dos outros seres, como as características específicas dos relógios. O objetivo seria a finalidade das nossas capacidades, como a do relógio de dizer as horas.

Aris: Isso mesmo. Um bom relógio  diz as horas e um mal não. Da mesma forma, existe um jeito certo do homem agir. 

David: Eu entendi antes. Isso é muito estranho, pois os padrões devem ser impostos por alguém mas não tem nada assim no mundo.

Isaque: Eles devem ser impostos mesmo, mas eu discordo que não existam.

Aris: Não importa se o padrão existe por si só ou se foi criado por alguém. O importante é que ele existe, e que isso claramente se manifesta pela ordem que existe no mundo. 

Isaque: Realmente. Mas acho que essa ordem sugere Alguém além do mundo que dita as regras.

David: E como esse Alguém dita as regras?

Isaque: Acho que a ordem vem de leis que o universo segue, como um tipo de programação. Cada lei científica seria uma lei da natureza. 

David: Como as leis ordenam o mundo? Leis desse tipo são descritivas, só dizendo o que acontece mas sem explicar o motivo ou ser o motivo.  Elas não tem poder de fazer algo.

Aris: Isso é verdade. Algo como uma lei da física é só uma descrição da realidade. Precisamos de algo mais pra explicar o motivo das  coisas ocorrerem como ocorrem.

Isaque: A ordem só pode vir do próprio Deus, pois uma ordem só pode ser dada por alguém e só Ele teria como ordenar o mundo. Sabemos então que Ele é.

David: Então como isso tem relação com a ética?

Isaque: Todas as coisas não foram criadas por Deus? 

David: É o que você supõe. Digamos que sim.

Isaque: Nesse caso não seria tudo propriedade divina?

David: Sim, seria.

Isaque: Achamos então a base para a ética, pois isso revela que se você se ferir ou ferir outro está ferindo a propriedade divina. 

David: Tenho ainda um monte de dúvidas sobre isso, mas primeiro você poderia me dizer como Deus mantem a ordem do mundo físico? De que forma você acha que isso ocorreria?

Isaque: Acho que Ele teria que direcionar a matéria e a energia a cada momento. Não vejo outro motivo para essa ordem, já que Ele é a base das leis naturais.

David: Então a ordem é falsa? Se Ele precisa sempre estar direcionando um universo sem ordem, então o fósforo não gera fogo, mas Deus gera. Existem efeitos mas nada que os causa além de Deus.

Aris: É verdade. Se as coisas forem assim, então a ordem não existe e Deus faz tudo, inclusive o trabalho do nosso cérebro...

Isaque: Acho que me expressei mal. As coisas causam umas as outras sim, elas só precisam que Ele mantenha tudo funcionando.

David: Foi bom ter saído dos contos de fada, mas não sei pra que Deus é necessário se uma coisa tem a capacidade de causar outra, se bem que isso seria outro assunto, deixemos pra lá.

Isaque: Isso. Não falemos Dele então. Devemos procurar outra base pra ordem.

David: Mas que ordem? Nós vemos as coisas aconteceram sempre da mesma forma, mas quem garante que as coisas sempre serão como foram antes? Um animal acha que sempre que ouvir o barulho do potinho de comida vai se alimentar, mas isso não é algo necessário.

Isaque: Elas sempre fazem a mesma coisa, ué. 

David: Exatamente, você espera que elas façam necessariamente a mesma coisa por já terem feito, mas o que te garante que existe uma necessidade ai?

Isaque: O fato delas fazerem sempre a mesma coisa? Os homens sempre foram capazes de prever o que ia acontecer razoavelmente bem, seja o comportamento de uma armadilha, o movimento das estrelas e planetas,  o que vai acontecer no teste de uma teoria cientifica, ou se o café vai estar quente depois do fogo. Literalmente tudo que vemos prova que você está errado.

David: E que diferença esses casos fazem? Seu argumento pra provar que podemos ver regras gerais através de alguns casos antigos...    Usa alguns casos antigos pra estabelecer uma regra geral.

Aris: Isso é verdade, é um argumento que só funciona se você aceita a conclusão. Mas não estou convencido de que não existe ordem. David, pode explicar isso melhor?

David: Acho que ideias como ordem são só ideias, não temos base pra falar de algo assim.

Isaque: Interessante. O que te leva a pensar assim?

David: Eu lhes digo que o conhecimento vem dos sentidos, algo que sei que vocês concordam. Eles devem se dividir em dois: conhecimento conceitual e conhecimento experimental.

Aris: Isso me parece pouco. Como seria cada um?

David: O conhecimento conceitual vem da razão ao entender os conceitos ou definições das coisas. Entendendo a definição  de  "careca" como alguém sem cabelo, sei que é verdade que carecas não tem cabelo. Essas verdades conceituais são verdade pela lógica, não tendo muito a ver com o mundo.

Aris: Certo.

David: O experimental vem de experiências , sejam científicas ou do dia a dia, seria sensações e a memória delas. Elas nos conectam ao mundo real, como ao nos ajudar a saber que existem carecas, algo que o conceito não te diz mas as sensações sim. 

Aris: Sim, esses conhecimentos existem, embora venham ambos da experiência que temos com o mundo. Acho pouco ainda, muito pouco, mas continue.

David: Exatamente. A questão é que tudo que conhecemos do mundo seriam então sensações e memória. Mesmo os conceitos não passam de memórias com definições.

Aris: Como assim? Você acha que conceitos são algum tipo de imagem mental?

David: O que mais seriam? Você  conhece vários cavalos e a memória  de todos eles lhe permite gerar o conceito ou imagem mental de cavalo. Juntando com o conhecimento de chifres, você  acaba gerando um unicórnio só combinando ideias ou sensações antigas.

Aris: Bizarro. 

Isaque: Faz sentido. E o que isso tem a ver com ordem?

David: Bom, nossos conhecimentos se resumem então em memórias, imaginação, conceitos  e sensações. Se é um conceito, não  necessariamente tem relação com a realidade, pois são só  definições criadas por nós.

Isaque: E sensações não podem nos mostrar se algo como uma regra geral existe, pois só  vemos casos individuais? Seu argumento é que só experiências podem falar do mundo real e não experimentamos ordem diretamente?

David: Isso. Pensem em algo como uma lei da física. Essa lei é  algum tipo de conceito ou definição abstrata? É algo que é verdade por pura necessidade lógica?

Aris:  Não, já que tenta falar da realidade e pode ser falsa sem contradizer a lógica.

David: É  então algo que vem da experiência? Você vê, ouve, cheira, prova ou sente essa lei?

Isaque: Não, pois só temos experiência de acontecimentos, e não de alguma necessidade além deles. Nem sei como ia dar pra sentir ordem diretamente, hehe.

David: Pronto! A ideia de leis da natureza é  simplesmente uma coisa da nossa cabeça, pois vemos muitos casos parecidos e pensamos que sempre vai ser assim. Mas ninguém pode experimentar algo como ordem no mundo, é  uma ideia que criamos quando fazemos a interpretação das nossas sensações.

Isaque: Não acho forma de provar que leis da natureza fazem parte de definições ou se são algo que podemos sentir como parte de nossas experiências, mas ainda acho que seu argumento falha.

David: Como? Essas "leis" não vem de conceitos nem de sensações. 

Isaque: Bom, o seu argumento é  só algum conceito?

David: Não. 

Aris: Não é dado pela experiência  também. Então, ele se refuta.

Isaque: Era isso que eu ia dizer! Esse argumento não se sustenta. Se ele está certo, está errado.

David: Talvez tenha essa falha, mas não vejo forma de se ter conhecimento sobre o mundo real sem ser dado pelas sensações e elas não nos dizem muita coisa. Nosso conhecimento é muito limitado pra dizer que existe ordem.

Aris: Você errou por achar que conceitos são  como imagens mentais. O conhecimento do mundo vem da experiência, mas ele é mais que sensações antigas, então podemos conhecer mais do que os sentidos nos mostram diretamente.

David: Qual a diferença entre conceitos e imagens mentais então? 

Aris: Vamos voltar pro cavalo: Ao você pensar no cavalo deve ter em você, além do conceito, algum tipo de sensação sobre o bicho. Talvez a imagem de um cavalo, talvez você ouviu ou viu a palavra, sei lá.

David: Sim. O conceito e a imagem são a mesma coisa, como provado por estarem tão associados.

Aris: Mas essa imagem sua não precisa ser de um cavalo negro, marrom, branco, ou outra cor?

David: Me veio na cabeça um cavalo mais marrom mesmo.

Isaque: Eu vi um de duas cores. Ouvi a palavra na cabeça também.

Aris: Então vocês tem na cabeça a imagem do cavalo de certa cor cada um. Mas o conceito de vocês só valem pros cavalos dessas cores?

Isaque: Não né, vale pra todo cavalo. O conceito de cavalo branco, por exemplo, seria meio que um subconceito, acho. Mas o de cavalo em geral vale pra todos.

Aris: Então o conceito vale pra todos os cavalos mas a imagem mental não. Isso significa que o conceito é universal e a imagem particular.

Isaque: Isso se nota mesmo.

Aris: Além disso, Isaque, você disse que ouviu tipo uma palavra ao pensar no cavalo? Isso acontece comigo também.

Isaque: Isso. Me veio o som na cabeça.

Aris: Mas a palavra "cavalo" necessariamente fala do animal ou poderia falar de outra coisa?

Isaque: Poderia, pois é só uma regra do português que esse som ou certos símbolos escritos falam do animal.

Aris: Mas o conceito que você tem de cavalos poderia ser de outra coisa ou seria um conceito diferente?

