Murray: O Estado é necessariamente ladrão, já que só sobrevive se confiscar o capital alheio. Ele não deve existir.
Henrique: E por que você pensa assim?
Murray: Me parece obvio que ele viola a lei natural, válida em todos os momentos, pois ataca a autopropriedade.
Henrique: Mas nenhuma sociedade sem Estado foi grande coisa, não acha que ele é necessário ou inevitável?
Murray: Não é nada, só atrapalha. Fora que o Estado é injusto, então não deve existir de forma alguma. A escravidão não deveria voltar mesmo que fosse vantajosa.
Henrique: Claro que não. Mesmo assim, como é essa propriedade? Como você pode ser propriedade de si mesmo?
Murray: Estou falando da autopropriedade, pois a lei natural revela que todo homem é senhor de si, que seu corpo é seu domínio.
Henrique: Mas como você pode ser seu dono? Você seria a propriedade e também o dono, algo sem lógica.
Murray: Isso é mera semântica e nada mais, todo mundo entende o que eu digo quando eu falo "essa é minha mão".
Henrique: Acho que tem razão. Então a escravidão é errada por todo homem ser senhor de si?
Murray: Exato. Cada um tem o direito de fazer o que quiser com o próprio corpo, salvo desrespeitar o direito dos outros, o que significa que nenhum homem pode ser minha propriedade, exceto se ele aceitar que seja assim.
Henrique: Sim, mas como o Estado viola meu direito?
Murray: Sendo o dono de si, você é o dono do que produz, o que significa que ninguém pode tirar de você o que o seu trabalho gera. Os impostos não são coletados com ameaça de violência?
Henrique: Isso é verdade. Nesse caso, o imposto pega injustamente que é meu?
Murray: Você entendeu. Isso significa que o Estado se sustenta de maneira injusta e merece deixar de ser.
Henrique: Então tudo deve ser privado? Se sou senhor de mim mesmo, faz sentido, já que me roubar pra me pagar um presente ainda é roubar.
Murray: Sim, é o justo.
Henrique: Mas eu sou o senhor de mim mesmo?
Murray: Claro, é a única opção. Ou você é dono de si ou de outro ou de uma comunidade, e só o primeiro caso faz sentido.
Henrique: Mas você não poderia não ser o dono de si e nem ninguém ser seu dono? Assim ninguém teria propriedade.
Murray: Já ouvi isso antes, mas ser o proprietário de algo significa ter o direito de usar a propriedade, então se ninguém é seu dono você não tem o direito de usar o próprio corpo! Isso que significaria que cada movimento seu é uma violação de uma propriedade que não é sua, hehe.
Henrique: É, podemos descartar isso totalmente, haha. Então eu poderia ser propriedade de uma comunidade?
Murray: Primeiro, ser propriedade de outro homem sem um contrato ou coisa assim é escravidão, mesmo em grupo. Segundo, como você faria para ter propriedade parcial de alguém mas sem ser proprietário de si ou de qualquer outra coisa? Não tem lógica alguma.
Henrique: Outra coisa que pensei é que se a comunidade é minha dona, então eu precisaria da permissão de todos para qualquer ato meu, o que me obrigaria a pedir permissão de todos para tudo, tornando a vida virtualmente impossível. Até pedir permissão seria impossível, haha.
Murray: Haha, exatamente. Nesse caso, podemos descartar essa opção.
Henrique: E que tal eu ser o dono de mim mesmo mas o meu trabalho ser de todos? Os argumentos esquerdistas sobre distribuição de renda só fazem qualquer sentido real se eles pensam em algo assim.
Murray: Ai você produziria algo e não teria direito ao que produziu. Você poderia trabalhar o dia todo plantando e no fim a comunidade resolver não te dar nada, lhe deixando morrer.
Henrique: É, isso me parece ruim, fora que meu trabalho é meu e ele está no que produzo, então o que produzo tem que ser meu.
Murray: Isso. Só sobrou você ser o seu dono ou outro homem. Outro sujeito ser seu dono seria escravidão, além de exigir um critério para ser o dono, que não existe.
Henrique: Sim, critérios como diferença de inteligência são arbitrários e o nosso senso ético nos revela que a escravidão é ruim, então essa opção é descartável. Mas ainda não vejo motivo pra sermos donos de nós mesmos.
Murray, E por que não?
Henrique: Bom, como adquirimos propriedade de um objeto?
Murray: Três formas: misturar com o objeto nosso trabalho, comprar esse objeto ou ganhar esse objeto como presente. Não existem outras formas.
Henrique: Você acredita em reencarnação ou na pré-existência da alma como os seguidores do Joseph Smith?
Murray: Não acredito nesse tipo de coisa. Que importância tem esse assunto?
Henrique: Bom, se você não é uma alma totalmente separada do corpo, então você e ele começaram a existir juntos.
Murray: Exatamente.
Henrique: Nesse caso, como eu poderia trabalhar no meu corpo para ele virar minha propriedade?
Murray: Não teria como.
Henrique: Poderia eu então comprar ou ganhar meu corpo?
Murray: Não teria jeito. Todas essas ações exigem que você exista antes do objeto, e você não existia antes do seu corpo.
Henrique: Então como eu me tornei proprietário do meu corpo? Nenhum método de virar proprietário é válido aqui.
Murray: Não sei. Até ai, não sei como o universo começou mas nem por isso paro de acreditar que ele existe, haha.
Henrique: Mas você tem amplas, muito amplas, provas de que o universo existe. E a autopropriedade?
Murray: Sabemos que existe certo e errado e vimos que essa é a única explicação razoável disso. É simples.
Henrique: Mas já vimos que essa opção tem que ser descartada por nosso corpo não poder se tornar propriedade nossa, então tem que ter outra opção.
Murray: E qual? Já vimos que as outras alternativas falham. Além disso, as loterias de olho nos revelam que a autopropriedade é a base da ética.
Henrique: E o que é isso? Coisa de filme?
Murray: Um experimento mental sobre um tipo de programa governamental para ajudar cegos que ajuda quando o assunto é ética.
Henrique: Como seria esse programa?
Murray: Imagine que todo cidadão com dois olhos saudáveis tem o nome pego pra fazer sorteio. Os escolhidos são obrigados a dar um dos olhos pra fazer transplantes para os cegos, assim os cegos enxergariam enquanto os que "doaram" ainda poderiam ver.
Henrique: Isso seria bizarro e horrível. Ninguém concordaria com essa maluquice.
Murray: É verdade. O negócio é que além de mostrar de cara que esses que vivem reclamando de desigualdade defendem práticas imorais para resolver esse "problema", esse experimento mental nos mostra que a autopropriedade é algo impossível de se negar.
Henrique: Como?
Murray: Ele revela que arrancar algo do seu corpo sem permissão sua é errado, mesmo para ajudar os outros. Por qual motivo é errado? Porque é seu e de mais ninguém.
Henrique: Não acho que seja assim, já que existem várias outras teorias éticas que discordariam desse programa sem achar que você é dono absoluto dos seus olhos. Essa loteria só mostra que nossa integridade é valiosa, mesmo que o dano físico ou roubo seja por uma boa causa.
Murray: Sim, eu lhe dou o motivo da integridade ser valiosa.
Henrique: Você dá um possível motivo, mas talvez não seja realmente esse. Se você quiser refutar as outras teorias...
Murray: De qualquer forma, é fato que eu tenho o direito de utilizar o meu corpo, então sou proprietário dele. Está ai a confirmação.
Henrique: Mas não precisa ser o dono de uma coisa pra a usar. Por exemplo, você pode usar uma casa alugada mas ela não é sua.
Murray: Mas ai existe um proprietário e já vimos que nenhum homem pode merecer ser o proprietário de alguém sem um acordo entre as partes. Quem é o nosso dono?
Henrique: Só pode ser Deus. Como Criador de tudo, somos produtos de Seu trabalho, então Sua propriedade.
Murray: O que? Você não acha que a ética pode ter uma base mais rigida? Se algo divino existe ou não, não é assunto ético.
Henrique: Eu diria que é, pois Ele é a base da ética. Podemos falar muito do que é certo e errado, mas uma hora vamos precisar perguntar o motivo de algo ser certo e errado, discutido na metaética.
Murray: Mas pessoas sem qualquer crença podem ser boas, então não sei como algo sobrenatural pode estar envolvido com o certo e errado.
Henrique: Sim, podem. Existe uma distinção entre saber que algo é bom e saber o porquê de algo ser bom. É como alguém que sabe intuitivamente que um sujeito é bom sem o conhecer muito bem.
Murray: Mas nós estávamos aqui falando de ética e de coisas como a escravidão ser ruim mesmo sem precisar falar de nada divino.
Henrique: Sim, você sabe que escravidão é ruim, mas não sabe o motivo e tentou dar uma explicação errada. Agora estou te dando o motivo certo: somos propriedade de Deus, então nenhum homem pode ser dono de outro.
Murray: Então você acha que sem um deus não existe algo certo?
Henrique: Isso. O mundo não é feito de matéria que é movida pelas leis da física de forma a gerar objetos e seres vivos?
Murray: Exatamente.
Henrique: Mas se tudo não passa de combinações materiais, partículas se unindo sem uma ordem maior que as das leis impessoais do universo, qual é a diferença entre desmanchar uma combinação viva e uma não-viva?
Murray: A primeira sente dor?
Henrique: Mas ai você pressupõe que dor é algo ruim quando tem que provar que algo é ruim. Se tudo é material movido pelas leis físicas, então matar alguém é como "bagunçar" umas pedras que estão no chão. Elas estão juntas sem ordem real, apenas graças a gravidade, então não existe uma ordem que é interrompida. Os homens seriam só animais mais expertos numa visão biológica e só partículas juntas na física. Sem valor algum de qualquer forma.
Murray: Sim, eu realmente fiz uma petição de principio. Mas as pessoas tem valor, isso se vê claramente.
Henrique: Eu não estou duvidando disso. O lance é que se Deus não existe, não existe certo e errado e tudo é permitido, incluindo genocidio, estupro etc. Isso vimos, pois só matéria e leis impessoais não podem explicar a ética.
Murray: Então seu argumento é que certo e errado só existem se um deus existir mas eles existem, então ele existe?
Henrique: Exatamente. O materialismo não pode explicar a ética, mas ela existe, então Ele que a garante, também.
Murray: Até faz sentido, só tem um problema.
Henrique: Qual?
Murray: O certo é certo por ser escolhido pelo divino ou o divino escolhe o certo por ser certo?
Henrique: Como assim?
Murray: Por exemplo: o divino ama ser generoso por ser generoso ser bom?
Henrique: Não, eu diria que não. Isso por que ai existiria um certo e errado independente de Deus, o que é impossível por não existir nada capaz de julgar O Supremo, que é acima de tudo.
Murray: Então ser generoso é bom pelo divino ter escolhido? Então ele poderia ter declarado que ser egoísta é bom?
Henrique: Também não, pois Deus mesmo tem Sua natureza que é boa, pois Ele é Supremo, então o que se aproxima Dele também é bom. Isso significa que Ele é generoso, e por isso ser generoso é bom.
Murray: Então a natureza divina é a fonte do certo e o errado?
Henrique: Isso mesmo. Como Supremo, Ele é o padrão que a criação deve se inspirar pra ser boa. Assim, o certo e o errado vem de Deus mas não são arbitrários por virem de Sua natureza.
Murray: Bom, parece que a matéria não pode justificar a ética e Ele pode, então podemos saber que Deus existe por ser a base da ética, mesmo.
Henrique: Exatamente. Então nossa situação é como um aluguel, Deus é proprietário de nós e de tudo mas nos deixa usar se cuidarmos bem.
Murray: Acha que isso é melhor que ser seu senhor?
Henrique: Sim, pois além da autopropriedade ser sem base, é uma ética aterrorizante.
Murray: Como?
Henrique: Bom, na autopropriedade eu só tenho a obrigação de não violar o direito do outro, certo?
Murray: Isso mesmo.
Henrique: Então eu não preciso, por exemplo, alimentar meu filho, certo? De fato, me obrigar a alimentar ele seria errado.
Murray: É verdade. Você poderia não ajudar ninguém por não violar diretamente a propriedade alheia. Não poderia matar ninguém, mas poderia não ajudar quem precisasse.
Henrique: Além disso, se alguém racionalmente decidisse se matar ou coisa assim, eu não poderia impedir, por ser direito desse alguém destruir sua propriedade, certo?
Murray: Sim, seria assim mesmo.
