quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Luiz

Hans: Não tem motivo nenhum para se querer impedir o chefe de escolher quem ele contrata. 

Stuart: No geral sim, mas não dá pra deixar alguém recusar um funcionário por preconceito ou coisa do tipo.

Hans: Isso seria obrigar o chefe a ter que contratar uma pessoa. A liberdade de associação acabaria.

Stuart: Entre garantir a liberdade para alguns e garantir para todos se escolhe a segunda opção sempre, já que o que é certo claramente é garantir mais felicidade para o máximo de gente. Nem tem o que discutir.

Hans: E o que são esses seus todos se não indivíduos? Tentando ajudar esses "todos" você está é escravizando todo mundo!

Stuart: Como exatamente eu estou escravizando alguém se eu só quero dar oportunidade para mais pessoas? Diz o sábio: "Entre o fraco e o forte, a liberdade escraviza e a lei liberta." Sua liberdade individual é a do indivíduo ser um tirano!

Hans: Você escraviza o indivíduo pois está defendendo que o governo possa escolher quem vai ser contratado. Isso é um socialismo light!  

Stuart: Qual é exatamente o problema com o socialismo então? Se regular causa o bem para mais gente do que não regular, então é pra regular, ué.

Hans: Que bem? Você está desrespeitando o direito natural do indivíduo de autopropriedade, a base para a ética.

Stuart: Usando seu argumento você deve defender o anarquismo também. Nas suas ideias, TODO ato do governo ia ser uma violação desse "direito". Aquele negócio de "imposto é roubo e Estado é quadrilha".

Hans: Sim, é isso mesmo. O Estado só consegue se manter se violar a liberdade individual, logo ele não deveria existir.

Stuart: Você acha mesmo que o mundo seria melhor assim? Imagine o trabalho escravo absurdo, a poluição...

Hans: Num livre mercado, as pessoas escolheriam as empresas cujos serviços mais agradam elas, então esse tipo de coisa seria péssimo para a imagem das empresas e elas perderiam dinheiro. É melhorar ou morrer.

Stuart: Mas você não concorda que se preocupar em dar direitos  aos funcionários e em não poluir seria prejudicial aos lucros? Não atrapalharia a competição? 

Hans: De forma direta sim, mas a imagem positiva faria diferença. Por isso o governo tem que parar de atrapalhar, tudo se ajeita. 

Stuart: Qual o país com mais trabalho escravo?

Hans: Deve ser a China.

Stuart: E qual mais polui?

Hans: China de novo. Engraçado como um canto onde o Estado decide as coisas é essa porcaria...

Stuart: Você acha que as pessoas no geral sabem disso?

Hans: Sabem, lógico. Todo mundo já viu chinês andando de mascara por causa da poluição e trabalhando sem proteção antes.

Stuart: Se todo mundo sabe que a China é tão ruim pro trabalhador e pro meio ambiente, como é que todo mundo compra produto chinês?

Hans: É barato. A China tem menos regulamentação, então o processo é fácil.

Stuart:  Então as pessoas podem gastar com produtos feitos da maneira errada se eles forem baratos?

Hans: Parece ser o caso.

Stuart: E num livre mercado seria mais barato agir como a China?

Hans: Seria sim. 

Stuart: Então os produtos feitos assim seriam mais baratos e por isso as pessoas comprariam mesmo não concordando com essas práticas?

Hans: Parece que sim. 

Stuart: Então o livre mercado não pode garantir sozinho boas praticas! Sem o governo, o capitalismo destruiria os trabalhadores e o mundo ainda mais rápido.

Hans: Mesmo imaginando de alguma forma que é o caso, o governo é injusto por definição. Tem que acabar.

Stuart: Não faz sentido algum existir uma ética que só é boa para alguns e ruim para o resto. Temos todos o mesmo valor, então tem que se pensar no bem estar do máximo de gente possível.

Hans: Você acha que é assim? Nesse caso, é melhor matar todas as pessoas, já que causamos mortes e sofrimento para muitos animais. Ideia idiota.

Stuart: Mas o homem ainda vale mais que os animais. Os bichos só sentem prazeres corporais e nós também intelectuais. Eles tem valor, mas nós podemos ter mais bem estar, uma vida mais prazerosa, então valemos mais.

Hans: Você acha então que qualquer ação que aumente a felicidade como um todo é boa ou que aumente a média de pessoas felizes?

Stuart: A média de pessoas. Se fosse felicidade em geral, bastava todo mundo ter muitos filhos que tudo estaria bem mesmo com quase ninguém muito feliz. Não, todos os homens vivos merecem ser felizes.

Hans: Então você está dizendo que matar pessoas com depressão pode ser bom em alguns casos? A média de felicidade subiria assim. Pior, seria a melhor opção!

Stuart: Não tinha pensado nisso antes, mas talvez. Você também parece acreditar que fazer o certo as vezes é difícil, se quer defender seu anarquismo.

Hans: Sim, mas isso não significa que...

Luiz: Bom dia ae caras.

Stuart: Tá de tarde já. Você fica ai jogando o sábado todo e já perde a noção do tempo...

Luiz: Eu subi bastante no ranking, então valeu a pena, hehe.

Hans: E ai! Você é o Luiz, né? Lembro de ter visto tu rapidamente uma vez. O Stuart falou que cê ficou  celebrando a vida em casa ontem dai tava dormindo.

Luiz: Sim! Lembro de tu. É o Hansueldo, né?

Stuart: Ele prefere mais "Hans", mano. É frescura dele, haha.

Hans: Frescura o que. Fica bem melhor.

Luiz: Vocês me acordaram com essa conversa ai e fiquei deitado um pouco acompanhando.  Começou como?