Isaque: Só pode ser sobre cavalos. A palavra pode mudar o significado e continuar a mesma, mas o conceito não.  Se você tentar mudar o significado do conceito, simplesmente vai mudar de conceito.

Aris:  Quanto a imagem na sua cabeça do cavalo de duas cores, ela também poderia significar outra coisa?

Isaque: Claro. Ela poderia ser de um cavalo do passado, de um cavalo  que eu queria ter, de um que me assusta ou coisa assim ou até de algo que só parece um cavalo. A mesma imagem pode ser interpretada de várias formas, mesmo sendo mental.

Aris: Podemos então dizer que as imagens mentais tem significado ambíguo e os conceitos um significado determinado?

Isaque: Parece que sim.

Aris: Vamos testar então outra palavra: lei. Pensem nela e me digam o que veio na cabeça. 

Isaque: Aquela estátua da cega com a balança. Cega a lei tá mesmo hoje, hehe.

Aris: Haha.

David: Verdade, he. Eu vi um juiz julgando.  

Aris: Mas essas imagens mentais falam diretamente da lei ou são só de coisas associada com a lei?

David: São de coisas associadas com a lei. Acho que não tem forma de representar lei diretamente, é muito abstrato.

Aris: Isso é verdade. Mas vocês entendem o que é lei?

Isaque: Claro.

David: Sim, ué.

Aris: Então o conceito de lei existe sem uma imagem mental que o represente perfeitamente?

David: Sim.

Aris: Existe então conceitos sem uma imagem mental certa?

Isaque: Existe. 

Aris: Então vamos recaptular: imagens mentais são particulares e ambiguas enquanto conceitos são universais e determinados? Além disso, conceitos podem existir sem imagens certas?

David: Isso mesmo. Imagens e conceitos são diferentes então. Faz sentido, já que nenhuma imagem ou qualquer outra sensação pode ter as características do conceito. Errei então.

Aris: Pois é. Apesar de dependerem das imagens, os conceitos são diferentes. Acho, David, que você confundiu os dois pela proximidade que eles tem.

Isaque: Faz sentido mesmo. Isso significa que temos mais que sensações isoladas na cabeça.

David: Isso. Mas como surge o conceito apartir dos sentidos?

Aris: Quando vemos cavalos notamos que eles tem características iguais, que são de todo cavalo. Acho que nossa razão passa a abstrair dos sentidos essas características universais dos cavalos e gera o conceito só com o que todo cavalo tem, um cavalo universal.

Isaque: Nesse caso, temos um novo tipo de conhecimento que sugiro que chamemos de  conhecimento essencial, por vir das essências das coisas. Ele combina parte do conceitual e do experimental.

Aris: Isso. Como o experimental, vem da experiência e fala do mundo real. Como o conceitual, é necessário, como o conhecimento de que a molécula de água é formadada por um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio. O ceticismo do David quanto o nosso conhecimento da realidade não se sustenta.

  David: Concordo. Mesmo que o conceito dependa da imagem como o significado de algo escrito dependa das letras, que também são coisas  claramente diferentes, como vimos com a palavra "cavalo".

Aris: Entendeu mesmo! Essa é a única explicação para a ordem, e ainda nos diz a direção que devemos ir para achar a ética. 

Isaque: Isso! Cada essência tem características necessárias, de forma que cada coisa tem ordem.

David: Mas eu consigo imaginar um olho, por exemplo, que serve para respirar ou atirar raios. Como isso é possível se essa essência existe?

Aris:  Ai você está caindo de novo no erro de confundir uma imagem mental com o essencial da coisa que tenta entender. Se você entende a essência de um olho, conhece as características dele e sabe que ele não pode fazer essas coisas.

Isaque: Isso. A imaginação não nos permite fazer mais do que simular a aparência de algo.

 David: Mas como isso gera ética? Você fala de como as coisas são e quer ir pra dizer como elas devem ser? Ai não vejo como, pois parecem coisas bem diferentes.

Aris: Qual a essência de um quadrado?

David: Acho que uma figura com quatro lados iguais e paralelos. 

Aris: Entre um quadrado desenhado todo torto e um desenhado igual esse aqui na folha, qual está mais próximo dessa essência?

David: Nenhum chega a ser perfeito, mas é certeza que esse da folha está mais perto da essência que um quadrado torto.

Aris: Podemos então dizer que esse desenho representa sua essência de quadrado melhor?

David: Podemos então. Ele é um quadrado bom, acho.

Aris: Voltando pro olho então. Um olho que enxerga não representa sua essência melhor que um cego?

David: É claro.

Isaque: Então enxergar seria o objetivo específico do olho?  Pois a essência dele parece ser direcionada a enxergar, de modo que ela é realizada se puder enxergar.

Aris: Isso mesmo! Além de ter uma essência, cada coisa tem um objetivo intrinsico que realiza se nada a atrapalhar. Sem esse objetivo interno, as coisas não teriam direção.

David: Podemos dizer o mesmo dos seres vivos então.  Embora certamente tenhamos muito mais objetivos específicos.

Isaque: Isso. Uma planta saudável, por exemplo, busca fincar as suas raízes na terra e pegar um pouco de luz do sol.  Ela só deixa de fazer isso se tiver algum defeito. 

David: É essa então a forma de de achar o bom jeito de viver: descobrindo os nossos objetivos específicos.

Aris: Exatamente. A felicidade não é um sentimento apenas, mas uma vida correta com um cárater virtuoso. Somente assim podemos florescer como pessoas e ser realmente felizes.

Isaque: Isso é algo revelado claramente mesmo. A felicidade não é possível se você está levando uma vida que não é saudável.

David: Acho que sou um pouco mais hedonista, mas  essa discussão parece ser bem mais importante que política ou epistemologia! Não tem nada mais útil do que aprender a viver bem.

Aris: Isso mesmo. Não acho outra forma de aprender a viver direito do que olhar bem nossa natureza.

David: Temos então um padrão de bom e ruim ou defeituoso com base nas essências ou naturezas das coisas. Mas de que forma isso atinge um nível moral?

Aris: Nos não podemos compreender o que é bom para nós e escolher agir de forma a realizar nossa natureza de forma que nenhum outro ser pode? Eu diria que é auto-evidente que escolhemos o que pensamos ser melhor. A conduta ética é o objetivo da razão prática.

Isaque: Nem sempre, pois é comum fazer algo que se sabe que é errado.

Aris: Digo melhor num sentido mais interesseiro e não necessariamente moral. Um pedófilo sabe que que o que faz é errado, mas ainda acha que não resistir a tentação é melhor de certa forma.

Isaque: Isso sim. Sempre buscamos o melhor para nós e florescer como humanos é melhor para nós, então é irracional não cumprir nossa natureza.

David: Entendi. Realmente podemos escolher florescer como humanos e sempre escolhemos o que pensamos ser melhor. Alguém que escolhe realizar sua natureza é bom e alguém que não escolhe é ruim então. Nossa liberdade é essencialmente uma obrigação natural haha.

Aris: Exatamente. O animal livre é o único com obrigações, hehe.

David: Então temos a obrigação de garantir a nossa saúde física e mental, mas isso parece pouco. Que tipos de obrigações teríamos com nós mesmos?

Isaque: Devemos olhar para nossa natureza. O homem é um ser bem diversificado, então certamente vamos ter várias obrigações.

Aris: Pra começar, devemos observar que temos um pouco em comum com plantas, pois também nós nos nutrimos, crescemos e nos reproduzimos, embora não aconteça em nós como nelas.

Isaque: Isso. Nossos corpos tem sistemas específicos para essas operações e esses sistemas tem objetivos específicos, que apontam para essas operações, exigindo que usemos esses sistemas direito.

Aris: Isso. Nossa natureza revela então desordem em coisas como beber venenos ou estuprar tortas. Esses atos são irracionais, envolvendo usar nossos sistemas de forma contrária a seus objetivos específicos de nutrição e reprodução, respectivamente, então são errados por si só.

David: Mas então algo como cortar o cabelo é errado? Pois seria contra nossa capacidade de crescimento.

Aris: Não acho que seja a mesma coisa, já que o que o corpo faz é produzir cabelo todo o tempo de forma que não possa ser controlado, diferente desses atos que falamos que tem um momento específico que ocorre e podemos controlar. A função específica é produzir cabelo, algo que não é afetado pelo corte. Não sei como produzir o cabelo sem cumprir a função de gerar cabelo, hahaha.

Isaque: Mas somos obrigados a ter filhos? Já que isso realiza nossa natureza.

Aris: O erro estaria em usar as funções reprodutivas de forma que frustre o objetivo dela, algo que não dá pra fazer se não usar. Tem que lembrar que as partes só existem por causa do todo, então você não precisa usar elas se o todo, ou você, vai sofrer.

David: Sim, algo como remover uma parte com câncer entra nisso de sacrificar uma parte pelo todo, suponho.

Aris: Isso.  Além dessas funções, temos o que dividimos com os animais, a sensação e a locomoção. Algumas plantas se mexem, mas não exatamente como nós, hehe.

Isaque: Seria bizarro, hahah.

David: Então algo como remover um dos seus sentidos permanentemente seria desordenado também, acho.

Aris: Seria mesmo. Mas algo como colocar um protetor de ouvido pra dormir seria válido por, como no caso de não ter filhos, se deixar de usar para conseguir o bom da pessoa toda.

David: Mas isso não termina a natureza humana, falta a nossa função que nos separa dos outros seres e que envolve as drogas, o assunto de antes.

Aris: Tinha esquecido desse tema, haha. Sim, o homem é o animal racional, dotado do pensamento racional que nos permite conhecer e alterar o mundo de forma superior aos outros seres.