Henrique: Outro problema é que eu só poderia tocar em alguém se essa pessoa deixasse, mas como então fazer uma cirurgia em alguém inconsciente que não sabia que ia precisar então não deu permissão? Ou caso eu visse uma idosa prestes a ser atropelada e a puxa-se, não seria isso outra coisa que ela não teria como consentir?
Murray: Talvez você pudesse se soubesse que ela ia deixar. A maioria das pessoas lhe daria a permissão nesse caso, só conhecer o ferido pra saber se ia deixar.
Henrique: Mas ai teríamos que aceitar coisas como um marido pegar a esposa inconsciente dizendo que ela "certamente deixaria", e isso seria bem estranho.
Murray: Seria mesmo, realmente daria problema...
Henrique: Bom, acho que quase todo mundo ia concordar que devemos ajudar os outros mesmo sem o consenso deles ou nosso e só a propriedade divina explica isso, pois devemos garantir que o que é de Deus não "quebre". Nesse caso, a propriedade divina viola menos nosso senso ético que a autopropriedade.
Murray: Entendo, olhando bem eu concordo. Nada de direito a suicídio e se vender a escravidão, então. A autopropriedade então é um jeito de dizer: "Deus é o dono de mim mas eu cuido"?
Henrique: Por ai. Não somos nossos donos, mas podemos dizer que sim pra fins práticos.
Murray: Então voltamos para o tema inicial: o Estado viola nossos direitos, então não deve existir.
Henrique: Bom, se conseguíssemos provas de que Deus deseja que exista o Estado, não seria assim.
Murray: Sim, mas isso exigiria algum tipo de revelação, e não é o tema no momento. Então podemos dizer que o Estado viola nossos direitos.
Henrique: Estava pensando na ideia, e acho que não seria assim, pois me parece que tem como sustentar um governo sem violar a autopropriedade e que sua ideia violaria nossos direitos.
Murray: O único direito que existe é o da autopropriedade, o resto é invenção estatal.
Henrique: Sim, o lance é que nem tudo é permitido pela autopropriedade, obviamente você não pode desrespeitar o direito dos outros, e eu diria que é isso que você está propondo.
Murray: Como? O Estado viola a propriedade privada a todo momento por usar a força pra ter acesso ao que é nosso.
Henrique: Quando falamos de trabalho, por exemplo, certamente é assim, mas e se existissem riquezas que não pudessem ser propriedade? Ai não íamos precisar pagar pelo direito de excluir os outros de usar essa riqueza?
Murray: Se tivesse uma riqueza assim, realmente não se poderia ter uso exclusivo sem ter que compensar os outros, de forma que um Estado talvez pudesse ser sustentado assim, mas que tipo de coisa seria essa?
Henrique: Recursos naturais. Eu não vejo como podemos ser proprietários do que não foi criado pelo homem.
Murray: E por que não? Quando eu colho uma maça, por exemplo, o meu trabalho, minha propriedade, se mistura com ela e com isso a fruta se torna minha propriedade. Qual a dificuldade?
Henrique: Bom, sim, mas isso te torna o dono da arvore?
Murray: Só esse ato não.
Henrique: Exatamente. Do mesmo jeito, você plantar te torna o dono da colheita mas não da terra, pescar te torna o dono do peixe mas não do mar.
Murray: Então o que não foi produzido pelo homem é de todo mundo? Mas ai então eu precisaria da permissão de todos para usar os recursos naturais e isso seria ridículo, como estávamos falamos.
Henrique: Não, os recursos naturais não são nossos e nem podem ser, já que nenhum homem os produziu. O lance é que claramente eles existem para serem usados, pois só podemos ter propriedade se trabalharmos em algo, o que significa que nosso direito de ter os frutos do nosso trabalho pressupõe o direito de trabalhar em algo. Esse "algo" é o mundo.
Murray: Não entendi direito. Então os recursos não são propriedade de ninguém mas um tipo de bem público que todos usam sem se apropriar?
Henrique: Por ai. O que é feito pelo homem é propriedade, mas o que não é feito por nós não é. Pra te ajudar a entender com outro argumento: imagine que eu e você naufragamos em uma ilha deserta inabitada e você desmaia por algumas horas enquanto eu fico consciente.
Murray: Ok, embora eu prefira ficar consciente, hehe.
Henrique: Justo, haha. Depois de um tempo você acorda e vê uma cerca em volta de você e eu fora dela assando uns peixes.
Murray: Isso seria estranho.
Henrique: Ao te ver acordado, eu explico que naufragamos e peguei uns peixes pra comer, mas quis defender minha propriedade então coloquei uma cerca em volta de você para que não pudesse roubar meus peixes.
Murray: Isso seria bem babaca.
Henrique: Exatamente. Como eu não te toquei, se pode dizer que respeitei seus direitos naturais, mas meu ato não te condenou a ficar preso numa pequena área, causando a sua morte se eu não ajudar?
Murray: Sim, nesse caso, você ia me impedir de poder acessar praticamente tudo que preciso pra viver, já que eu só ia poder sair se quebrasse sua cerca, desrespeitando sua propriedade.
Henrique: Então te impedir de usar os recursos da ilha não é uma agressão? Fiz algo que te ferrou todo.
Murray: Entendo. É uma agressão mesmo.
Henrique: Bom, se eu posso me tornar o dono dos recursos naturais eu poderia fazer algo como, sei lá, virar o "dono" de toda a água que a população um local é capaz de arranjar e cobrar um valor enorme pras pessoas poderem beber. Cada bem natural é limitado e seu uso é exigido para podermos fazer qualquer coisa, então o "proprietário" de um bem natural é essencialmente um agressor.
Murray: Entendi. Então eu sou o dono da minha casa mas não da área dela ou do que está embaixo? Como usar o bem então?
Henrique: Isso. O fato da separação entre o bem natural e a propriedade não ser fácil não te libera. Você não tem por si só o direito de ser o único a usar essa área, então excluir as pessoas dela exigiria algum tipo de compensação.
Murray: Logo, o governo seria financiado assim? Um tipo de imposto sobre o uso exclusivo dos bens naturais?
Henrique: Você entendeu! Embora seja justo algo sobre poluição também, por danificar o que não é seu.
Murray: Mas imaginando o imposto para um lote de terra, por exemplo, seria um preço igual por metro quadrado ou coisa assim?
Henrique: Um lote de terra num bairro bom não é mais caro que um num bairro ruim? Isso se manteria, já que a diferença entre os preços vem do trabalho envolta dos lotes que os torna mais valorizados.
Murray: Entendi. Realmente essa diferença de preço vem do que foi feito pelas comunidades envolta dos lotes e não por nada feito pelos proprietários deles.
Henrique: Isso.
Murray: E esse governo seria mínimo ou o que?
Henrique: Ia dar pra fazer um tipo de renda minima pra todos, como sugeriu o Thomas Paine, mas acho que um governo tradicional seria bem melhor.
Murray: Seria uma distorção do mercado menor mesmo.
Henrique: Sim.
Murray: Você demonstrou que algo como um Estado seria necessário para termos justiça se formos propriedade divina, mas que motivo temos pra acreditar nisso?
Henrique: Deixa eu adivinhar: você realmente não quer que o Estado exista, então vai negar que existe certo e errado para poder ignorar que a ética concorda comigo e ser um anarquista consequêncialista. Acertei?
Murray: Bom... isso não é importante. A minha motivação pra defender uma posição não torna ela certa ou errada.
Henrique: É verdade. O negócio é que todo mundo tem consciência de valores morais, já que todo mundo tem contato com eles no dia a dia, faz parte da nossa experiência como uma crença básica. Você não sente que algumas coisas são certas e outras erradas?
Murray: Claro. E que motivo temos pra acreditar nessa parte da nossa experiência?
Henrique: Já disse: faz parte da nossa experiência. Assim como temos a crença de ter mãos e a de existir um mundo além de nós por nossa experiência, temos a crença de certo e errado por nossa experiência ética. É irracional desconfiar da própria mente assim.
Murray: Então você acha que essa crença em valores é tão justificada quanto essas duas?
Henrique: Sim. Assim como as outras duas crenças, essa crença em valores surge naturalmente enquanto vivemos e só pode ser racionalmente abandonada se for demonstrado que não podemos confiar na nossa experiência nem um pouco. E qualquer argumento assim também derrubaria nossa confiança nas outras crenças que temos, inclusive as necessárias para o argumento do cético.
Murray: Mas como posso confiar nisso se existe discussão entre esse assunto? Como podemos discordar tanto sobre valores se todos os sentem?
Henrique: Olha praquele boneco ali. Nós estamos vendo ele com exatamente o mesmo tamanho e exatamente o mesmo formato?
Murray: Não tem como, já que você tá vendo de um lugar diferente do meu.
Henrique: Mas o boneco existe?
Murray: Claro.
Henrique: E as ciências formais, naturais etc não estão cheias de discussão e mesmo assim são confiáveis?
Murray: Exato.
Henrique: Então discordarmos sobre uma questão não significa que o objeto da discussão não existe, certo?
Murray: Parece que sim.
Henrique: Pois é. Discordarmos sobre valores não quer dizer que eles não existem. Fatores como tendências biológicas, criação , cultura, estudo etc podem alterar nossa percepção ética, exigindo reflexão e debate quando discutir temas mais complicados.
Murray: Bom, se essas coisas podem alterar nossa percepção também podem as criar. Podemos então dizer que essa percepção de um certo e errado são basicamente criados por esses fatores que você citou. Por exemplo, muitos dizem que a ética veio da evolução por ser útil para as tribos se unirem.
Henrique: Como assim?
Murray: Bom, se valores existem, Deus precisa existir. Se eles não existem, então só a evolução já poderia explicar nossa experiência. Não devemos adicionar itens nas explicações sem necessidade, então devemos escolher a segunda opção.
Henrique: E qual a diferença entre isso e simplesmente negar que valores existem? Você só inventou uma historinha também.
Murray: A explicação mais simples é a de que os valores são criados através da evolução. Os seres humanos precisam se unir pra sobreviver, então os que naturalmente se uniram sem brigar se reproduziram.
Henrique: Mesmo que essa seja a origem de nós sabermos que a ética existe, não significa que a origem dela seja essa. Você confunde epistemologia com ontologia outra vez.p
Murray: Talvez. Mas é a explicação superior.
Henrique: Não é, já que ela assume que os valores não existem sem nenhum argumento e ainda coloca desconfiança quanto as nossas crenças, inclusive as que provam a evolução.
Murray: Não tem argumento mesmo.
Henrique: Então não tem motivo pra aceitar essa ideia. Sem nenhum argumento para nos obrigar a desconfiar das nossas crenças, devemos confiar delas. Você simplesmente fingir que deu o argumento e então inventar uma historinha pra "explicar" a crença não faz isso.
Murray: Admito que você está certo, mas é que a vida sem Estado seria muito melhor.
Henrique: Estamos falando de ética. Esse tipo de assunto já envolve outras coisas. O lance é que a ética não nos dá nenhum motivo pra se acabar com o Estado.
Murray: Talvez. É uma discussão diferente então.
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
sábado, 7 de dezembro de 2019
Emanuel
Emanuel: Eu não sei se tem como confiar nos nossos sentidos. A realidade que vemos é de certa forma construída por nossas mentes.
Baruque: Sim, não temos como ver o mundo diretamente, mas pra que desconfiar da nossa capacidade de entender ele?
Emanuel: Outro dia conversei com um sujeito que não acreditava que conhecíamos mais que o que os sentidos dizem, então só podíamos falar do que sentíamos diretamente. Ele negava até que dava pra falar de substâncias ou casualidade.
Tomé: Isso é uma ideia muito estranha.
Baruque: É muito. Como você rebateu isso?
Emanuel: Eu mostrei a ele que, antes das experiências, temos que receber dados sensoriais. Esses dados não são de cinco sentidos diferentes mas aparecem para nós como parte de uma única experiência?
Baruque: Sim, eles são organizados por nossas mentes.
Emanuel: Então, além disso, cada experiência nossa não precisa ser de um objeto em algum lugar e em certo momento?
Baruque: Sim. Tudo que é material está no tempo e no espaço.
Emanuel: Então as nossas experiências não são moldadas pelas nossas mentes? Pois características como tempo e espaço, necessidade,possibilidade, unidade etc estão presentes em cada experiência possível.
Tomé: E de que forma essas coisas seriam criação de nossas mentes e não parte da realidade?
Emanuel: Bom, que a mente organiza nossas percepções sabemos, também sabemos que não daria para se ter experiências sem, por exemplo, algo como tempo e espaço.