Stuart: Vimos uma discussão sobre cotas em empresas e ai o Hans quis discutir sobre o assunto. Ele tem a mania de transformar toda conversa de políticas públicas nessas coisas de ética.

Luiz: Sim, sim. Não vejo muito sentido nessas discussões.  A ética não me parece o tipo de coisa que dá pra se descobrir. O lance é se calar diante do que não podemos comentar.

Stuart: Você acha isso, por quê? Quase todo mundo vê a ética como real, não tem como não existir.

Luiz: A ciência é a nossa melhor fonte de conhecimento e ela não tem como comentar essa assunto. Vejo a ética como real, mas acho que ela não pode ser conhecida ou estudada, só vivida.

Hans: Mas isso é parte da filosofia, que lida com esse tipo de coisa. A ciência tem outras questões para responder.

Luiz: A ciência é a nossa forma de conhecimento mais confiável. Se ela não pode falar de uma questão, não sei o que poderia.

Hans: A ciência ser confiável é algo discutível, já que uma de suas ideias centrais é a de que tudo pode ser refutado. A física de Newton não tem a confiança de antes, mas o "Penso, logo existo"  ainda é bem atual e claramente não pode ser refutado. Na verdade, é isso que torna ele confiável.

Luiz: É que a filosofia não usa provas empíricas como a ciência, então parece perda de tempo. Você consegue me mostrar algo confiável que tem como base a filosofia?

Stuart: Que tal a ciência? 

Luiz: Como assim?

Stuart: Assim como o físico precisa da matemática para fazer suas equações, ele precisa tomar como verdade vários conhecimentos que nascem da filosofia antes dos experimentos.

Luiz: Tipo?

Stuart: Bom, o cientista não considera que as coisas que ele vê tem uma explicação? Não considera que os resultados que ele viu se repetem? Não considera que o que ele vê faz parte do mundo real?  

Luiz: Entendo. Mas isso não seria uma área diferente da ética?

Stuart: Seria, mas já mostra que as discussões filosóficas podem ser confiáveis. 

Luiz: Nesse caso darei uma chance pra vocês. Hans, como sua ética funciona?

Hans: De maneira resumida, a ética se baseia no direito a propriedade que todos temos. O seu corpo é sua propriedade, então você pode fazer o que quiser com ele desde que não agrida ninguém.

Luiz: De onde vem esse direito?

Hans:  Veja o mundo em que vivemos. Nele os recursos são poucos mas todos temos necessidades. Isso não nos força a disputarmos as coisas com porrada ou com palavras?

Luiz: Sim. E dai?

Hans: Se eu e você queremos resolver um problema entre nós dois com palavras, não vamos precisar sentar e conversar?

Luiz: Vamos.

Hans: Pronto, ai que está. Quando eu me sento pra conversar com você eu não uso meu corpo para pensar nos argumentos e falar?

Luiz: É o jeito.

Hans: Exato. Nós dois usamos nossos corpos para falar, pensar e até mudar de opinião. Isso significa que no momento que pensamos em debater consideramos que temos controle do nosso corpo, não é?

Luiz: Parece que sim.

Hans: Se pra discutir precisamos ter controle dos nossos corpos, como você pode querer defender num debate que nós não temos controle dos nossos corpos? Seria como você olhar pra mim e defender que é mudo usando palavras. Seria besteira.

Luiz: Entendi. Argumento interessante...

Stuart: É esse argumento que você disse que era irrefutável uma vez?

Hans: Esse mesmo. Antes mesmo de alguém querer defender que a ética da autopropriedade está errada a discussão já terminou!

Stuart: Mas me parece que esse argumento só garante domínio do cérebro e da boca para todos. Isso não garante a "liberdade" que você quer.

Hans: Como eu poderia ser dono de parte do meu corpo e não do resto? Isso seria bizarro.

Luiz: É uma ideia estranha mesmo essa sua, Stu. Mas acho que achei uma falha no argumento.

Hans: E onde seria?

Luiz: O que você quer dizer é que negar a autopropriedade é se contradizer automaticamente, como querer defender com palavras que você não pode falar, certo?

Hans: Isso! Não tem como refutar uma ideia que você já toma como verdade quando vai discutir. Seria como alguém argumentar que, sei lá, significado, intenções, crenças etc não existem. 

Luiz: Imagine dois ladrões que invadem uma casa de noite. 

Hans: Certo.

Luiz: Um desses ladrões estava o tempo todo se perguntando se esse roubo seria errado ou não. Quando eles já estão na casa ele chega a conclusão que aquilo está errado. O que ele faz?

Hans: Tenta convencer o outro a desistir com ele, acho.

Luiz: Isso! Imagina que ele começa a argumentar dai o outro fala: "Você diz que não devemos estar aqui enquanto está aqui?" E então continua o roubo. Isso seria uma boa refutação?

Hans: Não. Sem sentido nenhum isso.

Luiz: E por qual motivo?

Hans: O arrependido defende que é errado eles estarem naquele local mas não nega que eles estão lá, só diz que não deveriam. 

Luiz: Pronto. Da mesma forma, o fato de eu usar meu corpo para discutir não quer dizer que eu não possa argumentar contra a ideia de autopropriedade. Eu não nego que uso meu corpo, apenas digo que não posso fazer tudo com ele.

Hans: Você não é dono total do corpo e o usa? Isso não tornaria errado você usar ele pra defender a ideia que quiser?

Luiz: Mesmo que fosse o caso, eu fazer coisa errada não refuta minhas opiniões. Até o Stalin dizia que a Terra é redonda.

Stuart: Além disso, praticamente toda ética que existe defende que suas ideias podem ou devem ser ensinadas.

Luiz: E tu? Como sua ética funciona mesmo? Nunca prestei atenção nas suas conversas sobre isso com o tio Lucas.