David: Suponho então que defenda que a razão tem o objetivo de achar a verdade e que utilizar ela de forma destroçada como no caso de drogas seria errado intrinsicamente. 

Aris: Isso, embora algo como dormir seja válido por, além de ser útil para a pessoa inteira, nos impedir de usar a razão, então não poder ser um uso errado. O uso errado da função que é o erro, então não usar não tem problema se preciso.

Isaque: Então você concorda com o David que o Estado deve poder mexer nisso?

Aris: Pessoalmente sim, mas acho que ainda falta refletir sobre a liberdade e o Estado primeiro pra entender direito isso.

Isaque: Falando de direitos então. Já estabelecemos que temos deveres quanto a cuidar de nós, suponho então que tenhamos com os outros. Como você justificaria direitos naturais?

Aris:  Acho que devemos começar do inicio: não nascemos através de outros e não somos criados por outros?

David: Sim. O ser humano depende de outros todos os momentos da vida, revelando sua natureza social. Individualistas como o Isaque estão meio doidos, hehe.

Isaque: Injusto já que não é o tema, seu babaca, haha. Já estabelecemos que ter filhos é algo que nossa natureza almeja, como isso ajuda na questão dos direitos?

Aris: Os pais não tem um interesse natural em passar seus genes adiante?

Isaque: Sim, é o objetivo principal do sexo reproduzir afinal. Isso revela que os pais devem cuidar dos filhos, certo?

David: Isso é claríssimo. Só um louco negaria que um pai, por exemplo, tem algum problema se não quer criar sua criança. Qualquer estudo animal ou sobre nós revela essa verdade tão obvia.

Aris: Nesse caso, é claro que os pais tem a obrigação de criar seus filhos. Os pequenos precisam ser cuidados e educados para poderem se desenvolver. Cuidar de alguém incapaz de decidir as coisas exige autoridade, de forma que os filhos ainda não independentes tem a obrigação de obedecer as ordens de seus pais que não lhes obrigue a fazer nada intrinsicamente errado.

David: Sim. Essas verdades também só são negadas por loucos.

Aris: Mas se A tem a obrigação de dar algo a B, então B tem um direito sobre A. Segue então que os filhos tem o direito de serem criados pelos pais e os pais tem o direito de serem obedecidos pelos filhos.

Isaque: Isso faz sentido. Nesse caso os direitos surgem de deveres, interessante. Somos animais sociais e, além das relações familiares, as relações em geral como de amizade e de trabalho surgem também naturalmente pela dependência que temos dos outros materialmente e emocionalmente. Temos direitos com quem está fora da família também então?

Aris: Temos. Lembra que somos obrigados naturalmente a cuidar de nós mesmos?

Isaque: Sim. Temos a obrigação de cuidar de nós mesmos e de florescer como humanos, significando que temos o direito de agir de forma correta, certo?

David: Como temos esse direito, então temos o direito de receber ajuda? Pois se tenho o direito de me alimentar corretamente e só posso conseguir isso se alguém com comida me ajudar, então tenho o direito de receber ajuda.

Aris: Vocês entenderam! Como tenho a obrigação de fazer o que é certo, tenho um direito de uma boa liberdade e também o direito de ser ajudado a fazer o que é certo se precisar. É muito claro que ajudar o outro a fazer o que é certo é algo bom.

Isaque: Além do direito a liberdade de realizar minhas funções naturais e florescer como humano, acho óbvio que temos o direito a vida, pois ela é necessária para qualquer ação. Segue então que assim como ninguém pode tirar minha vida injustamente, devo receber ajuda para continuar vivo se for necessário.

Aris: Exatamente. O direito a vida é a base para todos os outros, ao contrário das ideias de uns.

Isaque: Mas se o direito a vida vem da obrigação de cuidar da vida e só seres racionais tem obrigações, então bebês não tem direito a vida?

David: Todos os direitos vem de obrigações, então parece que essa conclusão faz sentido. Essa conclusão monstruosa tem que estar errada...

Aris: Quando eu digo que gatos tem quatro patas eu falo de quem?

David: Não fala de um gato só, obviamente.

Isaque: Nem de todos, pois alguns não tem. Isso é relacionado com o assunto?

Aris:  Sim. Não falo nessa frase então algo como: "É natural para um gato ter quatro patas"? Isso não é verdade mesmo que alguns não tenham?

Isaque: Afirmativo.

Aris: E não vimos que é natural para o ser humano ser racional e ter obrigações e diretos? 

David: Entendi.  Assim como ter quatro patas faz parte da essência do gato mesmo deficiente, ter a racionalidade e as obrigações faz parte da do bebê, embora ele não possa usar a primeira nem cumprir a segunda.

Aris: Isso ai. Mesmo que o bebê não possa ser mal por não cumprir suas obrigações, elas estão nele essencialmente, lhe garantindo o direito. Segue então que todo ser humano tem direito a vida, independente de poder ou não usar sua racionalidade natural.

Isaque: Mas eu suponho que haja exceções nos direitos. Como no da liberdade, que é importante para o tema de antes.

David: Se a nossa liberdade se resume ao direito de fazer o que é certo então não somos livres para fazer o que é errado, como tirar nossas vidas ou usar drogas.

Aris: Exatamente isso.

Isaque: Então o governo é obrigado a nos impedir de fazer o que é errado? Isso assusta...

David: Outra conclusão ruim. 

Aiis: Devemos então ver o que é o objetivo do Estado pra ver se ele precisa proibir tudo que não temos direito de fazer. O que nos motiva a ter um líder?

David: No geral é a crença de que isso nos dará uma vida melhor. O homem nasce e morre sob hierarquias, o natural então é o melhor liderar.

Aris: Sim. Então nós naturalmente formamos ordem para dar o melhor para o grupo.

David: Sim. Diferente do que alguns palhaços dizem, o Estado sempre se forma. Mesmo numa tribo ou uma roda de amigos existe uma ordem informal que estabelece como agir. Isso sempre é para garantir o bem do grupo.

Isaque: Você sempre esquece do indivíduo...

Aris: O justo meio entre vocês é a família como base da sociedade, mas fica pra outra hora. Podemos dizer então que o objetivo do Estado é garantir o bem comum?

Isaque: Podemos. Isso significa que ele só deve proibir o que afeta o bem comum?

Aris: Isso mesmo. Não se é possível obrigar alguém a ser virtuoso, só obrigar a agir corretamente e olhe lá. Além disso, fazer todo mundo agir bem é muito imprático, então o governante deve tolerar certos comportamentos se for o melhor para o bem comum.

David: Exatamente isso! Iluminados pensam que podem melhorar tudo com base em teorias, mas a sociedade é complexa demais para isso. Meras ideias não podem nos dizer como agir na política.

Aris: Isso mesmo. As coisas são complicadas, então as vezes um mal tem que ser tolerado para garantir o bem coletivo.

Isaque: Isso significa que você estaria aberto para a legalização de drogas?

Aris: Não por um apelo a uma suposta liberdade para se reduzir a um macaco por diversão, mas talvez sim de uma forma mais utilitária.

Isaque: Entendi. Vamos ver então se isso seria melhor pro coletivo?

Aris: Claro.

David: Finalmente um debate prático por aqui...

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Rute

Marco: Mas eu não acho que a teoria da evolução seja realmente comprovada, é só uma teoria, afinal.

Rute: Acho que você está pensando em hipótese, que não tem provas e só vira teoria científica se for testada. A teoria da evolução parece ser a melhor teoria cientifica que tem, então eu aceito. Acham que um velho do nada inventou que o homem veio do macaco, mas é mais que isso.

Marco:  Eu sei daquilo de nós e macacos só termos os mesmos ancestrais, dei uma olhada boa nessa ideia. Mas ela vai contra a Bíblia, então só pode estar errada.

Rute: De que forma ela vai contra a Palavra? Ciência não é o tema dos livros.

Marco: Ela estabelece que a morte ocorria entre os animais muito antes dos homens comerem do fruto. Como diz o apóstolo: "Da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio aos homens por todos pecarem".

Rute: Não consigo lembrar de nada em Genesis que indique que os animais não morriam antes da Queda. Na verdade, não lembro de nenhuma indicação de que a natureza deles mudou.

Marco: Ora, mas se a morte entrou no mundo com o pecado, como ela pode ter existido antes da Queda? 

Rute: Simples: lembra que Adão e Eva são avisados que morreriam "no mesmo dia" que comessem do fruto? 

Marco: Sim, lembro.

Rute: Eles obviamente não morreram no mesmo dia que comeram, então ou Deus mentiu ou era um outro tipo de morte, uma morte espiritual. Não foi no dia da Queda que o homem se separou do Senhor?

Marco: Sim, foi nesse dia. Mas também foi quando Adão e Eva deixaram de ser imortais.

Rute: Mas eles deixarem de ser imortais não é o bastante, já que eles teriam que morrer nesse dia. O único jeito dessa dificuldade sair é se o tipo de morte for a espiritual. As mortes entre os animais não envolvem pecado, então não teve motivo pra se mencionar isso nos textos.

Marco: Mesmo assim, Os dois passaram a poder morrer nesse dia, então eles não poderiam ter uma natureza mortal antes da Queda.

Rute: Ai você está lendo o texto de forma muito literal. Mesmo homens sem conhecimento da ciência moderna como Agostinho de Hipona sabiam que não é necessário interpretar o texto como dizendo que a imortalidade deles era natural.

Marco: Você prefere seguir a opnião de um católico do que seguir o que está escrito na Palavra?