Tomé: Sim, mas isso é pelas coisas estarem no tempo e no espaço, não tendo motivo pra dizer que é só uma criação mental. É verdade que toda experiência tem coisas como tempo e espaço na sua organização, mas isso se deve a natureza do mundo e não a da mente.
Emanuel: De onde vem então o seu conceito de espaço e o de tempo? Como não são sentidos diretamente, só podem ser algo que a mente produz para organizar a experiência.
Baruque: Foi assim que você venceu o cético? Defendendo que esses conceitos são algo que vem de nós e portanto podem ser usados para se referir as nossas experiências? Isso diria que as coisas não seguem esses conceitos por necessidade real, mas por nossas mentes as organizarem assim.
Emanuel: Isso mesmo. Defendi que toda experiência depende deles, então eles não podem ser negados, embora não possamos saber se eles valem para o mundo desconhecido fora de nós.
Baruque: Mas você não mostra que existe alguma diferença entre o mundo real e o que vemos e também não pode mostrar por negar acesso a realidade. Então não entendo de onde vem a sua ideia de que é tudo construção mental.
Tomé: Além disso, se as nossas experiências são causadas pelo mundo, a casualidade existe. Se a casualidade existe, então os outros conceitos necessários certamente existem, eliminando motivos para acreditar que o mundo real tem uma natureza totalmente diferente do que vemos.
Baruque: Faz sentido. Se o mundo mostra casualidade, então não é tão misterioso assim.
Emanuel: Bom, foi o que achei pra defender que esses conceitos podiam ser usados.
Baruque: Esse ponto de vista não ajuda muito já que destrói a confiança na razão.
Emanuel: Como assim?
Baruque: Ao nos impedir de acessar o mundo real, seja por vias filosóficas ou científicas, nos impede de conhecer realmente nossas capacidades cognitivas, de forma que não podemos confiar no bom funcionamento delas. Isso invalidaria qualquer raciocionio nosso, incluindo os seus.
Tomé: Então essa teoria se refuta sozinha, sendo irracional acreditar nela. Era o esperado para uma ideia tão estranha.
Emanuel: Sim, ela se refuta desse jeito. Mas se não podemos conseguir outro jeito de explicar nossos conceitos através das experiências, vamos ter que aceitar isso da melhor forma possível. Como você explica algo como conceito de espaço-tempo, por exemplo?
Tomé: Com a mudança. Eu vejo uma vela lentamente diminuir ao estar acesa e observo que ela tem um limite, uma área que não é mais vela que a cerca e muda quando ela muda, o espaço. Ao ver ela mudar e a ordem que existe nas mudanças sei que existe algo como tempo, pois ela estava apagada e agora está acessa, diminuindo então após cada mudança, sendo o tempo então só uma "medição" de mudança.
Emanuel: Entendo. Então você acha que a mudança é o que nos ajuda a ter esses conceitos?
Tomé: Claro. Pense na ideia de substância. Um mármore muda ao ser esculpido pois algumas características dele como o tamanho e o formato deixam de existir, mas algo continua ali. Esse algo é a base dessas características, que não podem existir sozinhas. A substância mármore então pode existir de diferentes formatos e tamanhos, mas os formatos ou tamanhos individuais precisam dela para existir. Podemos chamar ela de substância e eles de acidentes por não serem necessários para ela, sendo a existência de certo formato, por exemplo, "acidental" na substância.
Emanuel: Entendi. Mas as substâncias também não podem mudar, assim levando os acidentes junto?
Tomé: Também. Ao ver madeira queimar eu noto que a madeira deixa de existir e se torna algo diferente. Se não existe algo e então outra coisa não tem mudança. Também não pode existir algo e depois outra coisa sem existirem substâncias que eram e deixaram de ser.
Baruque: Mas algo continua de uma mudança a outra, certo? A matéria.
Tomé: Isso! Toda substância material é feita de matéria, que pode se tornar qualquer uma das substâncias materiais. A matéria é o que permite a mudança, pois é ela que pode ser uma ou outra substância ou ter acidentes diferentes.
Emanuel: Faz sentido! Isso explica então como os conceitos podem vir das experiências, assim tirando a necessidade de fazer com que eles sejam criação da mente.
Tomé: Isso. Vemos o mundo organizado por esses conceitos não pela estrutura das nossas mentes, mas da do mundo, então o cético estava bem louco no dia, haha.
Baruque: Haha. Mas como a mudança ocorre? Suponho que o cético pediria uma explicação disso.
Tomé: Um mármore pode se tornar uma estátua de madeira ou só de mármore?
Baruque: Só de mármore. A madeira só pode virar uma de madeira.
Tomé: Uma coisa pode virar um tipo de estátua e outra outro tipo. Isso não significa que essas coisas tem potenciais diferentes?
Baruque: Sim, já que é claro que cada coisa tem o potencial de virar algo que não é atualmente e que sua natureza determina os potenciais.
Tomé: Temos então o conceito de potência, algo que a coisa pode vir a ser. Você também acabou falando do de ato, ou o que a coisa é atualmente.
Baruque: Isso mesmo. Potência e ato existem então.
Emanuel: Podemos falar então da mudança como algo potencial se tornando atual? Tipo o café frio ser potencialmente quente e esse potencial ser atualizado pelo microondas, assim tornando o café quente.
Tomé: Isso mesmo! Assim a mudança ocorre e é apartir dela que sabemos o que é tempo, espaço e os outros conceitos que o sujeito negava. Como esse cético que tu mencionou negava tudo isso e dizia se basear na experiência é um mistério.
Emanuel: Ele parecia achar que todo pensamento nosso era um tipo de memória sensorial, então nada não particular tinha base no que sentiamos, acho.
Tomé: Um ponto de vista bem bizarro.
Emanuel: Realmente. O seu responde o dele de forma que não impede o conhecimento do mundo como o meu.
Baruque: Podemos então confiar na mente.
Emanuel: Não acho que podemos confiar nela mesmo assim. Pois a evolução gerou mentes capazes de sobreviver na natureza, não procurar a verdade.
Baruque: Como assim? O ser mais inteligente não seria mais capaz de sobreviver melhor?
Emanuel: Nem sempre. Imagine um sujeito que acha que é servo das arvores e que elas querem que ele tenha muitos filhos e netos saudáveis mas que não conte delas para ninguém. Esse sujeito não passaria seu genes?
Baruque: Passaria sim. Podemos realmente imaginar muitos pensamentos defeituosos que levariam as pessoas a ter os comportamentos certos para passar seus genes a diante.
Emanuel: Isso mesmo. Comportamentos certos podem vir de mentes com problemas, então não existe ligação entre verdade e sobrevivência. A evolução nos fez sem buscar nos dar mentes confiáveis.
Tomé: Isso mesmo. Pense em desenvolver inteligência como desenvolver resistência a venenos que não existem no habitat natural da espécie. Acha que é seguro contar que seria desenvolvida resistência para um veneno que não existe na área?
Baruque: Isso seria bem improvável, pela seleção natural não exigir isso.
Tomé: Da mesma forma, a seleção natural não geria inteligência se ela consegue garantir reprodução com erros.
Baruque: É, isso é problemático.
Emanuel: Um processo totalmente entregue a sorte assim não pode garantir muita confiança.
Tomé: Mais um problema para o ateísmo então.
Emanuel: Não entendi. Acreditar em Deus não lhe força a largar a evolução.
Tomé: Não força. Mas o ateu precisa acreditar que a evolução ocorreu apenas por força naturais sem direção. O teísta sabe que Deus não deixaria um animal com forte dependência na mente e tanto desejo natural de conhecer a verdade ter uma mente defeituosa.
Emanuel: Mas temos inúmeros bugs em nossas mentes mesmo. Tipo ilusões de ótica.
Baruque: Coisas como a ciência ou a filosofia demonstram que nossas mentes são capazes de conhecer a verdade sobre o mundo mesmo com esses problemas. Mesmo o Einstein se maravilhava ao ver como podemos entender o universo.
Emanuel: Vocês estão certos mesmo quanto a nossas mentes serem capazes de descobrir a verdade, estudar ciência me maravilha muito principalmente por isso. Deus poderia realmente gerar um mundo onde a evolução gera um animal com uma mente racional. Isso significa que o ateísmo realmente é algo que nos obriga a ter desconfianças quanto o poder da razão.
Tomé: Isso. Como seu ponto de vista de antes, o ateísmo nos força a desconfiar da qualidade das nossas capacidades cognitivas e por isso de qualquer argumento, inclusive os para o ateísmo. O ateu se refuta sempre então.
Baruque: Isso significa que nenhum argumento para o ateísmo se sustenta. O ateu, ao argumentar para o ateísmo, sempre nos diz que a mente dele não é confiável.
Tomé: Pois é. O ateu diz para nós não confiarmos nele, então não devemos confiar, hehe.
Emanuel: Haha. O ateísmo então não pode ser sustentado por um argumento racional. Como temos boas provas de termos mentes razoavelmente funcionais e o ateísmo implica em pouca possibilidade de termos mentes funcionais, a probabilidade de Deus não existir é baixa, muito baixa.
Tomé: Exato. O ateu deve então desistir da racionalidade se deseja continuar sem crer em Deus. Mas sem provas do ateismo, a mente pode ser razoavelmente confiável.
Baruque: Podemos então confiar na razão, Emanuel?
Emanuel: Acho que ainda não temos certeza.
Baruque: Você realmente foi afetado pelo cético...
Emanuel: É que esse argumento é probabilístico. Ele não prova que Deus existe mas deixa provável, exigindo um salto de fé. Se a existência divina é provável, então Ele pode não existir, o que destruiria nossa confiança na razão.
Tomé: Nesse caso, basta provar que Deus existe.
Emanuel: Como? Só um milagre faria isso, e acho que nenhum de nós pode fazer um...
Tomé: Podemos fazer isso através da razão. A teologia natural é um ramo da filosofia focado nisso.
Baruque: Isso mesmo. Como Deus é imaterial, não pode ser investigado empiricamente, então a metafísica será nossa aliada.
Tomé: Sim. Vamos aprender sobre a Causa por Seus efeitos.
Emanuel: Como fazer para provar Deus sem provas empíricas? As discussões filosóficas demonstram que a razão nos dá respostas contrárias e igualmente aceitáveis.
Tomé: Você acha que as discussões filosóficas não podem ser resolvidas e por isso a razão não pode nos ajudar sem a ajuda dos sentidos?
Emanuel: Isso. Sem os sentidos guiando, qualquer coisa pode ser "provada" pela razão, então não dá pra confiar em argumentos metafísicos.
Baruque: Besteira. Nunca duas respostas filosóficas são igualmente prováveis. Esse é o tipo de opinião que só vem de quem não estuda filosofia, então é ignorante demais para refutar até os argumentos mais idiotas. Você tem algum exemplo?
Emanuel: Claro. Diz ai, vocês acham que o universo é eterno ou teve um começo? Eu diria que existem bons argumentos para ambos.
Baruque: O universo, tipo, a matéria? Ao menos a matéria empírica teve um começo, mas explico isso depois, quando estivermos falando de Deus.
Tomé: Fiquei curioso agora, no aguardo, hehe. Mas acho que teve um começo.
Emanuel: E por qual motivo?
Tomé: Se o universo é eterno, então ocorreu um número infinito de tempo antes de hoje. Nesse caso, seriam necessários infinitos dias antes de hoje. Esses dias teriam que ter ocorrido um após o outro, sendo que não se pode chegar ao infinito contando de um a um, logo num universo eterno nunca chegariamos ao hoje, pois sempre teria um dia antes do hoje.
Emanuel: Exatamente. Assim como é impossível começar a contar do infinito e chegar até o zero, é impossível termos infinitos dias passando de um a um até hoje. Isso mostra como a razão nos leva para a conclusão do universo ter tido um começo.
Tomé: Suponho que você conheça um argumento tão bom quanto esse para o universo ser eterno, certo? Se você tem, realmente a razão pode nos dar respostas contraditórias ao falar do que não vemos.
Emanuel: O argumento é assim: se o universo começou, teve um tempo onde nada existia, um tempo vazio onde nada acontecia. Se for o caso, todo momento nesse tempo vazio é igual, de forma que nada explica porque o universo surge no tempo x e não antes ou depois, então o universo jamais poderia começar.
Tomé: Você acha esse argumento tão irrefutável quanto o meu?
Emanuel: Acho. Nesse caso, o universo ser eterno ou ter um começo é algo que não pode ser resolvido pela razão. Portanto, vemos que ela não pode nos ajudar a descobrir o que não vemos. Discorda?