Stuart: Ele concordava comigo antes mas tá evitando falar disso faz um tempo. Mas é o seguinte: o que define se uma ação é boa ou ruim é se ela aumenta o prazer e diminui a dor dos envolvidos ou piora tudo.

Luiz: E por qual motivo o prazer é tão importante para você que é a base da ética?

Stuart: Pra que nós trabalhamos? Para poder ter acesso a prazeres. Pra que nós temos amizades e relacionamentos? Pra poder ter acesso a prazeres. Todos os animais agem dessa forma "Evita a dor e busca o prazer". Não somos diferentes disso.

Luiz: Uma visão meio ridícula de nós, mas, mesmo que seja o caso, por qual motivo isso eleva o prazer ao nível de valor supremo?

Stuart: A ética é feita para gerarmos um mundo melhor e o prazer é o que nos move, de forma que ele é a única coisa que nos motiva por si só, diferente das outras que buscamos para ter prazer. Logo, um mundo melhor, o objetivo da ética, só pode ser um mundo onde existe mais prazer.

Luiz: Pra que eu devo me esforçar para garantir o prazer pra todos, se isso pode diminuir o meu?

Stuart: E por qual motivo seu prazer é melhor que o dos outros? O que você tem de especial?

Luiz: Simples:  ajudar os outros não me ajuda, então eu conseguir o meu prazer é a única razão pra fazer algo.

Stuart: Mas essa seria uma visão errada.  O certo seria garantir o prazer de todos.

Luiz: Ai você toma essa ideia como verdade quando tá tentando provar ela. Seu argumento depende da conclusão que ele defende estar certa pra provar que ela está certa.

Hans: Além disso, mesmo que o prazer seja o que nos move, isso não significa que temos uma obrigação de buscar ele. Pode ser o que nós fazemos, mas ninguém é mal por isso.

Luiz: No máximo seria burro, e olhe lá. Ainda acho essa visão bem errada. 

Stuart: Mas até ai você nem provou que a ideia está errada. É obvio que devemos pensar nos outros.

Luiz: Concordo. Mas suas ideias não sustentam esse principio, então essa ética é bem fraquinha.

Stuart: Isso não significa que ela é falsa.

Luiz: Talvez. Eu não mostrei que não se pode defender a sua ética ou a do Hans, mas nenhuma delas tem algum argumento bom, então pra que eu devo achar que uma é certa?

Hans: Mas a ética dele é bem estranha, então já dá pra rejeitar. 

Stuart: A sua é! Uma ética bizarras dessas...

Luiz: Fazendo um teste então: como a ética de vocês vê, sei lá, zoofilia? 

Stuart: Sem pensar muito, acho que daria pra defender que os animais até podem dar um tipo de consenso. Se eles não sofrerem nenhum dano nem forem forçados deve ser possível ser certo. Mas legalizar teria que trazer mais prazer que dor.

Hans: Animais não tem direitos então teoricamente eles poderiam ser usados pra esse tipo de coisa como qualquer propriedade.

Luiz: Eu retiro o que eu disse. As duas teorias estão refutadas.

Hans: Mas você não  querer barrar um ato não te obriga a praticar ele. Só não é pra usar suas crenças pra querer tirar a liberdade do outro.

Luiz: Eu sei, é que, né, muito bizarro.

Stuart: Isso parece estranho pra você mas pra alguns é normal. Sua intuição pode falhar, então como você sabe que zoofilia é errado?

Luiz: Algumas coisas você só sabe, cara...

Hans: Caramba, o debate fluiu em. Mas ainda acho que deviam esquecer essa cota...

Luiz: Acho também. Esse racismo reverso é triste.

Stuart: É algo bem de boa, parem de exagerar...















sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Renê

Jorge: Tá bem calor hoje, em?

Tomás: Tá muito quente mesmo. Tô suando direto.

Renê: Falando nisso, vocês podem me dar uma definição boa de temperatura? Tô pensando em começar amanhã a estudar praquele concurso e uns conceitos de física tão me dando trabalho pra lembrar.

Jorge: Comece mesmo, tu precisa estudar muito se esqueceu algo assim, hehe. Se não tô enganado, temperatura é definida como uma grandeza física que indica o grau de agitação nas moléculas de um corpo. Se elas se movem muito é quente e se elas se movem pouco é frio.

Renê: Tava lembrando de algo assim. Agora, não é estranho que esse quente e esse frio sejam totalmente diferentes do que significam normalmente? 

Tomás: É diferente mesmo. Dois definem propriedades objetivas das coisas e os outros dois definem sensações nossas.

Jorge: É estranho. É como se um fosse real e o outro não.

Tomás: De certa forma é isso mesmo. Quente quer dizer um corpo cheio de energia térmica mas também a capacidade desse corpo de nos dar certa sensação, como esse sol de agora.

Renê: Está me dizendo que o primeiro está mesmo nos objetos e o segundo não?

Tomás: Eu nunca tinha pensado nisso, mas acho que sim. Assim como cor ou som, "quente" não existe fora de nossas cabeças.

Renê: Então nossas mentes são imateriais? 

Tomás: Que? Claro que não. De onde veio essa ideia? 

Renê: Bom, os objetos nos parecem ter cor, calor, som, mas parece que essas coisas não estão neles. Se elas não estão na matéria, não estão no nosso cérebro, que é feito de matéria. Isso significa que a nossa mente não é igual ao nosso cérebro, já que essas coisas estão nela e não nele.

Tomás:  Sim, se você pudesse olhar um cérebro como ele realmente é certamente não veria algo como cor nele, mas isso não significa que nossas mentes não são parte do cérebro, só precisamos descobrir como a consciência e as sensações são formadas por ele.

Renê: Na verdade me parece sim que as nossas sensações não podem ser materiais. A matéria, como a física nos revela, é sem cor, sem som, sem cheiro, sem calor ou nada do tipo. Mas a mente não é assim. Pensando num exemplo aqui: Imagine que todos os seres vivos do universo morreram, só resta objetos.