Rute: Não. Só estou dizendo que não se precisa ler o texto dessa forma. Afinal, Jesus não tinha qualquer pecado e mesmo assim podia morrer, então a mortalidade não pode ser efeito da Queda.

Marco: Isso ê um ponto meio difícil mesmo. Mas ainda não vejo forma de evitar o texto de Genesis. Moises foi claro nesse caso. 

Rute: Acho que Moises não estava escrevendo como um historiador moderno, isso nem existia no tempo dele.

Marco: E que linguagem ele estava usando?

Rute: A de mito. Já acharam paralelos entre o que está nos primeiros capítulos de Genesis e os mitos babilônicos. Moises deve ter usado eles para ensinar aos judeus várias lições enquanto deixava claro que essa parte do livro não é literal, embora com base na realidade. 

Marco: Então ele escreveu mentiras? Jesus e os apóstolos citavam os acontecimentos de Genesis inúmeras vezes os tratando como reais.

Rute: Você está vendo  isso com uma visão muito moderna. Duvido muito que eles viam isso como história literal, já que esse género nem existia na época de Moises. Basta ver que esse literalismo não era tão presente antes da Modernidade. 

Marco: Então não seria mentira, é isso que você defende?

Rute: Isso! A mentira precisa da intenção de enganar. No caso, o mito não tenta ser histórico, por isso o Moises não ligou de usar mitos pagãos.

Marco: Acho que estou entendendo você. Sei que os mitos e o discurso racional eram vistos como verdade de seu próprio modo. Um entendia a realidade perfeitamente e o outro a adaptava para criar histórias com significados que ajudavam quem ouvia a entender a si mesmo e as coisas da vida.

Rute: Por ai. Certamente tem uma base histórica em Adão em Eva, mas acho que o foco seriam as mensagens por trás que vemos nas pregações. É isso que ajuda na salvação, não história.

Marco: Acho que isso tá bem diferente da nossa visão mais cientifica de hoje

Rute: Nem tanto, o filme dos espartanos, por exemplo, tá cheio de coisas que não aconteceram na vida real, mas ninguém diz que o diretor era burro por isso, haha.

Marco: Pois é, embora muita gente deve pensar que foi tudo daquele jeito lá.

Rute: Certeza.

Marco: Mas eu vejo um problema ai: a fé cristã não depende da crucificação e ressureição do Senhor Jesus? "Se Cristo não ressucitou, é inútil a nossa fé"

Rute: Isso é certeza. Graças a fé no nosso Salvador e seu sacrifício estamos justificados perante o Pai.

Marco: Mas alguém não poderia dizer o mesmo  em relação ao Evangelho? Dizer que tudo é uma metáfora?

Rute: Ai acho que não, seria errar o gênero literário. Biografias como as de hoje ainda não existiam mas os apóstolos claramente tratavam como um evento que eles viram.  

Marco: Sim, as biografias romanas eram mais focadas em mostrar o caráter da pessoa e os Evangelhos parecem ser inspirados nelas, mas ainda acho estranho você querer tirar algumas coisas da Bíblia da história. 

Rute: Bom, você acha que o Pai montou num querubim e voou pra salvar um dos salmistas? Acha que uma besta de 7 cabeças realmente vai aparecer?

Marco: Ahhh, sim. Assim como não levamos como literal os livros poéticos ou proféticos os outros também podem ter partes não literais?

Rute: Isso.

Marco: Mas e se falarem que os milagres são metáforas? Vários pensam assim.

Rute: Mas  não podem fazer isso com um milagre em especial: a ressureição do Senhor. Só precisamos desse.

Marco: Mas como provar ela se a Bíblia não é totalmente histórica? Podem chamar a evidência de metáfora. Já é comum fazerem isso com pontos difíceis como a ressureição de santos em Mateus.

Rute: É um ponto difícil mesmo.  Mas dá pra fazer uma separação entre o que é história e o que talvez não seja. Toda biografia antiga tinha várias coisas mais para mostrar o caráter, mas os historiadores conseguem separar os fatos e montar a história dos reis e famosos antigos.

Marco: Mas eu já vi historiadores dizerem que Ele nunca existiu. Eles podem simplesmente dizer que tudo é metáfora.

Rute: Isso era popular no Século XIX, mas ninguém leva isso a sério entre os especialistas internacionais hoje. Na verdade, Jesus é bem aceito como pregador e operador de milagres por eles, mesmo que esses milagres sejam vistos como farsa.

Marco: Mas eles podem dizer então que ele era só mais um judeu com boas palavras. É comum dizerem que a igreja inventou tudo com Constantino ou coisa assim.

Rute: Isso sempre é estranho, já que os Padres da Igreja já tinham uma teologia muito boa bem antes do romano nascer. Até mesmo nos livros do Novo Testamento dá pra ver as doutrinas sobrenaturais importantes.

Marco:  Isso é verdade, embora ler esses católicos seja perigoso. Mas ainda me pergunto como você faria pra estabelecer que o Senhor era mais que um pregador azarado se você não lê tudo na Bíblia como verdade.

Rute: Bom, a maioria dos historiadores gringos aceita que Ele pregava, que ele foi cruxificado, que sua tumba foi achada vazia por seguidoras, que os discípulos tiveram visões Dele e que os apóstolos começaram a acreditar na ressureição, mesmo que essa crença toda seja bizarra para um judeu.

Marco: Isso dos judeus é verdade mesmo, a ressureição judaica só ocorre no final dos tempos.

Rute: É, um judeu comum provavelmente acharia que Jesus foi levado aos céus como Enoque e Elias.  Eles começarem a pregar a ressureição é algo bem fora do Judaísmo.

Marco: Verdade, mas a ressureição só poderia ser aceita então se você acreditasse em Deus  e na existência da alma. Sem isso, essa opção nem pode ser considerada.  Como isso não pode ser provado, não tem como provar a ressureição.

Rute: Mas é claro que é possível! Não é dito por Paulo em Romanos 1 que o Pai é claramente visto se você olhar o mundo a nossa volta?

Marco: É verdade, mas "o tolo diz no seu coração: não há Deus". Então não se pode convencer quem recusa acreditar.

Rute: Mesmo assim, se isso tudo for ao menos provável, a ressureição pode ser estabelecida por um argumento abdutivo. Nenhum argumento bom contra Deus ou a alma existe, então o descrente não pode desconsiderar essa opção de cara.

Marco: Para eles, os argumentos são bons, hehe. Mas diz ai: você então não acredita nas narrativas do Antigo Testamento?  

Rute: Eu nem sei direito. Quando eu pego uma dificuldade dessas eu penso: "Isso quer dizer que Deus não existe ou que o Senhor não ressucitou?" E percebo que a fé resiste a essas dúvidas. Apesar de ser difícil as vezes, você sente que o Espirito está com você.

Marco: Isso é verdade. É complicado as vezes ter fé, mas o Santo Espirito nos segura na Verdade. E você sabe o que dizem? Se as coisas estão fáceis, só pode ser mal sinal.

Rute: Como assim?

Marco: Se não tem tentação é porque o Inimigo acha que você vai se destruir sozinha, haha.

Rute: Tomara que a tentação não acabe então, hehehe.

Marco: Hahaha. Tomara mesmo.






quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Godofredo

Ricardo:  Cientificamente falando, é quase certeza que o universo não é eterno. A teoria do Big Bang e a segunda lei da termodinâmica refutam essa ideia.

Chris: Isso. Eu tava assistindo um documentário sobre o assunto e defendiam essa ideia mesmo, de que o universo teve um início. 

Ricardo: São poucos hoje que defendem o contrário. A cosmologia atual sugere isso pra caramba.

Godofredo: O negócio é que a evidência cientifica é falseável, então talvez tudo isso possa estar errado.

Ricardo: É verdade, mas não tem motivo pra desconfiar das teorias hoje. Elas funcionam.

William: Além disso, a evidência cientifica não seria tudo pra defender esse ponto de vista. Acho que filosoficamente isso pode ser provado também.  

Chris: Geralmente  eu não ia ligar pra isso, mas fiquei interessada. Aquela conversa de vocês sobre filosofia foi legal.

Ricardo: Eu estava num dia ruim...

William: Claro, hehehe.

Godofredo: Um motivo que me veio na cabeça uma vez é esse: antes de hoje teve o ontem e antes do ontem teve outro dia. Se o universo não teve um começo, então antes de qualquer dia começar teria que ter um outro dia, eternamente.

William: Isso. Então nunca teria o hoje, já que o ontem apareceria antes e antes dele um dia teria que aparecer, sem parar. De forma que antes de hoje teria que se ter um número infinito de dias.  

Chris: Que doido, haha.

William: Outro problema é que o número de dias seria infinito, o que também não daria certo, já que o infinito mesmo não existe.

Ricardo: Mas o número de números não é infinito?

Godofredo: Potencialmente ele é. Mas o infinito mesmo gera contradições. Tipo, se você fizesse infinitas camas e chegasse um número infinito de pessoas pra dormir nelas, ainda sobraria espaço pro dobro de pessoas, já que as camas são infinitas. Isso seria bizonho, hahaha.

William: Você podia botar um número infinito de pessoas nas camas que o número de camas vazias ia continuar igual...

Chris: Isso seria estranho...

Ricardo: Seria impossível. Mas é legal ver então que um conhecimento confirma o outro.

Godofredo: Isso levanta uma questão: Por qual motivo existe algo e não o nada? Se o universo começou,  o que o fez nascer dessa forma e não de outra?

Ricardo: E pra que o universo precisaria de algo mais?

Godofredo:  Se o universo começou, então a existência dele não é necessária, já que ele podia ter começado em outra hora ou de outro jeito. O que não é necessário precisa de outra coisa pra começar a existir.