Tomé: Discordo sim. Você assume que o tempo é algo absoluto, que acontece por si só, algo que vimos antes que não é verdade.
Emanuel: Como assim?
Tomé: No seu tempo antes do universo não tem mudança alguma mas o tempo passa, algo que não faz sentido algum. Se não acontecia absolutamente nada, então não passava tempo, pois o tempo é essencialmente mudanças ocorrendo uma após a outra. Sem mudança, sem tempo.
Emanuel: Então como surgiu o tempo? Como o tempo pode ter um inicio?
Tomé: Simples: o universo e o tempo surgiram ao mesmo tempo, por assim dizer, haha. Com a primeira mudança, ocorreu o primeiro momento. Antes desse momento não existia nenhum momento.
Baruque: Exatamente isso! De fato, essa é a visão comum dos cosmologistas: que não existia tempo antes do universo.
Tomé: Com esse argumento falhando, a razão nos diz que o universo teve um começo sem também dizer que ele é eterno. Então seu paradoxo falhou e podemos confiar nela ao falar de conceitos metafísicos.
Emanuel: Vou tentar algo diferente então: Vocês acreditam que existe um limite na divisão que podemos fazer da matéria ou então nós poderíamos dividir algo infinitamente?
Baruque: Poderia ser dividido até certo ponto, mas obviamente tem um limite. A ciência não tem as partículas elementares?
Tomé: Concordo com você. Mas acho que a ciência não pode nos ajudar aqui, pois é possível que as partículas elementares sejam feitas de algo mais e pareçam não serem por limitações nossas.
Baruque: Isso é verdade, não temos como saber empiricamente se elas parecem não-compostas é por limitação nossa ou por ser assim mesmo.
Emanuel: Um de vocês poderia me explicar o motivo dessa opinião?
Baruque: Claro: se as coisas podem ser divididas infinitamente, então tudo é composto de coisas menores, certo?
Emanuel: Isso. Nesse caso, tudo seria composto de coisas menores, como uma parede é composta de tijolos.
Baruque: Nesse caso, não sobra nada se imaginarmos a ausência de composição. Afinal, tudo seria composto.
Tomé: Além disso, se cada coisa é composta, então cada pedaço de algo é feito de pedaços, que são feito de pedaços etc até a coisa ser divisível ao infinito, mas isso exigiria que cada coisa fosse feita de um número infinito de partes e o infinito quantitativo mesmo não existe fora da matemática.
Baruque: Isso é verdade. Uma quantidade infinita de matéria não faria sentido, especialmente se você considerar que uma quantidade infinita de partes estaria presente em absolutamente tudo, até nas menores coisas.
Emanuel: Tanto um elefante quanto uma mosca seriam feitos por um número idêntico de partes. Realmente, não sei como refutar vocês.
Baruque: Você conhece algum argumento para não existir nada que não seja composto? Isso eu quero ver.
Emanuel: Conheço: se algo é feito de matéria, então ocupa espaço, se ocupa espaço tem partes como lados ou metades. Se a coisa é assim, é composta. Concluímos então que tudo é composto.
Baruque: Eu estava certo: você é desconfiado da filosofia por falta de estudo. Esse argumento não é grande coisa. Não só você considera uma divisão mental uma divisão possível fisicamente, um erro que vem do Zenão de Eleia, como assume que algo precisa ter lados para ocupar espaço, mas não vejo motivo pra isso.
Tomé: Só ver que o ponto material é um conceito usado na física, então é imaginável algo material sem lados.
Emanuel: Se algo é imaginável, precisa de um argumento contra para não ser possível e não tenho nenhum aqui. Vocês venceram de novo.
Tomé: Se você não tem nenhum exemplo, então é falso que a filosofia pode nos dar opiniões contrárias igualmente irrefutáveis. A nossa mente pode sim ser um guia para as questões que não são empíricas, embora o debate exista na filosofia como em qualquer outra área de estudo.
Emanuel: Sim, as opiniões filosóficas podem ser refutadas ou não, então dá para confiar no que a razão nos diz quanto a metafísica. Vocês tem algum argumento para a existência de Deus?
Tomé: Eu começo: A Lua não reflete a luz do Sol?
Emanuel: Não entendi, mas sim. A Lua não tem luz própria, então tem que receber luz solar para brilhar.
Tomé: Nesse caso, se tivermos uma lua iluminada por outra lua, ainda precisamos ter uma estrela para ser a fonte real da luz?
Emanuel: Isso mesmo. Não importa quantas luas existam, se precisa de uma estrela.
Tomé: E se o número de luas fosse infinito?
Emanuel: Já vimos que uma sequência assim é impossível, mas precisaria da estrela ainda por uma lua sempre precisar de uma estrela para ter luz, indendente da quantidade de luas ser infinita.
Baruque: Exatamente.
Tomé: Não podemos fazer um paralelo com contigência? Tudo existe necessáriamente, não podendo não existir, ou contigentemente, podendo não existir. Também vejo como possível algo que é necessário, mas por ser causado necessariamente por outros e não por si mesmo.
Baruque: Sim. Só existem essas possibilidades.
Emanuel: Você vai argumentar que a série de coisas contigentes não pode ser infinita e por isso precisa de algo necessário para começar?
Tomé: Não. Estou tentando pensando em algo assim: imagine todas as coisas contigentes, esse grupo.
Emanuel: Isso não é um grupo, então não podemos falar de necessidade ou contigência aqui.
Tomé: Não é uma equipe, hehe. Digo grupo num sentido mais flexível, como uma pilha de lixo. Não preciso de mais do que isso.
Emanuel: Você tem razão! Continue.
Tomé: A tonalidade de coisas contigentes é necessária por si ou outros?
Emanuel: Não, pois seus itens poderiam não existir e basta um deles poder não existir para a tonalidade ser contigente, logo, precisa de uma causa.
Tomé: A causa é necessária ou contingente?
Emanuel: Se fosse contingente, estaria no "grupo", então tem que ser necessária.
Tomé: Perfeito. Essa causa é interna ou externa?
Emanuel: A causa precisa ser externa, pois além de ser necessária e o grupo contingente, se fosse interna o grupo seria sua própria explicação, o que não faz sentido se é contingente, haha.
Tomé: Sim. Nesse caso, existe algo que existe necessariamente?
Emanuel: Exatamente. Como algo pode existir por si só? Sabemos que algo é assim, mas temos que ver como pra ver se isso é Deus.
Tomé: Nós conhecemos o que é um brontossauro, o que é um leão e o que é um unicórnio, suas essências então são conhecidas, certo?
Emanuel: Sim. A diferença ai é que um já existiu, um existe e o outro nunca existiu. Mesmo com o nosso conhecimento dos três, existe essa diferença.
Tomé: Então a essência deles ou o que eles são é diferente da existência deles ou eles serem?
Emanuel: Isso. A essência de um ser contingente é então diferente de sua existência. Nesse caso, a essência do Ser Necessário não pode ser diferente da sua existência?
Tomé: Exatamente, sua essência teria que ser exatamente só sua existência. Só assim poderia existir por si só.
Emanuel: Então ele é a própria Existência? Não entendo como isso faz sentido.
Tomé: Mas você aceita que o universo revela que o Ser Necessário existe? Aceita que Ele não poderia ter uma essência diferente da sua existência?
Emanuel: Sim, que o necessário existe e que existe dessa forma é claro como a água para mim, mas isso significa que ele é totalmente diferente do que é contingente, então como o compreender?
Tomé: Você não compreende. Toda descrição nossa falha em O descrever, mas também chega perto. Como uma criança pequena tentando alcançar algo numa pratileira alta, assim é nosso intelecto tentando entender a Ele.
Emanuel: Então como falar dele corretamente? Se você não entende nada sobre o que fala, qual a diferença entre essa conversa e os delírios de um maluco?
Tomé: Não podemos falar Dele diretamente, mas só do que Ele não é, então nem mesmo mostrei que Ele existe necessáriamente, mas sim que Ele não é inexistente e nem que Ele é contingente. O que Ele não é já nós diz muito mas ainda mantém sua essência misteriosa.
Baruque: Essa é a Via Negativa, um conceito que existe a milênios. Sempre me fascinou um pouco. Podemos comparar com um sujeito que vê em seu jardim marcas das patas de um animal. Após analisar as marcas ele só sabe que o animal não é nenhum conhecido...
Tomé: Sim. Aquele que rejeita Ele por não o compreender mesmo com o universo provando que Ele existe seria como quem estivesse nessa situação e insistisse que as marcas de patas não tem causa por não saber qual animal é.
Baruque: Só um idiota pensaria assim, haha.
Tomé: Hehe. Realmente. Quando eu digo que Ele é poderoso ou ilimitado, deve se entender os termos não de forma unívoca mas com linguagem de analogia.
Emanuel: Unívoca seria com o mesmo significado, tipo "Esse frango é bom" e "Essa torta é boa". Sei que tem também linguagem equívoca, onde a palavra é igual e o significado não tem qualquer semelhança, como "Esse é um bom nome" e "A rua Bom Nome". Como é essa linguagem de analogia?
Tomé: A linguagem de analogia é o justo meio entre a unívoca e a equívoca. Seria algo como "Esse frango é bom" e "Esse livro é bom". "Bom" não está no mesmo sentido porque o que faz cada item bom é algo diferente em cada um, mas existe certa semelhança.
Emanuel: Falar de forma analógica então é como errar e chegar perto de acertar na descrição ao mesmo tempo.
Tomé: Isso. Temos alguma ideia do que Ele é mas não sabemos o que exatamente, então é o que resta. Mas eu prefiro evitar falar assim para não confundir.
Emanuel: Tudo bem então, aceito a existência do inefável necessário. Você pode mostrar mais coisas que ele não é? Só assim podemos ver se ele é Deus. Como sabemos que ele é um e não dois?
Tomé: Simples: Duas coisas só podem ser diferentes se uma tem alguma característica que a outra não tem. O Ser Necessário é a própria existência, de forma que todas as outras coisas ou seres existem de uma forma inferior a Dele, com algo faltando. Se o segundo ser tem algo faltando, não é o Ser Necessário, se nada falta, na verdade só existe um Ser.
Baruque: Ideia bem lógica essa. Duas coisas só são diferentes se uma delas tem algo a menos e isso não pode ser o caso se falamos de um ser supremo. Não é a toa que politeistas como hindus e indígenas costumam defender a existência de uma entidade superior aos deuses.
Emanuel: Entendo. Você diz que ele existe de uma forma melhor, isso significa que o ser necessário tem em si toda possibilidade e mais?
Tomé: Exato. Tudo que existe ou pode existir e não é a própria Existência tem sua essência separada da existência, então depende do Ser Necessário. Entendemos então que Ele é a base de tudo que é possível sem depender de mais nada que não seja Ele. O Ser Necessário então não é limitado como os outros seres.
Emanuel: Podemos então dizer que ele é onipotente? Além disso, como o poder dele mantém tudo funcionando e ele, como não limitado, não pode estar em um lugar ou outro, podemos dizer que ele é onipresente? Pois não fica em um lugar só mas meio que existe em tudo de uma vez através de seu poder que mantem tudo funcionando.
Tomé: Dizer que Ele é isso ou aquilo não dá certo por sua essência não ser conhecida, mas podemos dizer que Ele não é limitado em poder nem em lugar, então onipotente e onipresente talvez sejam o mais próximo de uma classificação positiva que podemos dar, se forem na linguagem de analogia.
Baruque: Além disso, como o ser supremo é acima de todos, ele não pode ser mal. Pois o mal é uma falta em algo e nele nada falta.
Emanuel: Como assim?
Tomé: Não enxergar é ruim. Mas é um mal para nós e para as pedras ou só para nós?
Emanuel: Haha. Só para nós a cegueira é um mal.
Tomé: Então um mal é algo que devia estar mas não está? Desse jeito, uma pessoa ruim é a que devia ter algo e não tem?
Emanuel: Exatamente. A má pessoa devia ter certas características mas não tem. Entendo então que o ser necessário, que não falta nada, não pode ser mal.
Tomé: Você entendeu. O mal é uma privação de bem e O Ser Necessário não tem qualquer privação.
Emanuel: Como ele não é limitado em lugar, podemos dizer que não é material?
Tomé: Sim. Também não poderia ser temporal, por não ser de matéria.
Baruque: Nem seria mutável, pois não só não é temporal como também é não limitado, já estando num grau onde melhora ou piora é impossível.