Tomás: Dá pra imaginar sim. Continue.

Renê: Nesse caso, ainda existiria cor ou som, por exemplo?

Tomás: Não. Sem uma mente para ter sensações nada disso poderia existir.

Renê: Exatamente. Nesse caso, matéria existe mas cor e som não existem. Isso significa que ela não pode ser a explicação dessas sensações, já que se ela fosse elas existiriam junto com ela. 

Tomás:  Não vejo motivo pra pensar isso. Não devemos apelar pra esse tipo de ideia só por não saber como a mente funciona.

Renê: É que me parece algo conceitual. Matéria não tem cor ou som ou temperatura e a mente sim.  Só de saber o que cada uma delas é  já dá pra ver que uma não pode explicar a outra.

Tomás: Então o que seria a mente se ela não é feita de matéria?

Renê: Bom, além das sensações a mente é definida principalmente pelo pensamento. Podemos dizer que a mente é basicamente sensação, vontade e pensamento, uma coisa pensante.

Tomás:  Se é o caso, como um golpe bem dado na cabeça ou uma noite mal dormida podem afetar a mente? Se ela  é imaterial, não devia depender tanto da matéria.

Renê: Ela é afetada indiretamente. É meio claro que a mente precisa dos dados dos sentidos e da memória pra funcionar. Agora, sensações e pensamentos especificamente não podem ser matéria, embora precisem dela.  

Tomás: Por qual motivo o pensamento também é imaterial pra você?

Renê: O pensamento interage com as sensações imateriais.  Além disso, ele é muito definido para ser matéria. Pense por exemplo, sei lá, num sujeito olhando pruma janela, olhando prum tijolo no chão e então a jogando nela, a arrebentando.

Tomás:  Exemplo estranho, mas dá pra imaginar. 

Renê: Bom, onde essa cena começa? Onde termina?

Tomás: Começa no homem olhando para a janela, ué. Termina com a janela quebrada.

 Renê: E por qual motivo começa e termina nesses pontos e não em outros? A matéria obedece apenas as leis da física sem nenhuma ordem ou objetivo que não estejam na mente de alguém, logo não tem um motivo exato para a sequência começar com ele olhando a janela e não com ele pegando o tijolo, por exemplo.

Jorge: Na verdade, nem é só a cena toda que fica problemática.  Quando o homem vai olhar para a janela a luz que refletiu nela vai de encontro aos olhos dele e o cérebro dele processa as informações, dai ele percebe que aquilo é uma janela, mas todos esses acontecimentos só formam uma sequência exata pra mim. Como a matéria não separa as coisas em "esse evento" e "outro evento" qualquer ordem que vemos é arbitrária, relativa a um observador.

Tomás: Me parece ser assim mesmo, qual o problema?  De novo, não é por não entendermos como tudo funciona que devemos recorrer a isso. Outra coisa: Como a matéria e o corpo interagem?

Renê: Você acha que tem alguma dificuldade na interação entre eles?

Tomás: Lógico. Se a matéria afeta a mente com sensações e a mente afeta a matéria com vontade e pensamentos, como uma pode ser totalmente material e a outra totalmente imaterial? Se a mente não tem matéria, não vejo como ela pode gerar força para mover algo físico.

Renê: Ora, a maioria das pessoas não sabe como ondas de rádio podem interagir com maquinas, mas eu nunca vi alguém dizer que por isso as maquinas não existem.

Tomás: Matéria e ondas estão bem mais próximas do que parece.  Quando você voltar a ler sobre o assunto vai entender...

Jorge:  Entendi o que tu quer dizer, Tomás! A matéria e a energia estão tão distantes em natureza pro Renê que elas não tem como agir. Elas não podem ser tão diferentes, pois ai não faz sentido uma interagir com a outra. Ia ser como você estar assistindo TV e tentar alterar o que acontece no programa.

Tomás:  Isso! Se existisse algo tão distante da matéria, não ia poder alterar nada material, seria totalmente intangível.

Renê:  Então como a mente parece tão distante da matéria em natureza? Seja lá o que a mente for, ela não pode ser material.

Jorge: Como mente e matéria não podem ser diferentes, elas tem que ser a mesma coisa. Mas não pode ser matéria...

Tomás: E que outra opção temos? É isso ou nada.

Jorge: Talvez matéria seja mente.

Tomás:  Que? 

Jorge: Pense na sua ideia das cores estarem só na mente. Você consegue imaginar uma coisa sem nenhuma cor? Sem ser transparente?

Tomás: Sem ser transparente não dá. É isso ou outra cor.

Jorge: Isso. você não pode ver formato sem cor. Isso sugere que  essas características tão mais próximas do que parece.  Essa sua coisa que tem formato nas não tem cor é estranha.

Tomás: Não sei como isso torna sua ideia mais fácil de entender.

Jorge: Vocês acham possível que na verdade não tem mentes?

Renê: Penso, logo existo.

Tomás: Mesmo toda experiência cientifica depende de alguém para a realizar e a interpretar. Minha mente é a unica coisa realmente induvidável.

Jorge:  Exatamente! Se mente e matéria não podem ser totalmente diferentes, pois ai não iam interagir, mas a mente é induvidável então obviamente só mente existe. Se parar pra pensar, não temos prova de que a matéria existe.

Renê: Na verdade eu diria que temos bastante. Tô vendo minha mão aqui sem problema nenhum.

Jorge: Mas você não as vê de verdade. Você só tá vendo sensações mesmo e não uma mão que existe sem você a perceber.  Isso elimina o problema das cores ou sensações. Esse mundo sem cores, som ou cheiros não existe, o mundo é como vemos.