Chris: Então você acha que o universo precisa de uma explicação pro motivo dele existir do jeito que é?

Godofredo: Dele existir em geral. Como ele começou, tem que ter um motivo pra ele existir. O universo existir dessa forma também é estranho.

Chris: Então você acha que o universo não é necessário? Por isso ele precisa de uma causa?

Godofredo: Isso. O que podia existir de outro jeito ou não existir não é necessário. E só o que é necessário é explicado pela sua própria natureza. 

Ricardo: Como assim?

Godofredo: Bom, tudo que existe tem uma explicação, seja pela sua própria natureza ou por outra coisa. O universo é  do segundo tipo, então precisa de algo mais pra explicar como o universo existe dessa forma ou sequer existe.

Ricardo: Talvez essa configuração  do universo seja necessária. Não tem como saber.

Chris: Deve ser isso mesmo.

William: Mas o universo começou. Se essa configuração fosse necessária então ela devia existir sempre. 

Godofredo: Fora que o universo poderia ser diferente. Se ele tem essa forma e não outra, precisa de um motivo.

Ricardo:  E o que explica essa explicação? 

William: Ela precisa ser necessária, já que se não fosse então ela ia precisar de outra coisa pra existir. 

Chris: Algo necessário seria tipo dois mais dois é igual a quatro? Acho que isso se explica sozinho se você parar pra pensar.

William: Algo assim, acho. Não tem como essa conta ser diferente ou deixar de ser verdade, então é algo necessário.

Chris: Isso faz sentido...

Godofredo: Isso. Então  a causa do universo seria algo eterno e necessário. Teria que ser imaterial também, já que explica a matéria.

William: Teria que ser fora do tempo também, já que o tempo nasceu junto com o universo.

Chris: Teria que ser algo beeem forte também pra poder criar tudo.

Ricardo: Vai ver não tem explicação.  Talvez o universo exista sem motivo.

Godofredo: Mas tudo que não é  necessário precisa de uma explicação de fora. Não tem exceção. 

Ricardo: O fato das coisas do mundo terem uma explicação não  significa que ele tem. É  como dizer que o meu carro é  de borracha pois um pedaço  dele é. 

Godofredo: Mas um muro feito de tijolos azuis é  azul. Será que existência  é  como o exemplo do carro ou como esse do tijolo?

William: Bom, uma peça de lego é  necessária?

Chris: Não, né.

William: Eu ir juntando peças ia gerar algo necessário eventualmente?

Chris: Não. Ia continuar sem existir necessariamente.

William: Nesse caso, o universo também  não é necessário.

Ricardo: Mas ainda acho que pode simplesmente não  ter causa.

Godofredo: Que desespero estranho da tua parte, hehe. Isso acabaria com todo  conhecimento científico.

Ricardo: De que forma?

Chris: Acho que é  que ai as coisas poderiam não  ter explicação, sendo que a ciência busca justamente isso.

Godofredo: Isso! Se algo pode não  ter explicação, talvez os efeitos que acham que a gravidade causa não tem explicação  real e a gravidade não existe. Vai ver os fósseis de dinossauro também existem sem motivo e os grandões nunca existiram...

Ricardo: Realmente, se algo torna a ciência  tão pouco confiável, então deve ser uma questão de probabilidade. No geral deve tudo seguir uma ordem e só  não ter explicação  em casos  como o universo.

Chris: Como teria probabilidade  se é  algo sem explicação? Probabilidade  precisa de ordem. Não  só  a ciência estaria perdida, mas não  existiria ordem nas nossas mentes.

Ricardo: Como assim? Nossas mentes estão sem problemas.

Godofredo: Acho que ela tá  dizendo que suas ideias podiam aparecer sem motivo. Então, se não bastava não ter ciência, nem seus pensamentos iam ser confiáveis.

Chris: Por aí. O universo e as nossas mentes tem ordem, então não pode existir essas coisas sem explicação.

William: Acho que está provado mesmo, já que a ordem é real. Então o universo tem uma causa.

Ricardo: Talvez seja o multiverso então. É  claro! Tinha me esquecido.

William: Já pensei nessa ideia, mas ela me assusta. Não seria possível que exista um universo onde só  tem um cérebro que pensa que vê um mundo real?

Ricardo: Seria. Deve ter infinitos universos assim.

William: E como você sabe que não é  um cérebro assim?

Chris: Nossa! Pior que é mesmo. Não ia dar pra saber. Que medo...

William: Não ia ter como garantir que o mundo que você vê é real se o multiverso existe. Isso me assusta.

Ricardo: Preocupa mesmo. Mas é  a melhor explicação, então é o jeito.

Godofredo: Será que é mesmo? Mas como esse multiverso seria?

Chris: Pode ser tipo nos quadrinhos da Marvel e da DC, onde todos os universos existem ao mesmo tempo.

Ricardo: Isso seria bom, já que ai não ia precisar de um motivo pra esse universo existir dessa forma que ele é e não outra. 

Godofredo: Como assim?

Ricardo: Se você chega em casa e tem um sorvete de morango, precisa de um motivo pra ele ser de morango e não de maracujá. Mas se todos os sabores estão lá, essa dificuldade some, hehehe.

Chris: Não fala disso não! Que vontade de ter um sorvete agora...

Godofredo: Deu fome mesmo, mas isso não resolve o problema, já que você ainda precisa de um motivo pra ter todos os sorvetes e não três, ou nenhum. Na verdade, como cada universo precisa de uma explicação, você só piorou o problema!

Ricardo: É verdade, haha. Fazer o que. 

William: Outro problema é que a causa do multiverso é eterna. Se ela gera os universos, eles deveriam ser eternos, o que não é o caso.

Chris: Como assim? 

William: Pensa no fogo. Sempre que o fogo existe ele gera calor, pois ele não pode escolher gerar calor ou não. Se a causa do multiverso é eterna e não pode escolher gerar os universos, então eles são eternos, já que ela  sempre vai causar eles.

Chris: Nesse caso, ou ela escolheu gerar os multiversos ou esse multiverso não existe. Putz! Achei que tinha acertado.

Godofredo: Acontece.

Ricardo: Talvez então  o multiverso seja assim: existe um universo de cada vez e um novo universo surge após o fim de outro, infinitamente. Tem algo assim nas religiões da Índia  e em algumas hipóteses científicas. Assim não precisaria ter um começo pra existência, mas também nenhum universo teria existido infinitamente.

Chris: Mas isso não cai naquele problema do infinito? Se o número de universos é infinito e cada um deles nasce depois de outro, então antes de um universo existir vem outro, e antes desse vem outro, e antes desse vem outro, e antes desse vem outro, eternamente.

Ricardo: Então nenhum universo poderia nascer, já que infinitos universos precisariam vir antes. Faz sentido. Talvez o número deles seja finito então.

William: Se for o caso, o que explica a ordem deles? Algum  motivo tem que existir pro primeiro ser X e não Y.  Cada universo que vem depois exigiria um motivo pra ter sido escolhido.

Godofredo: Pior que probabilidade nem seria algo utilizável nesse caso. Como não existe matéria antes do universo surgir, então a seleção de universos nem teria base. 

Ricardo: É, não consigo pensar em nenhum processo que aleatoriamente selecione os universos. Não dá pra matéria fazer isso, já que a configuração dos quarks é justamente o que tem que ser explicado.

William: Então o multiverso pode ser real que o problema continua. Algo fora do universo ou multiverso tem que selecionar o que existe. 

Godofredo: Isso só pode significar uma coisa: a explicação pra esse universo ou multiverso existir e não outro só pode ter a capacidade de escolher. Já que assim ela seria capaz de escolher o que vai existir.

Ricardo: E pra que a explicação escolheu esse universo e não outro?

Godofredo: Pergunta pra ela, ué, haha.

William: Nesse caso, o que causou o universo tem que ser algo eterno, necessário, muito poderoso, imaterial, fora do tempo e pensante. Isso me parece familiar...

Ricardo: Me parece algo familiar também.  deve ter algum erro então ai.

William: Não acho que tem erro nenhum aqui. Você não pode dizer outra vez que o raciocínio tá errado por não gostar Dele! 

Godofredo: "Dele" quem? Não vi o debate de vocês.

Chris: Só digamos que esse ultimo debate me fez refletir bastante, e esse vai te fazer também quando tu pensar melhor nisso tudo.

Godofredo: Entendo...

William: Me deu fome essa conversa e o Ricardo me deu vontade de comer sorvete. Bora comprar um?

Godofredo: Bora!

Chris: Que tal de maracuja? Tem uns baratos ali na esquina.

Ricardo: E o que explica você querer esse sorvete?

Chris: É bom, hehe. 


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Luiz

Hans: Não tem motivo nenhum para se querer impedir o chefe de escolher quem ele contrata. 

Stuart: No geral sim, mas não dá pra deixar alguém recusar um funcionário por preconceito ou coisa do tipo.

Hans: Isso seria obrigar o chefe a ter que contratar uma pessoa. A liberdade de associação acabaria.

Stuart: Entre garantir a liberdade para alguns e garantir para todos se escolhe a segunda opção sempre, já que o que é certo claramente é garantir mais felicidade para o máximo de gente. Nem tem o que discutir.

Hans: E o que são esses seus todos se não indivíduos? Tentando ajudar esses "todos" você está é escravizando todo mundo!

Stuart: Como exatamente eu estou escravizando alguém se eu só quero dar oportunidade para mais pessoas? Diz o sábio: "Entre o fraco e o forte, a liberdade escraviza e a lei liberta." Sua liberdade individual é a do indivíduo ser um tirano!