Emanuel: É verdade. E ele seria não limitado mentalmente também? Só falta o que podemos chamar de onisciência.
Tomé: Claro, embora vá ser mais difícil de mostrar. Algo como uma pedra tem a sua própria essência apenas. O animal com consciência tem, de certa forma, mais do que sua essência por seus sentidos e memória permitirem que eles "guardem" dados das outras coisas e também cores, sons, gostos etc. Nós, além de termos nossa essência e os dados sensoriais e da memória, temos o intelecto que nos permite entender outras essências.
Baruque: Um filosofo até disse que "a mente é de certa forma todas as coisas". Vemos então uma ligação entre conter várias essências e inteligência.
Emanuel: Nesse caso, como o ser necessário contém em si todas as essências por serem de certa forma uma versão inferior dele, ele teria algo como um intelecto que contem todas as essências e possibilidades?
Tomé: Isso mesmo. Além disso, você não pode produzir algo com uma característica que não existe em você de certa forma, então supor que seres com intelecto existem e A Existência Em Si não tem um é ridículo. Mas não devemos dizer que Ele é onisciente por não conhecermos sua natureza , dizer que Ele não é limitado intelectualmente é o melhor que podemos fazer.
Emanuel: Mas como um ser imutável pode criar? Ele era um criador em potência e se tornou um em ato.
Baruque: Ele não é afetado pelo tempo, então não existe isso de "Ele era assim e agora é assim". Você pensa numa sucessão de atos como nós mas Ele deve ter feito tudo num único ato igual a sua essência e com inúmeros efeitos, como um filósofo que escreve um livro e causa aprendizado em milhões. Isso é uma analogia, é claro.
Tomé: Exato. Quanto ao resto da questão, diria eu que existe uma diferença entre potência passiva, que é a habilidade de mudar, e a potência ativa, que é a de mudar os outros. Como o grego que nos ensina com suas obras mesmo estando morto.
Emanuel: Sim, é possível mudar alguém sem ser alterado. Mas como ele pode criar sem mudar?
Tomé: No caso do grego, ele te muda sem mudar, pois mesmo que você não existisse ele seria o mesmo. A relação entre vocês é em parte, pois você está na relação e ele não. Devemos supor então que Ele também consegue fazer isso, pois o imutável que usamos não diz que Ele nada pode fazer, por ser usado na forma de analogia, só diz que nenhuma potência passiva d'Ele foi atualizada.
Baruque: É complexo, mas estamos falando de algo incompreensível mesmo, então...
Emanuel: Entendi. Como não o conhecemos, não dá pra dizer que existe uma contradição ai, por não sabermos o que o termo diz. Eu realmente me confundi com a linguagem de analogia.
Tomé: Exatamente. Se alguém acha que Ele não existe, deve deixar de tentar apontar incoerência e mostrar que o argumento falha pelo mundo não precisar Daquele Que É Existência Em Si. Se o mundo precisa, Ele existe.
Emanuel: E o mundo não precisar parece impossível, portanto não vejo como negar a existência d'Ele.
Baruque: Seu argumento então mostra que existe um ser que não é contingente, nem compreensível, nem material, nem temporal, nem mutável, nem é mais de um, nem é mal, nem é limitado em intelecto, em poder ou em lugar, além de ser a origem de tudo.
Tomé: E Esse nós chamamos de Deus.
Emanuel: Mas como funciona essa diferença de graus de existência? A nossa existência seria como a divina mas em menor grau ou algo diferente?
Tomé: Teria que ser algo diferente mas que é mantido por Ele.
Baruque: Você achou a falha do argumento, Emanuel.
Tomé: É mesmo? Qual?
Baruque: Você assume que existe coisas contingentes, quando tudo é necessário, então você apenas provou a existência divina.
Emanuel: Mas eu consigo imaginar um mundo diferente do nosso , então essa configuração não pode ser necessária.
Tomé: Além disso, tudo que não é Ele tem uma essência diferente da sua existência, então não é necessário.
Baruque: Engano seu. Na verdade, todas as coisas são parte de Deus, logo, tudo tem uma mesma essência, a divina, que é igual a sua existência. Deus e a Natureza são um.
Tomé: Que? Você acredita que Deus e o universo são a mesma coisa?
Baruque: Sim. A única coisa que existe é Ele, que se manifesta de infinitos modos. Nós enxergamos um mundo feito de matéria e mentes por limitação nossa que só nos permite ver dois modos, mas não passamos de parte Dele.
Emanuel: Isso fica beeem longe da nossa experiência. Você tem um motivo para acreditar nisso? É comum na Índia.
Baruque: É claro: como um imutável, mesmo que de forma analógica, pode aprender? Pois vimos que Ele não entra em relações com nada. Se Deus não pode conhecer o mundo, ou Ele é ignorante ou o mundo não existe.
Tomé: Não aprendendo. Ele se conhece e também conhece todas as possibilidades. Ele também não poderia conhecer a si mesmo sem ter conhecimento de até onde seu poder se estende, então também conhece tudo que depende d'Ele, ou seja, tudo.
Baruque: Mas como Ele sabe das coisas? Pois Ele teria que saber ás nove da manhã que um objeto existe e saber ás dez que esse objeto não existe. Como isso é possível sem mudança?
Tomé: Você considera "conhecer" de forma unívoca aqui, um erro. Deus, como fora do tempo, simplesmente conhece esse objeto como existindo entre nove e dez horas, sem precisar de qualquer mudança.
Emanuel: Como tudo aqui, é misterioso e faz sentido, haha. Se Ele pode conhecer o mundo, então não precisamos de panteísmo.
Tomé: Não devemos nem falar disso, pois é impossível.
Baruque: Por que você considera isso como impossível? Tem algum argumento?
Tomé: Claro. Observe:
Baruque: Você mexendo sua mão? Como assim?
Emanuel: Você, Tomé, quer mostrar que mudança existe?
Tomé: Isso! Como vimos, as coisas mudam através da atualização de potencias. Isso gera ordens casuais, pois uma coisa muda outra que muda outra, dois tipos de series ordenadas.
Baruque: Quais tipos de series ordenadas?
Tomé: A primeira é acidental, pois um item pode mudar outro sem precisar do item anterior. Um exemplo é de um homem que pode gerar seu filho mesmo que seu pai pare de existir.
Emanuel: Na segunda um item precisa de outro?
Tomé: Isso mesmo, seria uma serie essencialmente ordenada. Pense numa faca que lentamente corta uma carne dura. Se a minha mão parar, a faca para de cortar também. Ela tem o potencial de cortar, mas eu preciso atualizar esse potencial para a faca agir.
Emanuel: Então essa série de mudanças ocorre no mesmo instante? Cada item atualiza outro na mesma hora? Interessante, pois significa que algo como o universo ser eterno ou não é irrelevante aqui.
Tomé: Exato. O lance é que não para na minha mão, pois ela só se move se os músculos mexerem, e eles só mexem se as células se mexerem, que só se mexem se as moléculas se mexerem etc. Cada item tem seu potencial atualizado por um item em outro nível.
Emanuel: Então cada item tem a base que atualiza seu potencial em outro nível mais fundamental? Então o músculo só tem poder de atualizar o potencial de mover a mão se as células o atualizarem ao mesmo tempo e mesmo elas precisam ser atualizadas?
Tomé: Isso. Ai eu te pergunto: se essa sequência for eterna, a mudança é explicada?
Emanuel: Não, pois cada item precisa ser atualizado por algum outro antes que já esteja em ato para poder atualizar o item seguinte. Como no exemplo das luas, o poder dos item é derivado de outro.
Baruque: Então precisamos de algo que atualiza a sequência sem precisar ser atualizado? Algo cujo poder de atualizar não é derivado mas intrinsico.
Emanuel: Um ser desses não poderia se atualizar, pois então ele precisaria estar em ato antes de estar em ato para só então se atualizar, algo impossível.
Baruque: Exatamente. O poder que atualiza não pode ver de alguém que muda, pois ele teria que ter o poder antes de ter.
Emanuel: Então toda série essencialmente ordenada precisa de um ser que não tem qualquer potencia, mas é Puro Ato, que atualiza toda mudança sem precisar ser mudado.
Baruque: Algo que é Puro Ato não pode ser mudado, então não pode ter nada que pode ganhar ou perder, algo que só é possível se for também a Própria Existência. Então Puro Ato e Deus são o mesmo.
Tomé: Vocês entenderam perfeitamente! Como tudo que existe pode mudar, ou seja, tem potências, e Deus é Puro Ato sem potências, então Deus e o universo tem que ser diferentes.
Emanuel: Uau! Impressionante. Não só você tem mais um argumento para a existência de Deus como ainda refuta o panteísmo com ele. Isso é economia!
Tomé: Haha.
Baruque: Hahaha. Isso foi muito bom, só que seu argumento assume que a mudança é possível. Como já sabemos que Deus não muda, seu argumento pressupõe que a Ele e o universo são diferentes.
Emanuel: Realmente. O argumento foi uma petição de principio.
Tomé: Isso só refuta seu argumento! Que a mudança existe é algo que se vê claramente.
Baruque: Isso não deve ser mais que uma ilusão, como diria o Parmênides.
Tomé: Num momento eu teria a ilusão de ver um fogo acender e depois a ilusão de ver algo cair! Mesmo que tudo seja uma ilusão existe mudança, pois eu tenho ilusões diferentes em momentos diferentes.
Baruque: A questão é que seus argumentos pressupõem que existe contingência e mudança, significando que eles pressupoem que eu estou errado, então usar eles contra mim é falacioso.
Tomé: Tudo mostra que você está errado.
Emanuel: Também me parece um ponto de vista louco, mas você tem algum argumento a mais, Tomé? Poderia ajudar.
Tomé: Não preciso, mas okay: vimos antes que tudo que é composto exige eventualmente coisas mais fundamentais e não compostas para serem suas partes, certo?
Emanuel: Sim, o composto precisa do não-composto.
Tomé: Exato. Além dos motivos dados antes, me parece obvio que uma porta é mais fundamental que uma casa, pois a porta pode existir sem a casa, enquanto ela não pode existir completa sem suas partes.
Emanuel: Isso é verdade.
Tomé: Como as partes podem existir sem a casa, precisamos de algo que explique o motivo de tudo estar junto, como os construtores com cimento e outros materiais. Mesmo que a casa fosse eterna, alguma razão existiria para as partes não estarem separadas.
Emanuel: Sim, então tudo que é composto é explicado por outro. Isso significa que as explicações vão até algo totalmente simples? Pois só esse simples não precisaria de algo mais para o explicar.
Baruque: Esse simples precisaria ser imutável, pois tudo que é mutável tem potências, e também necessário, pois o contingente tem sua essência diferente da existência. O Absolutamente Simples então é o Puro Ato e também o Ser Necessário, certo?
Emanuel: Pensando bem, os três argumento levam a exatamente as mesmas conclusões. É impressionante.
Tomé: Isso mesmo! O composto então depende da existência do Absolutamente Simples, que é Deus. Temos aqui mais um argumento para a existência divina e também aprendemos que Deus não é composto. Podemos chamar Ele de simples somente na linguagem de analogia também, pois não podemos falar d'Ele de forma unívoca.
Emanuel: Isso quer dizer que não existe qualquer diferenciação em Deus? Seu poder, Sua onisciência, Sua bondade, Sua justiça etc são todos a mesma coisa?
Tomé: Isso mesmo. Não existe em Sua natureza essas distinções que ocorrem em nós. Essas diferenciações existem em nossas mentes ao pensar n'Ele, mas não existem n'Ele.
Emanuel: Isso vale para o conhecimento também? Como então pode existir não-composição numa mente?
Tomé: Você está usando características e ideias de maneira unívoca. Está comparando Ele com nós, seres limitados no tempo que aprendem pela sensação as coisas em sequência. Se lembre que a natureza divina só é "compreendida" através do que não é, então nossa imaginação sempre falha nessas descrições.
Emanuel: Entendo. Realmente, usar a imaginação aqui é errar.
Baruque: Outro argumento interessante, mas ele pressupõe que existam seres compostos quando na verdade só Deus existe, então falha.
Tomé: Não nesse caso, pois você mesmo disse que acha que Ele se manifesta em infinitos modos, com a matéria e as mentes que vemos e somos sendo dois modos.
Emanuel: Verdade! O panteísmo exige então infinitas distinções, logo, o divino panteísta também é composto e precisa de algo que o explique, sendo Esse Deus.
Tomé: Você aprende rápido.