Tomás: Então as coisas só existem quando alguém olha pra elas? Essa hora não tem ninguém na minha casa, então será que o meu quarto sumiu?

Renê: E como é que você diferencia estar sonhando e estar acordado então? Os dois não seriam só sensações?

Jorge: Sim, os objetos que vemos são só sensações então. Mas as coisas que não vemos não desaparecem, já que elas são sempre percebidas por alguém que pode observar todas as coisas ao mesmo tempo e pode nos dar dados a todo momento perfeitamente: O Senhor.

Renê: Então Deus estaria enviando sensações para nós?  Nos fazendo pensar que tem um mundo a nossa volta? Que coisa bizarra em...

Jorge: Até que tem um mundo, ele só não é o que pensávamos ser antes. Isso responde sua pergunta dos sonhos até. Deus nos dá as informações e quando alguém não as capta direito ou vê algo diferente delas que chamamos de alucinações e sonhos.

Renê: Como exatamente Deus nos deixaria então pensar que a matéria existe? Ele é bom por definição e você tá  dizendo que Ele é mentiroso!

Jorge: Uma falha nossa. Assim como Ele permite que alguns pensem que podem matar outros. Ele não nos trata como fantoches mas nos deixa aprender.

Tomás: Então sua ideia é tipo aquelas da Índia? Você acha que só existe Deus e nós somos um tipo de sonho divino?

Jorge: Não é bem assim. Claro que nós todos existimos individualmente de maneira diferente de Deus. Embora próximos graças as sensações que ele manda pra nós. Se tudo é Deus, ele estaria beeem confuso.

Renê: Isso. Nós sabemos que somos diferentes do mundo em si. Deus jamais poderia estar errado assim. Claro que Ele também não nos deixaria acreditar em matéria que não existe...

Tomás: Vai que é algum tipo de aprendizado, hehe.

Jorge: Isso não pode ser possível. Ele já sabe de tudo.

Tomás: E como você sabe disso? Fazer mentes verem um mundo irreal não está muito além do que nossa tecnologia permite. Não acho que vamos ver uma maquina assim, mas deve ser possível.

Jorge: Ele faz mais do que isso. Dois mais dois dão quatro sempre?

Tomás: Necessariamemte sim, o resultado tá implícito  nos nomes. É mais uma questão de definição. Pra que a pergunta?

Jorge: Eu preciso dela pro argumento. Então você acha que números são só definições? 

Tomás: Claro. Você não vê um dois ou um sete andando por ai. Números e outras definições são criações nossas para entender o mundo.

 Jorge: Então está me dizendo que o motivo de eu, por exemplo, usar a palavra aranha para falar de dois bichos é só por eles se parecerem? Não existe algo como a universal aranha?  

Tomás: Sim. Não existe nada além de animais semelhantes que você classifica como iguais.

Renê: E qual a semelhança entre eles? Será que não seria...

Jorge: Eles dois serem aranhas! Sua ideia deles serem diferentes precisa que eles sejam iguais em algo, então o universal está salvo.

Tomás: Bom, não saberia como responder essa agora. Diga o argumento ai. Dois mais dois dá quatro. Que que isso nos diz?

Jorge: Bom. Isso sempre acontece, certo? Essa verdade não é eterna? Não seria verdade mesmo que não existisse nem três coisas no mundo?

Tomás: Podemos dizer que sim, pro argumento rolar. Então existem verdades que são eternas. Continue.

Jorge: Bom, um filosofo grego percebeu isso e pensou que isso significava que as verdades existiam sozinhas, eternas, imutáveis, perfeitas. 

Tomás: Uma ideia bem idiota. Uma verdade, se isso existe, como "Um gato tem quatro patas" ou  "Se o governo gastar mais, vai aumentar a divida pública"  só faz sentido para uma mente. Não é o tipo de coisa que existe por si só. 

Jorge:  Exatamente o que eu ia falar. Se as verdades precisam de uma mente para existirem e essas verdades são eternas então precisamos de uma mente eterna.

Tomás:  Nenhuma mente que eu vi até hoje é eterna, todas tiveram um começo e tem ou terão fim.  Se essa mente existe, não é humana.

Renê: Não poderia ser, já que a mente humana, mesmo provavelmente indestrutível pois é imaterial, falha direto. Se fosse uma mente como a nossa, então ela ia perder as verdades toda hora. Dois mais dois não iam dar quatro direto, haha.

Jorge: Isso, hahaha. Teria que ser uma mente então que é eterna, infalível, necessária, sabe de tudo e não depende do mundo material para existir. Como chamaríamos essa mente?

Renê: Parece bastante  com alguns conceitos de Deus. É perfeito pra sua ideia.

Jorge: Exatamente! Deus sabe todas as verdades, então ele não pode se enganar.

Tomás: Isso significa que Ele não poderia pensar que é seres diferentes, tornando impossível nós sermos parte Dele. É louco como o resto, mas faz sentido nas suas ideias. Ia perguntar sobre o livre arbítrio, mas essa ideia lhe ajuda.

Renê: Livre arbítrio é? Você também acredita que somos livres?

Tomás: Na verdad...   Não. É que se você vai pensar numa ideia assim, é melhor já ter todas essas ideias estranhas mas que todo mundo gosta de acreditar.

Renê: Bom, ainda falta um problema. Se o mundo não passa de sensações, como é tão complexo? Se você for estudar o mundo quântico por exemplo,  o que vemos revela uma estrutura por trás bem maior que sensações.

Jorge: E como a matéria explicaria isso melhor? Também é complexo mesmo que tu considere essa estrutura como algo real.

Renê: Pior que é interessante. Eu estava olhando e esses fenômenos tem inúmeras explicações diferentes mas cientificamente falando não dá pra saber qual é a certa, parece.