Hans: Você escraviza o indivíduo pois está defendendo que o governo possa escolher quem vai ser contratado. Isso é um socialismo light!  

Stuart: Qual é exatamente o problema com o socialismo então? Se regular causa o bem para mais gente do que não regular, então é pra regular, ué.

Hans: Que bem? Você está desrespeitando o direito natural do indivíduo de autopropriedade, a base para a ética.

Stuart: Usando seu argumento você deve defender o anarquismo também. Nas suas ideias, TODO ato do governo ia ser uma violação desse "direito". Aquele negócio de "imposto é roubo e Estado é quadrilha".

Hans: Sim, é isso mesmo. O Estado só consegue se manter se violar a liberdade individual, logo ele não deveria existir.

Stuart: Você acha mesmo que o mundo seria melhor assim? Imagine o trabalho escravo absurdo, a poluição...

Hans: Num livre mercado, as pessoas escolheriam as empresas cujos serviços mais agradam elas, então esse tipo de coisa seria péssimo para a imagem das empresas e elas perderiam dinheiro. É melhorar ou morrer.

Stuart: Mas você não concorda que se preocupar em dar direitos  aos funcionários e em não poluir seria prejudicial aos lucros? Não atrapalharia a competição? 

Hans: De forma direta sim, mas a imagem positiva faria diferença. Por isso o governo tem que parar de atrapalhar, tudo se ajeita. 

Stuart: Qual o país com mais trabalho escravo?

Hans: Deve ser a China.

Stuart: E qual mais polui?

Hans: China de novo. Engraçado como um canto onde o Estado decide as coisas é essa porcaria...

Stuart: Você acha que as pessoas no geral sabem disso?

Hans: Sabem, lógico. Todo mundo já viu chinês andando de mascara por causa da poluição e trabalhando sem proteção antes.

Stuart: Se todo mundo sabe que a China é tão ruim pro trabalhador e pro meio ambiente, como é que todo mundo compra produto chinês?

Hans: É barato. A China tem menos regulamentação, então o processo é fácil.

Stuart:  Então as pessoas podem gastar com produtos feitos da maneira errada se eles forem baratos?

Hans: Parece ser o caso.

Stuart: E num livre mercado seria mais barato agir como a China?

Hans: Seria sim. 

Stuart: Então os produtos feitos assim seriam mais baratos e por isso as pessoas comprariam mesmo não concordando com essas práticas?

Hans: Parece que sim. 

Stuart: Então o livre mercado não pode garantir sozinho boas praticas! Sem o governo, o capitalismo destruiria os trabalhadores e o mundo ainda mais rápido.

Hans: Mesmo imaginando de alguma forma que é o caso, o governo é injusto por definição. Tem que acabar.

Stuart: Não faz sentido algum existir uma ética que só é boa para alguns e ruim para o resto. Temos todos o mesmo valor, então tem que se pensar no bem estar do máximo de gente possível.

Hans: Você acha que é assim? Nesse caso, é melhor matar todas as pessoas, já que causamos mortes e sofrimento para muitos animais. Ideia idiota.

Stuart: Mas o homem ainda vale mais que os animais. Os bichos só sentem prazeres corporais e nós também intelectuais. Eles tem valor, mas nós podemos ter mais bem estar, uma vida mais prazerosa, então valemos mais.

Hans: Você acha então que qualquer ação que aumente a felicidade como um todo é boa ou que aumente a média de pessoas felizes?

Stuart: A média de pessoas. Se fosse felicidade em geral, bastava todo mundo ter muitos filhos que tudo estaria bem mesmo com quase ninguém muito feliz. Não, todos os homens vivos merecem ser felizes.

Hans: Então você está dizendo que matar pessoas com depressão pode ser bom em alguns casos? A média de felicidade subiria assim. Pior, seria a melhor opção!

Stuart: Não tinha pensado nisso antes, mas talvez. Você também parece acreditar que fazer o certo as vezes é difícil, se quer defender seu anarquismo.

Hans: Sim, mas isso não significa que...

Luiz: Bom dia ae caras.

Stuart: Tá de tarde já. Você fica ai jogando o sábado todo e já perde a noção do tempo...

Luiz: Eu subi bastante no ranking, então valeu a pena, hehe.

Hans: E ai! Você é o Luiz, né? Lembro de ter visto tu rapidamente uma vez. O Stuart falou que cê ficou  celebrando a vida em casa ontem dai tava dormindo.

Luiz: Sim! Lembro de tu. É o Hansueldo, né?

Stuart: Ele prefere mais "Hans", mano. É frescura dele, haha.

Hans: Frescura o que. Fica bem melhor.

Luiz: Vocês me acordaram com essa conversa ai e fiquei deitado um pouco acompanhando.  Começou como?

Stuart: Vimos uma discussão sobre cotas em empresas e ai o Hans quis discutir sobre o assunto. Ele tem a mania de transformar toda conversa de políticas públicas nessas coisas de ética.

Luiz: Sim, sim. Não vejo muito sentido nessas discussões.  A ética não me parece o tipo de coisa que dá pra se descobrir. O lance é se calar diante do que não podemos comentar.

Stuart: Você acha isso, por quê? Quase todo mundo vê a ética como real, não tem como não existir.

Luiz: A ciência é a nossa melhor fonte de conhecimento e ela não tem como comentar essa assunto. Vejo a ética como real, mas acho que ela não pode ser conhecida ou estudada, só vivida.

Hans: Mas isso é parte da filosofia, que lida com esse tipo de coisa. A ciência tem outras questões para responder.

Luiz: A ciência é a nossa forma de conhecimento mais confiável. Se ela não pode falar de uma questão, não sei o que poderia.

Hans: A ciência ser confiável é algo discutível, já que uma de suas ideias centrais é a de que tudo pode ser refutado. A física de Newton não tem a confiança de antes, mas o "Penso, logo existo"  ainda é bem atual e claramente não pode ser refutado. Na verdade, é isso que torna ele confiável.

Luiz: É que a filosofia não usa provas empíricas como a ciência, então parece perda de tempo. Você consegue me mostrar algo confiável que tem como base a filosofia?

Stuart: Que tal a ciência? 

Luiz: Como assim?

Stuart: Assim como o físico precisa da matemática para fazer suas equações, ele precisa tomar como verdade vários conhecimentos que nascem da filosofia antes dos experimentos.

Luiz: Tipo?

Stuart: Bom, o cientista não considera que as coisas que ele vê tem uma explicação? Não considera que os resultados que ele viu se repetem? Não considera que o que ele vê faz parte do mundo real?  

Luiz: Entendo. Mas isso não seria uma área diferente da ética?

Stuart: Seria, mas já mostra que as discussões filosóficas podem ser confiáveis. 

Luiz: Nesse caso darei uma chance pra vocês. Hans, como sua ética funciona?

Hans: De maneira resumida, a ética se baseia no direito a propriedade que todos temos. O seu corpo é sua propriedade, então você pode fazer o que quiser com ele desde que não agrida ninguém.

Luiz: De onde vem esse direito?

Hans:  Veja o mundo em que vivemos. Nele os recursos são poucos mas todos temos necessidades. Isso não nos força a disputarmos as coisas com porrada ou com palavras?

Luiz: Sim. E dai?

Hans: Se eu e você queremos resolver um problema entre nós dois com palavras, não vamos precisar sentar e conversar?

Luiz: Vamos.

Hans: Pronto, ai que está. Quando eu me sento pra conversar com você eu não uso meu corpo para pensar nos argumentos e falar?

Luiz: É o jeito.

Hans: Exato. Nós dois usamos nossos corpos para falar, pensar e até mudar de opinião. Isso significa que no momento que pensamos em debater consideramos que temos controle do nosso corpo, não é?

Luiz: Parece que sim.

Hans: Se pra discutir precisamos ter controle dos nossos corpos, como você pode querer defender num debate que nós não temos controle dos nossos corpos? Seria como você olhar pra mim e defender que é mudo usando palavras. Seria besteira.

Luiz: Entendi. Argumento interessante...

Stuart: É esse argumento que você disse que era irrefutável uma vez?

Hans: Esse mesmo. Antes mesmo de alguém querer defender que a ética da autopropriedade está errada a discussão já terminou!

Stuart: Mas me parece que esse argumento só garante domínio do cérebro e da boca para todos. Isso não garante a "liberdade" que você quer.

Hans: Como eu poderia ser dono de parte do meu corpo e não do resto? Isso seria bizarro.

Luiz: É uma ideia estranha mesmo essa sua, Stu. Mas acho que achei uma falha no argumento.

Hans: E onde seria?

Luiz: O que você quer dizer é que negar a autopropriedade é se contradizer automaticamente, como querer defender com palavras que você não pode falar, certo?

Hans: Isso! Não tem como refutar uma ideia que você já toma como verdade quando vai discutir. Seria como alguém argumentar que, sei lá, significado, intenções, crenças etc não existem. 

Luiz: Imagine dois ladrões que invadem uma casa de noite. 

Hans: Certo.

Luiz: Um desses ladrões estava o tempo todo se perguntando se esse roubo seria errado ou não. Quando eles já estão na casa ele chega a conclusão que aquilo está errado. O que ele faz?

Hans: Tenta convencer o outro a desistir com ele, acho.

Luiz: Isso! Imagina que ele começa a argumentar dai o outro fala: "Você diz que não devemos estar aqui enquanto está aqui?" E então continua o roubo. Isso seria uma boa refutação?

Hans: Não. Sem sentido nenhum isso.

Luiz: E por qual motivo?

Hans: O arrependido defende que é errado eles estarem naquele local mas não nega que eles estão lá, só diz que não deveriam. 