Baruque: Isso seria apenas uma ilusão, a composição é falsa.
Tomé: Nesse caso, a composição existe em nossas mentes, significando que elas não são Deus...
Baruque: Olha... Tem razão...
Emanuel: Isso significa que o universo e Deus são diferentes então. Logo, existe contingência, composição e mudança, significando que os três argumentos funcionam. Sabemos então que O Deus inefável e separado do universo existe e que nada poderia existir por um instante sem Ele.
Baruque: Só um bastava, mas os três funcionam. Então Deus certamente deve ter feito o mundo de forma que acabássemos com mentes capazes de entender o mundo e entender que Ele existe.
Tomé: Exato. Não vejo formas desses argumentos serem vencidos racionalmente. Uma banana, um sapato, o movimento de um elétron, qualquer coisa pode ser a base para esses argumentos funcionarem e vermos a Causa por seus efeitos.
Baruque: Basta o ateu fazer o que sempre faz: defender que a razão é falha. É claro, isso pressupõe que ele está certo e portanto exige argumentos para o ateísmo, que não podem ser justificados pois geram desconfiança na mesma razão que os defende. Nesse caso, o ateu nem deve ser levado a sério.
Tomé: O ateu é como um anão que sobe num banquinho para ser visto e grita "Não tem banquinhos aqui!". Eles precisam da razão para argumentar e até pagam de racionais, mas são os primeiros a admitir que não podem confiar nela no ateísmo.
Emanuel: É verdade. Os seus argumentos só podem ser negados se o ateísmo for verdade, pois só assim podemos desconfiar da razão. Afinal, o agnóstico sabe que não tem motivo para acreditar que a evolução trabalhou cega ou não, então não tem motivo para desconfiar da razão.
Baruque: Além disso, coisas como a ciência e suas previsões revelam que a razão humana é fantástica.
Emanuel: Exato. Obrigado, caras, pois me ajudaram com esse ceticismo. Acham que alguma religião é real?
Baruque: Eu estava interessado nas da Ásia, mas vi que vou ter que investir no monoteísmo mesmo, de lá ou daqui.
Tomé: Estou procurando também. Sabemos que Ele existe e que não conseguimos O compreender sozinhos, então deve ter algum jeito de se aproximar. É no mínimo frustrante como está agora...
Baruque: Mas já falamos muito, bora jogar?
Emanuel: Na hora! Tem que ver o combo que eu aprendi.
Tomé: No aguardo.
Emanuel: Outro dia conversei com um sujeito que não acreditava que conhecíamos mais que o que os sentidos dizem, então só podíamos falar do que sentíamos diretamente. Ele negava até que dava pra falar de substâncias ou casualidade.
Tomé: Isso é uma ideia muito estranha.
Baruque: É muito. Como você rebateu isso?
Emanuel: Eu mostrei a ele que, antes das experiências, temos que receber dados sensoriais. Esses dados não são de cinco sentidos diferentes mas aparecem para nós como parte de uma única experiência?
Baruque: Sim, eles são organizados por nossas mentes.
Emanuel: Então, além disso, cada experiência nossa não precisa ser de um objeto em algum lugar e em certo momento?
Baruque: Sim. Tudo que é material está no tempo e no espaço.
Emanuel: Então as nossas experiências não são moldadas pelas nossas mentes? Pois características como tempo e espaço, necessidade,possibilidade, unidade etc estão presentes em cada experiência possível.
Tomé: E de que forma essas coisas seriam criação de nossas mentes e não parte da realidade?
Emanuel: Bom, que a mente organiza nossas percepções sabemos, também sabemos que não daria para se ter experiências sem, por exemplo, algo como tempo e espaço.
Tomé: Sim, mas isso é pelas coisas estarem no tempo e no espaço, não tendo motivo pra dizer que é só uma criação mental. É verdade que toda experiência tem coisas como tempo e espaço na sua organização, mas isso se deve a natureza do mundo e não a da mente.
Emanuel: De onde vem então o seu conceito de espaço e o de tempo? Como não são sentidos diretamente, só podem ser algo que a mente produz para organizar a experiência.
Baruque: Foi assim que você venceu o cético? Defendendo que esses conceitos são algo que vem de nós e portanto podem ser usados para se referir as nossas experiências? Isso diria que as coisas não seguem esses conceitos por necessidade real, mas por nossas mentes as organizarem assim.
Emanuel: Isso mesmo. Defendi que toda experiência depende deles, então eles não podem ser negados, embora não possamos saber se eles valem para o mundo desconhecido fora de nós.
Baruque: Mas você não mostra que existe alguma diferença entre o mundo real e o que vemos e também não pode mostrar por negar acesso a realidade. Então não entendo de onde vem a sua ideia de que é tudo construção mental.
Tomé: Além disso, se as nossas experiências são causadas pelo mundo, a casualidade existe. Se a casualidade existe, então os outros conceitos necessários certamente existem, eliminando motivos para acreditar que o mundo real tem uma natureza totalmente diferente do que vemos.
Baruque: Faz sentido. Se o mundo mostra casualidade, então não é tão misterioso assim.
Emanuel: Bom, foi o que achei pra defender que esses conceitos podiam ser usados.
Baruque: Esse ponto de vista não ajuda muito já que destrói a confiança na razão.
Emanuel: Como assim?
Baruque: Ao nos impedir de acessar o mundo real, seja por vias filosóficas ou científicas, nos impede de conhecer realmente nossas capacidades cognitivas, de forma que não podemos confiar no bom funcionamento delas. Isso invalidaria qualquer raciocionio nosso, incluindo os seus.
Tomé: Então essa teoria se refuta sozinha, sendo irracional acreditar nela. Era o esperado para uma ideia tão estranha.
Emanuel: Sim, ela se refuta desse jeito. Mas se não podemos conseguir outro jeito de explicar nossos conceitos através das experiências, vamos ter que aceitar isso da melhor forma possível. Como você explica algo como conceito de espaço-tempo, por exemplo?
Tomé: Com a mudança. Eu vejo uma vela lentamente diminuir ao estar acesa e observo que ela tem um limite, uma área que não é mais vela que a cerca e muda quando ela muda, o espaço. Ao ver ela mudar e a ordem que existe nas mudanças sei que existe algo como tempo, pois ela estava apagada e agora está acessa, diminuindo então após cada mudança, sendo o tempo então só uma "medição" de mudança.
Emanuel: Entendo. Então você acha que a mudança é o que nos ajuda a ter esses conceitos?
Tomé: Claro. Pense na ideia de substância. Um mármore muda ao ser esculpido pois algumas características dele como o tamanho e o formato deixam de existir, mas algo continua ali. Esse algo é a base dessas características, que não podem existir sozinhas. A substância mármore então pode existir de diferentes formatos e tamanhos, mas os formatos ou tamanhos individuais precisam dela para existir. Podemos chamar ela de substância e eles de acidentes por não serem necessários para ela, sendo a existência de certo formato, por exemplo, "acidental" na substância.
Emanuel: Entendi. Mas as substâncias também não podem mudar, assim levando os acidentes junto?
Tomé: Também. Ao ver madeira queimar eu noto que a madeira deixa de existir e se torna algo diferente. Se não existe algo e então outra coisa não tem mudança. Também não pode existir algo e depois outra coisa sem existirem substâncias que eram e deixaram de ser.
Baruque: Mas algo continua de uma mudança a outra, certo? A matéria.
Tomé: Isso! Toda substância material é feita de matéria, que pode se tornar qualquer uma das substâncias materiais. A matéria é o que permite a mudança, pois é ela que pode ser uma ou outra substância ou ter acidentes diferentes.
Emanuel: Faz sentido! Isso explica então como os conceitos podem vir das experiências, assim tirando a necessidade de fazer com que eles sejam criação da mente.
Tomé: Isso. Vemos o mundo organizado por esses conceitos não pela estrutura das nossas mentes, mas da do mundo, então o cético estava bem louco no dia, haha.
Baruque: Haha. Mas como a mudança ocorre? Suponho que o cético pediria uma explicação disso.
Tomé: Um mármore pode se tornar uma estátua de madeira ou só de mármore?
Baruque: Só de mármore. A madeira só pode virar uma de madeira.
Tomé: Uma coisa pode virar um tipo de estátua e outra outro tipo. Isso não significa que essas coisas tem potenciais diferentes?
Baruque: Sim, já que é claro que cada coisa tem o potencial de virar algo que não é atualmente e que sua natureza determina os potenciais.
Tomé: Temos então o conceito de potência, algo que a coisa pode vir a ser. Você também acabou falando do de ato, ou o que a coisa é atualmente.
Baruque: Isso mesmo. Potência e ato existem então.
Emanuel: Podemos falar então da mudança como algo potencial se tornando atual? Tipo o café frio ser potencialmente quente e esse potencial ser atualizado pelo microondas, assim tornando o café quente.
Tomé: Isso mesmo! Assim a mudança ocorre e é apartir dela que sabemos o que é tempo, espaço e os outros conceitos que o sujeito negava. Como esse cético que tu mencionou negava tudo isso e dizia se basear na experiência é um mistério.
Emanuel: Ele parecia achar que todo pensamento nosso era um tipo de memória sensorial, então nada não particular tinha base no que sentiamos, acho.
Tomé: Um ponto de vista bem bizarro.
Emanuel: Realmente. O seu responde o dele de forma que não impede o conhecimento do mundo como o meu.
Baruque: Podemos então confiar na mente.
Emanuel: Não acho que podemos confiar nela mesmo assim. Pois a evolução gerou mentes capazes de sobreviver na natureza, não procurar a verdade.
Baruque: Como assim? O ser mais inteligente não seria mais capaz de sobreviver melhor?
Emanuel: Nem sempre. Imagine um sujeito que acha que é servo das arvores e que elas querem que ele tenha muitos filhos e netos saudáveis mas que não conte delas para ninguém. Esse sujeito não passaria seu genes?
Baruque: Passaria sim. Podemos realmente imaginar muitos pensamentos defeituosos que levariam as pessoas a ter os comportamentos certos para passar seus genes a diante.
Emanuel: Isso mesmo. Comportamentos certos podem vir de mentes com problemas, então não existe ligação entre verdade e sobrevivência. A evolução nos fez sem buscar nos dar mentes confiáveis.
Tomé: Isso mesmo. Pense em desenvolver inteligência como desenvolver resistência a venenos que não existem no habitat natural da espécie. Acha que é seguro contar que seria desenvolvida resistência para um veneno que não existe na área?
Baruque: Isso seria bem improvável, pela seleção natural não exigir isso.
Tomé: Da mesma forma, a seleção natural não geria inteligência se ela consegue garantir reprodução com erros.
Baruque: É, isso é problemático.
Emanuel: Um processo totalmente entregue a sorte assim não pode garantir muita confiança.
Tomé: Mais um problema para o ateísmo então.
Emanuel: Não entendi. Acreditar em Deus não lhe força a largar a evolução.
Tomé: Não força. Mas o ateu precisa acreditar que a evolução ocorreu apenas por força naturais sem direção. O teísta sabe que Deus não deixaria um animal com forte dependência na mente e tanto desejo natural de conhecer a verdade ter uma mente defeituosa.
Emanuel: Mas temos inúmeros bugs em nossas mentes mesmo. Tipo ilusões de ótica.
Baruque: Coisas como a ciência ou a filosofia demonstram que nossas mentes são capazes de conhecer a verdade sobre o mundo mesmo com esses problemas. Mesmo o Einstein se maravilhava ao ver como podemos entender o universo.
Emanuel: Vocês estão certos mesmo quanto a nossas mentes serem capazes de descobrir a verdade, estudar ciência me maravilha muito principalmente por isso. Deus poderia realmente gerar um mundo onde a evolução gera um animal com uma mente racional. Isso significa que o ateísmo realmente é algo que nos obriga a ter desconfianças quanto o poder da razão.
Tomé: Isso. Como seu ponto de vista de antes, o ateísmo nos força a desconfiar da qualidade das nossas capacidades cognitivas e por isso de qualquer argumento, inclusive os para o ateísmo. O ateu se refuta sempre então.
Baruque: Isso significa que nenhum argumento para o ateísmo se sustenta. O ateu, ao argumentar para o ateísmo, sempre nos diz que a mente dele não é confiável.
Tomé: Pois é. O ateu diz para nós não confiarmos nele, então não devemos confiar, hehe.
Emanuel: Haha. O ateísmo então não pode ser sustentado por um argumento racional. Como temos boas provas de termos mentes razoavelmente funcionais e o ateísmo implica em pouca possibilidade de termos mentes funcionais, a probabilidade de Deus não existir é baixa, muito baixa.