Tomás: Isso é verdade. A ciência não parece ser capaz de dizer muito sobre a natureza real das coisas. Basta ver o quanto discutimos até aqui sobre o que são sensações e o que as causa aceitando a mesma ciência.

Jorge:  Você diria que conhecimento cientifico é diferente do das sensações? Esses conhecimentos não nos disseram muito sobre elas.

Tomás: Como assim diferente? 

Jorge: Tipo, se um homem nasce cego e vira cientista. Ele aprende tudo sobre azul cientificamente mas nunca vê azul. Se um dia ele deixar de ser cego e olhar pro azul ele aprende algo novo?

Tomás: Acho que sim. Ele aprenderia como o azul parece para um humano.

Renê: Então você está se contradizendo! Se o homem sabia tudo sobre a matéria que envolve azul mas não conhecia azul então as sensações não são matéria!

Jorge: Isso mesmo! Você acaba de admitir que estava errado, cara.

Tomás: Bom, com o conhecimento de hoje, ele não saberia tudo. No futuro nem se sabe.

Renê: Mas existe uma diferença bem real entre conhecimento científico e entre o que está por trás das sensações.

Tomás: E qual seria essa diferença tão clara?

Renê: O edital do concurso só pede um, hahaha.

Tomás: Hehe. Justo.






domingo, 28 de julho de 2019

Henrique

Henrique: Tava olhando ontem a carga tributária daqui.

Bernie: Se não tô enganado ela chega a uns 33% do PIB atualmente, né?

Henrique: Por ai.

Milton: Por ai mesmo. Com esses serviços  públicos ridículos que temos você espera algo bem menor...

Henrique: O pior é que isso afeta muito o consumo, tudo que você compra é caro.

Bernie: Mas isso é uma falha da fonte do imposto mesmo, não da quantidade. Basta parar de taxar consumo e produção e taxar bancos e grandes fortunas.

Milton: Você sabe que se taxarem os bancos eles simplesmente vão repassar os gastos pros consumidores, né? Taxar bancos é taxar quem precisa deles, ou seja, a população.

Bernie: Você só esquece que a população JÁ é taxada enquanto banqueiros e empresários enriquecem. Taxando os segundos para financiar serviços para os primeiros é o único jeito de garantir justiça e igualdade.

Milton: Você vai é garantir pobreza e ineficiência. O governo tem é que diminuir a participação na economia e os impostos, deixando assim o mercado gerar renda.

Bernie: E também gerar desigualdade. Sem seus direitos assegurados os pobres simplesmente serão explorados e se tornarão mais pobres e os ricos mais ricos.

Milton: Não vejo como o pobre perderá dinheiro com menos impostos e monopólios causados pelo Estado.

Bernie: Sendo explorado. O dinheiro extra vai todo para o patrão.

Milton: O patrão que observou que tinha uma necessidade no mercado, se arriscou investindo o que era preciso e montou a empresa. Deixe ele ganhar um pouco mais do que os outros.

Bernie: Sim, agora bota esse patrão sozinho na mata sem nenhum funcionário e vê se ele consegue se dar bem. A verdade é que sem a ajuda dos seus funcionários e da sociedade em geral os ricos não seriam nada. Mesmo assim eles acham que não tem problema nenhum em juntar todas as riquezas para si? 

Milton: Elimine um funcionário qualquer de uma empresa. Ela sofre muito? Até que não. Agora elimine o lider dela. Ela sofre muito? Talvez chegue a falir. O funcionário comum é substituível e se sustenta com seu emprego enquanto o chefe, na maioria das vezes, é insubstituível  e sustenta várias e várias pessoas com seu emprego. Sugerir que a desigualdade entre eles não deve existir só pode ser piada.

Bernie: Mas o chefe pode ter mais dinheiro. Eu só sugiro que ele divida um pouco. Precisamos combater a desigualdade e a injustiça, e para isso precisamos de grana. Nada mais justo que aquele que enriqueceu com o trabalho da comunidade financiar a melhora dela. Só assim teremos uma sociedade mais justa e democratica. 

Milton: Justa? Você acha justo alguém gerar renda e empregos e ser penalizado com impostos enquanto outros ganham as coisas de graça? Com um plano desses  você vai fazer o homem que sonha em ser rico e tem talento ficar desmotivado e o rico mesmo ir embora do país para não ser roubado. Assim, você tem menos emprego, menos renda e mais roubo.

Henrique: Concordo em parte com você, mas acho que o que o Bernie tá falando faz sentido. Ele só cometeu um erro grave.

Bernie: E qual seria esse erro?

Henrique: Você se concentra na pobreza e desigualdade mas não no que as causa. Quem trata os efeitos mas deixa a doença?

Bernie: Não entendo direito o que você quer dizer. Você tem algum jeito novo de derrubar a causa da injustiça?

Henrique: Pensei em algo aqui faz um tempinho. Para te ajudar a entender eu te pergunto: Como costuma-se justificar éticamente o direito a propriedade?

Bernie: A ideia geralmente é a de que cada um é dono de si mesmo, algo como autopropriedade, inclusive propriedade sobre seu trabalho. Quando você trabalha na terra, por exemplo, o seu trabalho se mistura com ela, acho, e o resultado do trabalho vira sua propriedade ou coisa assim. O que isso tem a ver?

Henrique: Bom, o que seriam recursos naturais?

Bernie: Coisas que existem sem precisarem do trabalho humano. Ainda estou querendo saber o que isso quer dizer. Seu ponto é de que recursos naturais não podem ser propriedade?

 Henrique: Isso! Acredito que o problema está ai. O capitalismo atual não diferencia as coisas entre o que pode ou não ser propriedade. A causa do problema é essa.