Luiz: Pronto. Da mesma forma, o fato de eu usar meu corpo para discutir não quer dizer que eu não possa argumentar contra a ideia de autopropriedade. Eu não nego que uso meu corpo, apenas digo que não posso fazer tudo com ele.

Hans: Você não é dono total do corpo e o usa? Isso não tornaria errado você usar ele pra defender a ideia que quiser?

Luiz: Mesmo que fosse o caso, eu fazer coisa errada não refuta minhas opiniões. Até o Stalin dizia que a Terra é redonda.

Stuart: Além disso, praticamente toda ética que existe defende que suas ideias podem ou devem ser ensinadas.

Luiz: E tu? Como sua ética funciona mesmo? Nunca prestei atenção nas suas conversas sobre isso com o tio Lucas.

Stuart: Ele concordava comigo antes mas tá evitando falar disso faz um tempo. Mas é o seguinte: o que define se uma ação é boa ou ruim é se ela aumenta o prazer e diminui a dor dos envolvidos ou piora tudo.

Luiz: E por qual motivo o prazer é tão importante para você que é a base da ética?

Stuart: Pra que nós trabalhamos? Para poder ter acesso a prazeres. Pra que nós temos amizades e relacionamentos? Pra poder ter acesso a prazeres. Todos os animais agem dessa forma "Evita a dor e busca o prazer". Não somos diferentes disso.

Luiz: Uma visão meio ridícula de nós, mas, mesmo que seja o caso, por qual motivo isso eleva o prazer ao nível de valor supremo?

Stuart: A ética é feita para gerarmos um mundo melhor e o prazer é o que nos move, de forma que ele é a única coisa que nos motiva por si só, diferente das outras que buscamos para ter prazer. Logo, um mundo melhor, o objetivo da ética, só pode ser um mundo onde existe mais prazer.

Luiz: Pra que eu devo me esforçar para garantir o prazer pra todos, se isso pode diminuir o meu?

Stuart: E por qual motivo seu prazer é melhor que o dos outros? O que você tem de especial?

Luiz: Simples:  ajudar os outros não me ajuda, então eu conseguir o meu prazer é a única razão pra fazer algo.

Stuart: Mas essa seria uma visão errada.  O certo seria garantir o prazer de todos.

Luiz: Ai você toma essa ideia como verdade quando tá tentando provar ela. Seu argumento depende da conclusão que ele defende estar certa pra provar que ela está certa.

Hans: Além disso, mesmo que o prazer seja o que nos move, isso não significa que temos uma obrigação de buscar ele. Pode ser o que nós fazemos, mas ninguém é mal por isso.

Luiz: No máximo seria burro, e olhe lá. Ainda acho essa visão bem errada. 

Stuart: Mas até ai você nem provou que a ideia está errada. É obvio que devemos pensar nos outros.

Luiz: Concordo. Mas suas ideias não sustentam esse principio, então essa ética é bem fraquinha.

Stuart: Isso não significa que ela é falsa.

Luiz: Talvez. Eu não mostrei que não se pode defender a sua ética ou a do Hans, mas nenhuma delas tem algum argumento bom, então pra que eu devo achar que uma é certa?

Hans: Mas a ética dele é bem estranha, então já dá pra rejeitar. 

Stuart: A sua é! Uma ética bizarras dessas...

Luiz: Fazendo um teste então: como a ética de vocês vê, sei lá, zoofilia? 

Stuart: Sem pensar muito, acho que daria pra defender que os animais até podem dar um tipo de consenso. Se eles não sofrerem nenhum dano nem forem forçados deve ser possível ser certo. Mas legalizar teria que trazer mais prazer que dor.

Hans: Animais não tem direitos então teoricamente eles poderiam ser usados pra esse tipo de coisa como qualquer propriedade.

Luiz: Eu retiro o que eu disse. As duas teorias estão refutadas.

Hans: Mas você não  querer barrar um ato não te obriga a praticar ele. Só não é pra usar suas crenças pra querer tirar a liberdade do outro.

Luiz: Eu sei, é que, né, muito bizarro.

Stuart: Isso parece estranho pra você mas pra alguns é normal. Sua intuição pode falhar, então como você sabe que zoofilia é errado?

Luiz: Algumas coisas você só sabe, cara...

Hans: Caramba, o debate fluiu em. Mas ainda acho que deviam esquecer essa cota...

Luiz: Acho também. Esse racismo reverso é triste.

Stuart: É algo bem de boa, parem de exagerar...















sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Renê

Jorge: Tá bem calor hoje, em?

Tomás: Tá muito quente mesmo. Tô suando direto.

Renê: Falando nisso, vocês podem me dar uma definição boa de temperatura? Tô pensando em começar amanhã a estudar praquele concurso e uns conceitos de física tão me dando trabalho pra lembrar.

Jorge: Comece mesmo, tu precisa estudar muito se esqueceu algo assim, hehe. Se não tô enganado, temperatura é definida como uma grandeza física que indica o grau de agitação nas moléculas de um corpo. Se elas se movem muito é quente e se elas se movem pouco é frio.

Renê: Tava lembrando de algo assim. Agora, não é estranho que esse quente e esse frio sejam totalmente diferentes do que significam normalmente? 

Tomás: É diferente mesmo. Dois definem propriedades objetivas das coisas e os outros dois definem sensações nossas.

Jorge: É estranho. É como se um fosse real e o outro não.

Tomás: De certa forma é isso mesmo. Quente quer dizer um corpo cheio de energia térmica mas também a capacidade desse corpo de nos dar certa sensação, como esse sol de agora.

Renê: Está me dizendo que o primeiro está mesmo nos objetos e o segundo não?

Tomás: Eu nunca tinha pensado nisso, mas acho que sim. Assim como cor ou som, "quente" não existe fora de nossas cabeças.

Renê: Então nossas mentes são imateriais? 

Tomás: Que? Claro que não. De onde veio essa ideia? 

Renê: Bom, os objetos nos parecem ter cor, calor, som, mas parece que essas coisas não estão neles. Se elas não estão na matéria, não estão no nosso cérebro, que é feito de matéria. Isso significa que a nossa mente não é igual ao nosso cérebro, já que essas coisas estão nela e não nele.

Tomás:  Sim, se você pudesse olhar um cérebro como ele realmente é certamente não veria algo como cor nele, mas isso não significa que nossas mentes não são parte do cérebro, só precisamos descobrir como a consciência e as sensações são formadas por ele.

Renê: Na verdade me parece sim que as nossas sensações não podem ser materiais. A matéria, como a física nos revela, é sem cor, sem som, sem cheiro, sem calor ou nada do tipo. Mas a mente não é assim. Pensando num exemplo aqui: Imagine que todos os seres vivos do universo morreram, só resta objetos.

Tomás: Dá pra imaginar sim. Continue.

Renê: Nesse caso, ainda existiria cor ou som, por exemplo?

Tomás: Não. Sem uma mente para ter sensações nada disso poderia existir.

Renê: Exatamente. Nesse caso, matéria existe mas cor e som não existem. Isso significa que ela não pode ser a explicação dessas sensações, já que se ela fosse elas existiriam junto com ela. 

Tomás:  Não vejo motivo pra pensar isso. Não devemos apelar pra esse tipo de ideia só por não saber como a mente funciona.

Renê: É que me parece algo conceitual. Matéria não tem cor ou som ou temperatura e a mente sim.  Só de saber o que cada uma delas é  já dá pra ver que uma não pode explicar a outra.

Tomás: Então o que seria a mente se ela não é feita de matéria?

Renê: Bom, além das sensações a mente é definida principalmente pelo pensamento. Podemos dizer que a mente é basicamente sensação, vontade e pensamento, uma coisa pensante.

Tomás:  Se é o caso, como um golpe bem dado na cabeça ou uma noite mal dormida podem afetar a mente? Se ela  é imaterial, não devia depender tanto da matéria.

Renê: Ela é afetada indiretamente. É meio claro que a mente precisa dos dados dos sentidos e da memória pra funcionar. Agora, sensações e pensamentos especificamente não podem ser matéria, embora precisem dela.  

Tomás: Por qual motivo o pensamento também é imaterial pra você?

Renê: O pensamento interage com as sensações imateriais.  Além disso, ele é muito definido para ser matéria. Pense por exemplo, sei lá, num sujeito olhando pruma janela, olhando prum tijolo no chão e então a jogando nela, a arrebentando.

Tomás:  Exemplo estranho, mas dá pra imaginar. 

Renê: Bom, onde essa cena começa? Onde termina?

Tomás: Começa no homem olhando para a janela, ué. Termina com a janela quebrada.

 Renê: E por qual motivo começa e termina nesses pontos e não em outros? A matéria obedece apenas as leis da física sem nenhuma ordem ou objetivo que não estejam na mente de alguém, logo não tem um motivo exato para a sequência começar com ele olhando a janela e não com ele pegando o tijolo, por exemplo.

Jorge: Na verdade, nem é só a cena toda que fica problemática.  Quando o homem vai olhar para a janela a luz que refletiu nela vai de encontro aos olhos dele e o cérebro dele processa as informações, dai ele percebe que aquilo é uma janela, mas todos esses acontecimentos só formam uma sequência exata pra mim. Como a matéria não separa as coisas em "esse evento" e "outro evento" qualquer ordem que vemos é arbitrária, relativa a um observador.

Tomás: Me parece ser assim mesmo, qual o problema?  De novo, não é por não entendermos como tudo funciona que devemos recorrer a isso. Outra coisa: Como a matéria e o corpo interagem?

Renê: Você acha que tem alguma dificuldade na interação entre eles?