Tomé: Exato. O ateu deve então desistir da racionalidade se deseja continuar sem crer em Deus. Mas sem provas do ateismo, a mente pode ser razoavelmente confiável.
Baruque: Podemos então confiar na razão, Emanuel?
Emanuel: Acho que ainda não temos certeza.
Baruque: Você realmente foi afetado pelo cético...
Emanuel: É que esse argumento é probabilístico. Ele não prova que Deus existe mas deixa provável, exigindo um salto de fé. Se a existência divina é provável, então Ele pode não existir, o que destruiria nossa confiança na razão.
Tomé: Nesse caso, basta provar que Deus existe.
Emanuel: Como? Só um milagre faria isso, e acho que nenhum de nós pode fazer um...
Tomé: Podemos fazer isso através da razão. A teologia natural é um ramo da filosofia focado nisso.
Baruque: Isso mesmo. Como Deus é imaterial, não pode ser investigado empiricamente, então a metafísica será nossa aliada.
Tomé: Sim. Vamos aprender sobre a Causa por Seus efeitos.
Emanuel: Como fazer para provar Deus sem provas empíricas? As discussões filosóficas demonstram que a razão nos dá respostas contrárias e igualmente aceitáveis.
Tomé: Você acha que as discussões filosóficas não podem ser resolvidas e por isso a razão não pode nos ajudar sem a ajuda dos sentidos?
Emanuel: Isso. Sem os sentidos guiando, qualquer coisa pode ser "provada" pela razão, então não dá pra confiar em argumentos metafísicos.
Baruque: Besteira. Nunca duas respostas filosóficas são igualmente prováveis. Esse é o tipo de opinião que só vem de quem não estuda filosofia, então é ignorante demais para refutar até os argumentos mais idiotas. Você tem algum exemplo?
Emanuel: Claro. Diz ai, vocês acham que o universo é eterno ou teve um começo? Eu diria que existem bons argumentos para ambos.
Baruque: O universo, tipo, a matéria? Ao menos a matéria empírica teve um começo, mas explico isso depois, quando estivermos falando de Deus.
Tomé: Fiquei curioso agora, no aguardo, hehe. Mas acho que teve um começo.
Emanuel: E por qual motivo?
Tomé: Se o universo é eterno, então ocorreu um número infinito de tempo antes de hoje. Nesse caso, seriam necessários infinitos dias antes de hoje. Esses dias teriam que ter ocorrido um após o outro, sendo que não se pode chegar ao infinito contando de um a um, logo num universo eterno nunca chegariamos ao hoje, pois sempre teria um dia antes do hoje.
Emanuel: Exatamente. Assim como é impossível começar a contar do infinito e chegar até o zero, é impossível termos infinitos dias passando de um a um até hoje. Isso mostra como a razão nos leva para a conclusão do universo ter tido um começo.
Tomé: Suponho que você conheça um argumento tão bom quanto esse para o universo ser eterno, certo? Se você tem, realmente a razão pode nos dar respostas contraditórias ao falar do que não vemos.
Emanuel: O argumento é assim: se o universo começou, teve um tempo onde nada existia, um tempo vazio onde nada acontecia. Se for o caso, todo momento nesse tempo vazio é igual, de forma que nada explica porque o universo surge no tempo x e não antes ou depois, então o universo jamais poderia começar.
Tomé: Você acha esse argumento tão irrefutável quanto o meu?
Emanuel: Acho. Nesse caso, o universo ser eterno ou ter um começo é algo que não pode ser resolvido pela razão. Portanto, vemos que ela não pode nos ajudar a descobrir o que não vemos. Discorda?
Tomé: Discordo sim. Você assume que o tempo é algo absoluto, que acontece por si só, algo que vimos antes que não é verdade.
Emanuel: Como assim?
Tomé: No seu tempo antes do universo não tem mudança alguma mas o tempo passa, algo que não faz sentido algum. Se não acontecia absolutamente nada, então não passava tempo, pois o tempo é essencialmente mudanças ocorrendo uma após a outra. Sem mudança, sem tempo.
Emanuel: Então como surgiu o tempo? Como o tempo pode ter um inicio?
Tomé: Simples: o universo e o tempo surgiram ao mesmo tempo, por assim dizer, haha. Com a primeira mudança, ocorreu o primeiro momento. Antes desse momento não existia nenhum momento.
Baruque: Exatamente isso! De fato, essa é a visão comum dos cosmologistas: que não existia tempo antes do universo.
Tomé: Com esse argumento falhando, a razão nos diz que o universo teve um começo sem também dizer que ele é eterno. Então seu paradoxo falhou e podemos confiar nela ao falar de conceitos metafísicos.
Emanuel: Vou tentar algo diferente então: Vocês acreditam que existe um limite na divisão que podemos fazer da matéria ou então nós poderíamos dividir algo infinitamente?
Baruque: Poderia ser dividido até certo ponto, mas obviamente tem um limite. A ciência não tem as partículas elementares?
Tomé: Concordo com você. Mas acho que a ciência não pode nos ajudar aqui, pois é possível que as partículas elementares sejam feitas de algo mais e pareçam não serem por limitações nossas.
Baruque: Isso é verdade, não temos como saber empiricamente se elas parecem não-compostas é por limitação nossa ou por ser assim mesmo.
Emanuel: Um de vocês poderia me explicar o motivo dessa opinião?
Baruque: Claro: se as coisas podem ser divididas infinitamente, então tudo é composto de coisas menores, certo?
Emanuel: Isso. Nesse caso, tudo seria composto de coisas menores, como uma parede é composta de tijolos.
Baruque: Nesse caso, não sobra nada se imaginarmos a ausência de composição. Afinal, tudo seria composto.
Tomé: Além disso, se cada coisa é composta, então cada pedaço de algo é feito de pedaços, que são feito de pedaços etc até a coisa ser divisível ao infinito, mas isso exigiria que cada coisa fosse feita de um número infinito de partes e o infinito quantitativo mesmo não existe fora da matemática.
Baruque: Isso é verdade. Uma quantidade infinita de matéria não faria sentido, especialmente se você considerar que uma quantidade infinita de partes estaria presente em absolutamente tudo, até nas menores coisas.
Emanuel: Tanto um elefante quanto uma mosca seriam feitos por um número idêntico de partes. Realmente, não sei como refutar vocês.
Baruque: Você conhece algum argumento para não existir nada que não seja composto? Isso eu quero ver.
Emanuel: Conheço: se algo é feito de matéria, então ocupa espaço, se ocupa espaço tem partes como lados ou metades. Se a coisa é assim, é composta. Concluímos então que tudo é composto.
Baruque: Eu estava certo: você é desconfiado da filosofia por falta de estudo. Esse argumento não é grande coisa. Não só você considera uma divisão mental uma divisão possível fisicamente, um erro que vem do Zenão de Eleia, como assume que algo precisa ter lados para ocupar espaço, mas não vejo motivo pra isso.
Tomé: Só ver que o ponto material é um conceito usado na física, então é imaginável algo material sem lados.
Emanuel: Se algo é imaginável, precisa de um argumento contra para não ser possível e não tenho nenhum aqui. Vocês venceram de novo.
Tomé: Se você não tem nenhum exemplo, então é falso que a filosofia pode nos dar opiniões contrárias igualmente irrefutáveis. A nossa mente pode sim ser um guia para as questões que não são empíricas, embora o debate exista na filosofia como em qualquer outra área de estudo.
Emanuel: Sim, as opiniões filosóficas podem ser refutadas ou não, então dá para confiar no que a razão nos diz quanto a metafísica. Vocês tem algum argumento para a existência de Deus?
Tomé: Eu começo: A Lua não reflete a luz do Sol?
Emanuel: Não entendi, mas sim. A Lua não tem luz própria, então tem que receber luz solar para brilhar.
Tomé: Nesse caso, se tivermos uma lua iluminada por outra lua, ainda precisamos ter uma estrela para ser a fonte real da luz?
Emanuel: Isso mesmo. Não importa quantas luas existam, se precisa de uma estrela.
Tomé: E se o número de luas fosse infinito?
Emanuel: Já vimos que uma sequência assim é impossível, mas precisaria da estrela ainda por uma lua sempre precisar de uma estrela para ter luz, indendente da quantidade de luas ser infinita.
Baruque: Exatamente.
Tomé: Não podemos fazer um paralelo com contigência? Tudo existe necessáriamente, não podendo não existir, ou contigentemente, podendo não existir. Também vejo como possível algo que é necessário, mas por ser causado necessariamente por outros e não por si mesmo.
Baruque: Sim. Só existem essas possibilidades.
Emanuel: Você vai argumentar que a série de coisas contigentes não pode ser infinita e por isso precisa de algo necessário para começar?
Tomé: Não. Estou tentando pensando em algo assim: imagine todas as coisas contigentes, esse grupo.
Emanuel: Isso não é um grupo, então não podemos falar de necessidade ou contigência aqui.
Tomé: Não é uma equipe, hehe. Digo grupo num sentido mais flexível, como uma pilha de lixo. Não preciso de mais do que isso.
Emanuel: Você tem razão! Continue.
Tomé: A tonalidade de coisas contigentes é necessária por si ou outros?
Emanuel: Não, pois seus itens poderiam não existir e basta um deles poder não existir para a tonalidade ser contigente, logo, precisa de uma causa.
Tomé: A causa é necessária ou contingente?
Emanuel: Se fosse contingente, estaria no "grupo", então tem que ser necessária.
Tomé: Perfeito. Essa causa é interna ou externa?
Emanuel: A causa precisa ser externa, pois além de ser necessária e o grupo contingente, se fosse interna o grupo seria sua própria explicação, o que não faz sentido se é contingente, haha.
Tomé: Sim. Nesse caso, existe algo que existe necessariamente?
Emanuel: Exatamente. Como algo pode existir por si só? Sabemos que algo é assim, mas temos que ver como pra ver se isso é Deus.
Tomé: Nós conhecemos o que é um brontossauro, o que é um leão e o que é um unicórnio, suas essências então são conhecidas, certo?
Emanuel: Sim. A diferença ai é que um já existiu, um existe e o outro nunca existiu. Mesmo com o nosso conhecimento dos três, existe essa diferença.
Tomé: Então a essência deles ou o que eles são é diferente da existência deles ou eles serem?
Emanuel: Isso. A essência de um ser contingente é então diferente de sua existência. Nesse caso, a essência do Ser Necessário não pode ser diferente da sua existência?
Tomé: Exatamente, sua essência teria que ser exatamente só sua existência. Só assim poderia existir por si só.
Emanuel: Então ele é a própria Existência? Não entendo como isso faz sentido.
Tomé: Mas você aceita que o universo revela que o Ser Necessário existe? Aceita que Ele não poderia ter uma essência diferente da sua existência?
Emanuel: Sim, que o necessário existe e que existe dessa forma é claro como a água para mim, mas isso significa que ele é totalmente diferente do que é contingente, então como o compreender?
Tomé: Você não compreende. Toda descrição nossa falha em O descrever, mas também chega perto. Como uma criança pequena tentando alcançar algo numa pratileira alta, assim é nosso intelecto tentando entender a Ele.
Emanuel: Então como falar dele corretamente? Se você não entende nada sobre o que fala, qual a diferença entre essa conversa e os delírios de um maluco?
Tomé: Não podemos falar Dele diretamente, mas só do que Ele não é, então nem mesmo mostrei que Ele existe necessáriamente, mas sim que Ele não é inexistente e nem que Ele é contingente. O que Ele não é já nós diz muito mas ainda mantém sua essência misteriosa.
Baruque: Essa é a Via Negativa, um conceito que existe a milênios. Sempre me fascinou um pouco. Podemos comparar com um sujeito que vê em seu jardim marcas das patas de um animal. Após analisar as marcas ele só sabe que o animal não é nenhum conhecido...
Tomé: Sim. Aquele que rejeita Ele por não o compreender mesmo com o universo provando que Ele existe seria como quem estivesse nessa situação e insistisse que as marcas de patas não tem causa por não saber qual animal é.
Baruque: Só um idiota pensaria assim, haha.
Tomé: Hehe. Realmente. Quando eu digo que Ele é poderoso ou ilimitado, deve se entender os termos não de forma unívoca mas com linguagem de analogia.