Milton: Mesmo que a teoria liberal clássica não consiga justificar a propriedade de recursos naturais, não tô entendendo o que isso tem a ver com economia. Ética não nos diz o sistema econômico que funciona. 

Henrique: Vou tentar então algo menos abstrato: Imaginem um capitalista com um bom dinheiro no bolso e vontade de viver bem. Um dia, esse homem ouve de uma fonte confiável que um certo terreno que não vale nada hoje valerá muito dinheiro em dez anos devido a umas obras e aberturas de lojas que vão acontecer na área. O que ele faz?

Bernie: Ele vai comprar o terreno e esperar ficar rico, ué. É o investimento perfeito.

Henrique: Dai os anos passam e o terreno vale muito. Esse homem se tornou rico sem mover um dedo. Eu lhes pergunto: Se o trabalho que valorizou o terreno não veio do dono, de quem veio?

Bernie: Da comunidade envolta! Com as obras e as lojas o local se tornou valorizado e passou a valer muito. Esse homem do exemplo cobra a comunidade por ela ter produzido!

Milton: Você acha então que isso seria a causa do aumento da desigualdade?

Henrique: A principal. Pense comigo, o trabalho, com o avanço da tecnologia e educação, vem se tornando mais produtivo mas a população parece ter cada vez menos dinheiro que os grandes!  Basta pensar: é possível produzir sem estar em um local fisico, em terra ou mar? 

Milton:  Não né.

Henrique: A quantidade de locais no mundo não é limitada? 

Milton: Sim. A terra é naturalmente um monopólio. Como quase toda a terra utilizável atualmente é ocupada ao menos nas cidades você só tem acesso a ela comprando ou alugando.

Bernie: Um monopólio que é uma necessidade para você poder produzir qualquer coisa? Isso me cheira a exploração...

Henrique: Isso! O trabalho aumenta sua produtividade, mas os donos da terra aproveitam sua enorme vantagem para confiscar mais riqueza com o aluguel. É uma relação de parasitismo ainda maior do que na Era Medieval!

Milton: Pior que é verdade, hahaha. Os nobres medievais pelo menos tinham que defender os servos. Mas qual sua solução? Você quer que o governo nacionalize todas as terras privadas?

Henrique: De jeito nenhum! Além disso claramente não funcionar, ninguém, como eu acredito ter estabelecido quando falávamos de ética, é dono real dos recursos naturais, seja o governo ou o homem comum. A minha ideia é que seja cobrado um imposto sobre o valor da terra, desconsiderando qualquer melhora na área cobrada, como uma casa construída no local. Seria o jeito do individuo pagar por poder excluir outros do acesso a área que é naturalmente de todos. Uma taxinha em poluição ia ser boa também, já que está contaminando o que é de todos.

Milton: A sua ideia é outro imposto? Como isso resolveria o problema da taxação pesada na produção e consumo que sempre cai nos mais pobres?

Henrique: O imposto! Como temos propriedade sobre o que nosso o trabalho gera e, devido a umas contas que fiz e uns números que pesquisei, o imposto sobre terra poderia sustentar um governo eu defendo que esse imposto substitua todos os outros impostos.

Bernie: Daria pra sustentar um governo? Isso é interessante. Isso incentivaria o governo a melhorar a situação de alguém?

Henrique: Sim. Se o governo quisesse aumentar imposto em uma área, ele teria que a melhorar consideravelmente, já que só assim o valor da terra aumentaria. 

Milton: Impressionante! Você conseguiu achar uma maneira de tirar o governo de cima do mercado! Sem a taxação sobre a produção e consumo, os salários seriam bem maiores, a produção seria incentivada e o mercado poderia gerar um equilíbrio bem melhor. De todos os impostos, esse me parece o menos pior até, hehe.

Bernie: Mas isso seria uma taxação progressiva? Me parece que isso nos impediria de taxar fortunas.

Henrique: Bom, quem seriam os donos das maiores propriedades, os trabalhadores comuns ou os ricos?

Bernie: Os ricos, claro.

Henrique: Além de terem mais propriedades, os ricos não moram em locais muito melhores e mais caros?

Bernie: Moram. Acho que entendi! Como os ricos moram em lugares mais caros os impostos sobre eles serão maiores! Nenhum rico vai morar em bairro perigoso, então eles não tem como escapar disso!

Milton: Além disso, a sonegação seria bem mais difícil com um só imposto e em algo imóvel como a terra. Seria fácil pegar os valores certos e cobrar corretamente.

Bernie: É uma ideia interessante, Henri. Isso seria o que exatamente?

Henrique: Como assim?

Bernie: Tipo, eu me vejo como um capitalista mais social-democrata e acho que o Milton é mais libertário, como você acha que sua ideia ficaria?

Henrique: Eu me considero mais liberal clássicão mesmo, tipo John Locke, mas acho que isso seria um capitalismo diferenciado. Nem pensei no nome.

Bernie: Tem muito a ver com a terra. Que tal algo como Geoismo? "Geo" é terra em grego e soa legal.

Milton: Soa mesmo, e também familiar...

Henrique: Depois pesquisamos então. Acho que a ideia é bem interessante e depois tenho que ver se precisa de ajustes ainda.

Milton: Sim, mas faz sentido. Vale a pena olhar bem.

Bernie: Vale mesmo. Esse sistema atual é bem injusto.


sábado, 20 de julho de 2019

Frederico


Lucas: Cara, acabei de perceber que o Estado não tem autoridade.


Frederico: Realmente. Qual o motivo dessa revelação obvia?

Lucas: Tive que acompanhar minha tia pra igreja e lá o pastor leu uma passagem que falava "Toda autoridade vem de Deus" ou coisa assim.

Frederico:  Dai você percebeu que como não tem Deus essa autoridade não tem fonte?

Lucas: Isso! Sem Deus, sem autoridade.  O Estado viola nossos direitos naturais todos os dias e ninguém faz nada!