Tomás: Lógico. Se a matéria afeta a mente com sensações e a mente afeta a matéria com vontade e pensamentos, como uma pode ser totalmente material e a outra totalmente imaterial? Se a mente não tem matéria, não vejo como ela pode gerar força para mover algo físico.

Renê: Ora, a maioria das pessoas não sabe como ondas de rádio podem interagir com maquinas, mas eu nunca vi alguém dizer que por isso as maquinas não existem.

Tomás: Matéria e ondas estão bem mais próximas do que parece.  Quando você voltar a ler sobre o assunto vai entender...

Jorge:  Entendi o que tu quer dizer, Tomás! A matéria e a energia estão tão distantes em natureza pro Renê que elas não tem como agir. Elas não podem ser tão diferentes, pois ai não faz sentido uma interagir com a outra. Ia ser como você estar assistindo TV e tentar alterar o que acontece no programa.

Tomás:  Isso! Se existisse algo tão distante da matéria, não ia poder alterar nada material, seria totalmente intangível.

Renê:  Então como a mente parece tão distante da matéria em natureza? Seja lá o que a mente for, ela não pode ser material.

Jorge: Como mente e matéria não podem ser diferentes, elas tem que ser a mesma coisa. Mas não pode ser matéria...

Tomás: E que outra opção temos? É isso ou nada.

Jorge: Talvez matéria seja mente.

Tomás:  Que? 

Jorge: Pense na sua ideia das cores estarem só na mente. Você consegue imaginar uma coisa sem nenhuma cor? Sem ser transparente?

Tomás: Sem ser transparente não dá. É isso ou outra cor.

Jorge: Isso. você não pode ver formato sem cor. Isso sugere que  essas características tão mais próximas do que parece.  Essa sua coisa que tem formato nas não tem cor é estranha.

Tomás: Não sei como isso torna sua ideia mais fácil de entender.

Jorge: Vocês acham possível que na verdade não tem mentes?

Renê: Penso, logo existo.

Tomás: Mesmo toda experiência cientifica depende de alguém para a realizar e a interpretar. Minha mente é a unica coisa realmente induvidável.

Jorge:  Exatamente! Se mente e matéria não podem ser totalmente diferentes, pois ai não iam interagir, mas a mente é induvidável então obviamente só mente existe. Se parar pra pensar, não temos prova de que a matéria existe.

Renê: Na verdade eu diria que temos bastante. Tô vendo minha mão aqui sem problema nenhum.

Jorge: Mas você não as vê de verdade. Você só tá vendo sensações mesmo e não uma mão que existe sem você a perceber.  Isso elimina o problema das cores ou sensações. Esse mundo sem cores, som ou cheiros não existe, o mundo é como vemos.

Tomás: Então as coisas só existem quando alguém olha pra elas? Essa hora não tem ninguém na minha casa, então será que o meu quarto sumiu?

Renê: E como é que você diferencia estar sonhando e estar acordado então? Os dois não seriam só sensações?

Jorge: Sim, os objetos que vemos são só sensações então. Mas as coisas que não vemos não desaparecem, já que elas são sempre percebidas por alguém que pode observar todas as coisas ao mesmo tempo e pode nos dar dados a todo momento perfeitamente: O Senhor.

Renê: Então Deus estaria enviando sensações para nós?  Nos fazendo pensar que tem um mundo a nossa volta? Que coisa bizarra em...

Jorge: Até que tem um mundo, ele só não é o que pensávamos ser antes. Isso responde sua pergunta dos sonhos até. Deus nos dá as informações e quando alguém não as capta direito ou vê algo diferente delas que chamamos de alucinações e sonhos.

Renê: Como exatamente Deus nos deixaria então pensar que a matéria existe? Ele é bom por definição e você tá  dizendo que Ele é mentiroso!

Jorge: Uma falha nossa. Assim como Ele permite que alguns pensem que podem matar outros. Ele não nos trata como fantoches mas nos deixa aprender.

Tomás: Então sua ideia é tipo aquelas da Índia? Você acha que só existe Deus e nós somos um tipo de sonho divino?

Jorge: Não é bem assim. Claro que nós todos existimos individualmente de maneira diferente de Deus. Embora próximos graças as sensações que ele manda pra nós. Se tudo é Deus, ele estaria beeem confuso.

Renê: Isso. Nós sabemos que somos diferentes do mundo em si. Deus jamais poderia estar errado assim. Claro que Ele também não nos deixaria acreditar em matéria que não existe...

Tomás: Vai que é algum tipo de aprendizado, hehe.

Jorge: Isso não pode ser possível. Ele já sabe de tudo.

Tomás: E como você sabe disso? Fazer mentes verem um mundo irreal não está muito além do que nossa tecnologia permite. Não acho que vamos ver uma maquina assim, mas deve ser possível.

Jorge: Ele faz mais do que isso. Dois mais dois dão quatro sempre?

Tomás: Necessariamemte sim, o resultado tá implícito  nos nomes. É mais uma questão de definição. Pra que a pergunta?

Jorge: Eu preciso dela pro argumento. Então você acha que números são só definições? 

Tomás: Claro. Você não vê um dois ou um sete andando por ai. Números e outras definições são criações nossas para entender o mundo.

 Jorge: Então está me dizendo que o motivo de eu, por exemplo, usar a palavra aranha para falar de dois bichos é só por eles se parecerem? Não existe algo como a universal aranha?  

Tomás: Sim. Não existe nada além de animais semelhantes que você classifica como iguais.

Renê: E qual a semelhança entre eles? Será que não seria...

Jorge: Eles dois serem aranhas! Sua ideia deles serem diferentes precisa que eles sejam iguais em algo, então o universal está salvo.

Tomás: Bom, não saberia como responder essa agora. Diga o argumento ai. Dois mais dois dá quatro. Que que isso nos diz?

Jorge: Bom. Isso sempre acontece, certo? Essa verdade não é eterna? Não seria verdade mesmo que não existisse nem três coisas no mundo?

Tomás: Podemos dizer que sim, pro argumento rolar. Então existem verdades que são eternas. Continue.

Jorge: Bom, um filosofo grego percebeu isso e pensou que isso significava que as verdades existiam sozinhas, eternas, imutáveis, perfeitas. 

Tomás: Uma ideia bem idiota. Uma verdade, se isso existe, como "Um gato tem quatro patas" ou  "Se o governo gastar mais, vai aumentar a divida pública"  só faz sentido para uma mente. Não é o tipo de coisa que existe por si só. 

Jorge:  Exatamente o que eu ia falar. Se as verdades precisam de uma mente para existirem e essas verdades são eternas então precisamos de uma mente eterna.

Tomás:  Nenhuma mente que eu vi até hoje é eterna, todas tiveram um começo e tem ou terão fim.  Se essa mente existe, não é humana.

Renê: Não poderia ser, já que a mente humana, mesmo provavelmente indestrutível pois é imaterial, falha direto. Se fosse uma mente como a nossa, então ela ia perder as verdades toda hora. Dois mais dois não iam dar quatro direto, haha.

Jorge: Isso, hahaha. Teria que ser uma mente então que é eterna, infalível, necessária, sabe de tudo e não depende do mundo material para existir. Como chamaríamos essa mente?

Renê: Parece bastante  com alguns conceitos de Deus. É perfeito pra sua ideia.

Jorge: Exatamente! Deus sabe todas as verdades, então ele não pode se enganar.

Tomás: Isso significa que Ele não poderia pensar que é seres diferentes, tornando impossível nós sermos parte Dele. É louco como o resto, mas faz sentido nas suas ideias. Ia perguntar sobre o livre arbítrio, mas essa ideia lhe ajuda.

Renê: Livre arbítrio é? Você também acredita que somos livres?

Tomás: Na verdad...   Não. É que se você vai pensar numa ideia assim, é melhor já ter todas essas ideias estranhas mas que todo mundo gosta de acreditar.

Renê: Bom, ainda falta um problema. Se o mundo não passa de sensações, como é tão complexo? Se você for estudar o mundo quântico por exemplo,  o que vemos revela uma estrutura por trás bem maior que sensações.

Jorge: E como a matéria explicaria isso melhor? Também é complexo mesmo que tu considere essa estrutura como algo real.

Renê: Pior que é interessante. Eu estava olhando e esses fenômenos tem inúmeras explicações diferentes mas cientificamente falando não dá pra saber qual é a certa, parece.

Tomás: Isso é verdade. A ciência não parece ser capaz de dizer muito sobre a natureza real das coisas. Basta ver o quanto discutimos até aqui sobre o que são sensações e o que as causa aceitando a mesma ciência.

Jorge:  Você diria que conhecimento cientifico é diferente do das sensações? Esses conhecimentos não nos disseram muito sobre elas.

Tomás: Como assim diferente? 

Jorge: Tipo, se um homem nasce cego e vira cientista. Ele aprende tudo sobre azul cientificamente mas nunca vê azul. Se um dia ele deixar de ser cego e olhar pro azul ele aprende algo novo?

Tomás: Acho que sim. Ele aprenderia como o azul parece para um humano.

Renê: Então você está se contradizendo! Se o homem sabia tudo sobre a matéria que envolve azul mas não conhecia azul então as sensações não são matéria!

Jorge: Isso mesmo! Você acaba de admitir que estava errado, cara.

Tomás: Bom, com o conhecimento de hoje, ele não saberia tudo. No futuro nem se sabe.

Renê: Mas existe uma diferença bem real entre conhecimento científico e entre o que está por trás das sensações.

Tomás: E qual seria essa diferença tão clara?

Renê: O edital do concurso só pede um, hahaha.

Tomás: Hehe. Justo.






Novena de São Luís IX, Rei da França

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