Frederico: Que o Estado não tem autoridade real não existe dúvidas. Um bando de malandros dominam um local usando a força e então inventam algum motivo para continuarem no poder. Mas tem algo que me preocupa no que você disse.

Lucas: O que seria?

Frederico: Você claramente ser um cristão! Pior, um pastor! De onde mais viria esse papo de "direitos"?

Lucas: É evidente que todo homem possui direitos naturais. Não precisa creer em nenhuma divindade para se ver isso, talvez até o contrário...

Frederico: E onde estão esses direitos?  Certamente não fora da cabeça dos homens! Uma lagartixa come uma barata e não se vê nenhum papo de direitos! Um leão mata uma zebra e não se vê nenhum papo de direitos! Esses "direitos" não passam de uma invenção criada por gente patética para tentar se defender dos mais forte usando conversa mole!

Lucas: Está me dizendo que não vê nada de errado quando ouve falar de um assassinato ou estupro? 

Frederico: Claro que sim, sou um homem como você com empatia e outras coisas do tipo ué. Mas isso não cria valores morais válidos fora da minha cabeça.

Lucas: Mas eles existem fora da sua cabeça! A ciência mostra isso! Basta olhar os animais que se ajudam e tal.

Frederico: Isso não passa de uma adaptação! Indivíduos com tendência a se ajudarem sobrevivem melhor que solitários, então se reproduzem melhor. No fim, seus descendentes mostram a mesma tendência e sobrevivem por estarem unidos. Isso mostra  apenas que esse comportamento é uma simples programação biológica e nada mais, seja nos outras animais ou em nós, os animais "racionais".

Lucas: Você não percebe o que seu ponto de vista quer dizer? A mesma mente que lhe diz que matar é errado lhe diz que tem uma cadeira ali. Como você pode dar atenção a ela em um momento e a ignorar em outro?

Frederico: Sabendo como ela surgiu, confiar nela é um erro.

Lucas: Como assim? 

Frederico: Simples, a mente humana só pode ter surgido de uma dessas três formas: necessidade, design e acaso. Foi por algum tipo de necessidade, como no Idealismo?

Lucas: Não. Não existimos por bilhões de anos e não existiremos por bilhões de anos.

Frederico: Foi então por design?

Lucas: Também não. Um design mesmo só pode ser feito por uma mente. Essa mente também precisaria de um designer, que também precisaria de um designer até chegarmos numa mente que existe por si só, o que é impossível.

Frederico: Exatamente. Isso significa que a mente surgiu pelo acaso ou, sendo mais especifico, a seleção natural.

Lucas: E qual o problema nisso? Os menos inteligentes não se reproduziram tão bem quanto os espertos, gerando uma raça inteligente a longo prazo. 

Frederico: Lembra quando você me mandou um link  sobre os religiosos terem mais filhos dai você disse que "essa besteira só tá viva por se espalhar feito vírus"? Alguns acham que existe uma tendência genética a acreditar em religião. 

Lucas: Não entendo o que isso tem a ver. Só se você querer dizer que...    

Frederico: Uma tendência genética que gera uma crença falsa sobrevive por fazer o programado ter muitos filhos, passando assim os genes. A seleção natural não se importa com a verdade!

Lucas: E quanto a ciência? Com ela, podemos deixar de especulação e fazer testes que fazem previsões que podem ser testadas!

Frederico: Veja o cristão em você outra vez! Agora com sua própria revelação. A ciência é criada por homens, moldada com as regras dos homens e interpretada por homens! Se a mente humana é falha, tudo que ela produz também é.

Lucas: E quanto as previsões científicas? Einstein tinha mencionado que sua Teoria da Relatividade teria certas implicações se fosse certa e as detalhou. E essas implicações foram confirmadas por outros cientistas muito depois! Não tem como isso ser erro.

Frederico: "Paranormais" também acertam "previsões" e mesmo assim não passam de farsa! A ciência de Aristóteles e a de Newton também previam tudo antigamente e mesmo assim todos sabemos que elas não valem nada!  A ciência "evolui" construindo brinquedos melhores, mas isso não prova que ela está se aproximando da "verdade".

Lucas: A ciência vai se aperfeiçoando, ué. Uma hora ela chegará na verdade. Basta aguardar, cada erro corrigido nos aproxima da verdade. 

Frederico: Que verdade? O homem pode ver seu próprio ponto de vista e julgar que o mundo é assim. Um morcego vê o mundo de outra forma totalmente diferente e também deve julgar seu ponto de vista como certo. Mas como se decide algo assim? Com que critério?

Lucas: O que se aproxima do mundo real, ué. 

Frederico: Não acho que estamos numa posição que nos permite separar a realidade em "mundo real" ou "mundo aparente". Somos primatas em um planetinha patético, e nada mais do que isso.

Lucas: Você realmente me deu muito para pensar...

Frederico: Cara, ideias como "certo e errado" e "real ou irreal" não fazem mais sentido. Quando se vê nossa origem, se vê que temos que ser mais modestos do que nossos antepassados religiosos. Sem um Deus para criar um cosmo racional e valores morais objetivos essas ideias caem na hora.

Lucas: Como ninguém percebeu isso ainda, se as coisas são assim?

Frederico:  Me parece orgulho demais para admitir nossa pequenez e falta de raciocinio. O homem se livrou de sua corda mas ainda pensa que está amarrado...

Lucas:  Entendo seu ponto de vista. Valeu pela conversa! Vou pra casa e depois verei se minha tia quer que eu a acompanhe outra vez. Tchau!

Frederico: Valeu!  









Novena de São Luís IX, Rei da França

  Orações da novena de São Luis, Rei da França Dia 1(16 de agosto) Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, amém. Senhor Amado, nós Lh...