Emanuel: Unívoca seria com o mesmo significado, tipo "Esse frango é bom" e "Essa torta é boa". Sei que tem também linguagem equívoca, onde a palavra é igual e o significado não tem qualquer semelhança, como "Esse é um bom nome" e "A rua Bom Nome". Como é essa linguagem de analogia?
Tomé: A linguagem de analogia é o justo meio entre a unívoca e a equívoca. Seria algo como "Esse frango é bom" e "Esse livro é bom". "Bom" não está no mesmo sentido porque o que faz cada item bom é algo diferente em cada um, mas existe certa semelhança.
Emanuel: Falar de forma analógica então é como errar e chegar perto de acertar na descrição ao mesmo tempo.
Tomé: Isso. Temos alguma ideia do que Ele é mas não sabemos o que exatamente, então é o que resta. Mas eu prefiro evitar falar assim para não confundir.
Emanuel: Tudo bem então, aceito a existência do inefável necessário. Você pode mostrar mais coisas que ele não é? Só assim podemos ver se ele é Deus. Como sabemos que ele é um e não dois?
Tomé: Simples: Duas coisas só podem ser diferentes se uma tem alguma característica que a outra não tem. O Ser Necessário é a própria existência, de forma que todas as outras coisas ou seres existem de uma forma inferior a Dele, com algo faltando. Se o segundo ser tem algo faltando, não é o Ser Necessário, se nada falta, na verdade só existe um Ser.
Baruque: Ideia bem lógica essa. Duas coisas só são diferentes se uma delas tem algo a menos e isso não pode ser o caso se falamos de um ser supremo. Não é a toa que politeistas como hindus e indígenas costumam defender a existência de uma entidade superior aos deuses.
Emanuel: Entendo. Você diz que ele existe de uma forma melhor, isso significa que o ser necessário tem em si toda possibilidade e mais?
Tomé: Exato. Tudo que existe ou pode existir e não é a própria Existência tem sua essência separada da existência, então depende do Ser Necessário. Entendemos então que Ele é a base de tudo que é possível sem depender de mais nada que não seja Ele. O Ser Necessário então não é limitado como os outros seres.
Emanuel: Podemos então dizer que ele é onipotente? Além disso, como o poder dele mantém tudo funcionando e ele, como não limitado, não pode estar em um lugar ou outro, podemos dizer que ele é onipresente? Pois não fica em um lugar só mas meio que existe em tudo de uma vez através de seu poder que mantem tudo funcionando.
Tomé: Dizer que Ele é isso ou aquilo não dá certo por sua essência não ser conhecida, mas podemos dizer que Ele não é limitado em poder nem em lugar, então onipotente e onipresente talvez sejam o mais próximo de uma classificação positiva que podemos dar, se forem na linguagem de analogia.
Baruque: Além disso, como o ser supremo é acima de todos, ele não pode ser mal. Pois o mal é uma falta em algo e nele nada falta.
Emanuel: Como assim?
Tomé: Não enxergar é ruim. Mas é um mal para nós e para as pedras ou só para nós?
Emanuel: Haha. Só para nós a cegueira é um mal.
Tomé: Então um mal é algo que devia estar mas não está? Desse jeito, uma pessoa ruim é a que devia ter algo e não tem?
Emanuel: Exatamente. A má pessoa devia ter certas características mas não tem. Entendo então que o ser necessário, que não falta nada, não pode ser mal.
Tomé: Você entendeu. O mal é uma privação de bem e O Ser Necessário não tem qualquer privação.
Emanuel: Como ele não é limitado em lugar, podemos dizer que não é material?
Tomé: Sim. Também não poderia ser temporal, por não ser de matéria.
Baruque: Nem seria mutável, pois não só não é temporal como também é não limitado, já estando num grau onde melhora ou piora é impossível.
Emanuel: É verdade. E ele seria não limitado mentalmente também? Só falta o que podemos chamar de onisciência.
Tomé: Claro, embora vá ser mais difícil de mostrar. Algo como uma pedra tem a sua própria essência apenas. O animal com consciência tem, de certa forma, mais do que sua essência por seus sentidos e memória permitirem que eles "guardem" dados das outras coisas e também cores, sons, gostos etc. Nós, além de termos nossa essência e os dados sensoriais e da memória, temos o intelecto que nos permite entender outras essências.
Baruque: Um filosofo até disse que "a mente é de certa forma todas as coisas". Vemos então uma ligação entre conter várias essências e inteligência.
Emanuel: Nesse caso, como o ser necessário contém em si todas as essências por serem de certa forma uma versão inferior dele, ele teria algo como um intelecto que contem todas as essências e possibilidades?
Tomé: Isso mesmo. Além disso, você não pode produzir algo com uma característica que não existe em você de certa forma, então supor que seres com intelecto existem e A Existência Em Si não tem um é ridículo. Mas não devemos dizer que Ele é onisciente por não conhecermos sua natureza , dizer que Ele não é limitado intelectualmente é o melhor que podemos fazer.
Emanuel: Mas como um ser imutável pode criar? Ele era um criador em potência e se tornou um em ato.
Baruque: Ele não é afetado pelo tempo, então não existe isso de "Ele era assim e agora é assim". Você pensa numa sucessão de atos como nós mas Ele deve ter feito tudo num único ato igual a sua essência e com inúmeros efeitos, como um filósofo que escreve um livro e causa aprendizado em milhões. Isso é uma analogia, é claro.
Tomé: Exato. Quanto ao resto da questão, diria eu que existe uma diferença entre potência passiva, que é a habilidade de mudar, e a potência ativa, que é a de mudar os outros. Como o grego que nos ensina com suas obras mesmo estando morto.
Emanuel: Sim, é possível mudar alguém sem ser alterado. Mas como ele pode criar sem mudar?
Tomé: No caso do grego, ele te muda sem mudar, pois mesmo que você não existisse ele seria o mesmo. A relação entre vocês é em parte, pois você está na relação e ele não. Devemos supor então que Ele também consegue fazer isso, pois o imutável que usamos não diz que Ele nada pode fazer, por ser usado na forma de analogia, só diz que nenhuma potência passiva d'Ele foi atualizada.
Baruque: É complexo, mas estamos falando de algo incompreensível mesmo, então...
Emanuel: Entendi. Como não o conhecemos, não dá pra dizer que existe uma contradição ai, por não sabermos o que o termo diz. Eu realmente me confundi com a linguagem de analogia.
Tomé: Exatamente. Se alguém acha que Ele não existe, deve deixar de tentar apontar incoerência e mostrar que o argumento falha pelo mundo não precisar Daquele Que É Existência Em Si. Se o mundo precisa, Ele existe.
Emanuel: E o mundo não precisar parece impossível, portanto não vejo como negar a existência d'Ele.
Baruque: Seu argumento então mostra que existe um ser que não é contingente, nem compreensível, nem material, nem temporal, nem mutável, nem é mais de um, nem é mal, nem é limitado em intelecto, em poder ou em lugar, além de ser a origem de tudo.
Tomé: E Esse nós chamamos de Deus.
Emanuel: Mas como funciona essa diferença de graus de existência? A nossa existência seria como a divina mas em menor grau ou algo diferente?
Tomé: Teria que ser algo diferente mas que é mantido por Ele.
Baruque: Você achou a falha do argumento, Emanuel.
Tomé: É mesmo? Qual?
Baruque: Você assume que existe coisas contingentes, quando tudo é necessário, então você apenas provou a existência divina.
Emanuel: Mas eu consigo imaginar um mundo diferente do nosso , então essa configuração não pode ser necessária.
Tomé: Além disso, tudo que não é Ele tem uma essência diferente da sua existência, então não é necessário.
Baruque: Engano seu. Na verdade, todas as coisas são parte de Deus, logo, tudo tem uma mesma essência, a divina, que é igual a sua existência. Deus e a Natureza são um.
Tomé: Que? Você acredita que Deus e o universo são a mesma coisa?
Baruque: Sim. A única coisa que existe é Ele, que se manifesta de infinitos modos. Nós enxergamos um mundo feito de matéria e mentes por limitação nossa que só nos permite ver dois modos, mas não passamos de parte Dele.
Emanuel: Isso fica beeem longe da nossa experiência. Você tem um motivo para acreditar nisso? É comum na Índia.
Baruque: É claro: como um imutável, mesmo que de forma analógica, pode aprender? Pois vimos que Ele não entra em relações com nada. Se Deus não pode conhecer o mundo, ou Ele é ignorante ou o mundo não existe.
Tomé: Não aprendendo. Ele se conhece e também conhece todas as possibilidades. Ele também não poderia conhecer a si mesmo sem ter conhecimento de até onde seu poder se estende, então também conhece tudo que depende d'Ele, ou seja, tudo.
Baruque: Mas como Ele sabe das coisas? Pois Ele teria que saber ás nove da manhã que um objeto existe e saber ás dez que esse objeto não existe. Como isso é possível sem mudança?
Tomé: Você considera "conhecer" de forma unívoca aqui, um erro. Deus, como fora do tempo, simplesmente conhece esse objeto como existindo entre nove e dez horas, sem precisar de qualquer mudança.
Emanuel: Como tudo aqui, é misterioso e faz sentido, haha. Se Ele pode conhecer o mundo, então não precisamos de panteísmo.
Tomé: Não devemos nem falar disso, pois é impossível.
Baruque: Por que você considera isso como impossível? Tem algum argumento?
Tomé: Claro. Observe:
Baruque: Você mexendo sua mão? Como assim?
Emanuel: Você, Tomé, quer mostrar que mudança existe?
Tomé: Isso! Como vimos, as coisas mudam através da atualização de potencias. Isso gera ordens casuais, pois uma coisa muda outra que muda outra, dois tipos de series ordenadas.
Baruque: Quais tipos de series ordenadas?
Tomé: A primeira é acidental, pois um item pode mudar outro sem precisar do item anterior. Um exemplo é de um homem que pode gerar seu filho mesmo que seu pai pare de existir.
Emanuel: Na segunda um item precisa de outro?
Tomé: Isso mesmo, seria uma serie essencialmente ordenada. Pense numa faca que lentamente corta uma carne dura. Se a minha mão parar, a faca para de cortar também. Ela tem o potencial de cortar, mas eu preciso atualizar esse potencial para a faca agir.
Emanuel: Então essa série de mudanças ocorre no mesmo instante? Cada item atualiza outro na mesma hora? Interessante, pois significa que algo como o universo ser eterno ou não é irrelevante aqui.
Tomé: Exato. O lance é que não para na minha mão, pois ela só se move se os músculos mexerem, e eles só mexem se as células se mexerem, que só se mexem se as moléculas se mexerem etc. Cada item tem seu potencial atualizado por um item em outro nível.
Emanuel: Então cada item tem a base que atualiza seu potencial em outro nível mais fundamental? Então o músculo só tem poder de atualizar o potencial de mover a mão se as células o atualizarem ao mesmo tempo e mesmo elas precisam ser atualizadas?
Tomé: Isso. Ai eu te pergunto: se essa sequência for eterna, a mudança é explicada?
Emanuel: Não, pois cada item precisa ser atualizado por algum outro antes que já esteja em ato para poder atualizar o item seguinte. Como no exemplo das luas, o poder dos item é derivado de outro.
Baruque: Então precisamos de algo que atualiza a sequência sem precisar ser atualizado? Algo cujo poder de atualizar não é derivado mas intrinsico.
Emanuel: Um ser desses não poderia se atualizar, pois então ele precisaria estar em ato antes de estar em ato para só então se atualizar, algo impossível.
Baruque: Exatamente. O poder que atualiza não pode ver de alguém que muda, pois ele teria que ter o poder antes de ter.
Emanuel: Então toda série essencialmente ordenada precisa de um ser que não tem qualquer potencia, mas é Puro Ato, que atualiza toda mudança sem precisar ser mudado.
Baruque: Algo que é Puro Ato não pode ser mudado, então não pode ter nada que pode ganhar ou perder, algo que só é possível se for também a Própria Existência. Então Puro Ato e Deus são o mesmo.
Tomé: Vocês entenderam perfeitamente! Como tudo que existe pode mudar, ou seja, tem potências, e Deus é Puro Ato sem potências, então Deus e o universo tem que ser diferentes.
Emanuel: Uau! Impressionante. Não só você tem mais um argumento para a existência de Deus como ainda refuta o panteísmo com ele. Isso é economia!
Tomé: Haha.
Baruque: Hahaha. Isso foi muito bom, só que seu argumento assume que a mudança é possível. Como já sabemos que Deus não muda, seu argumento pressupõe que a Ele e o universo são diferentes.
Emanuel: Realmente. O argumento foi uma petição de principio.
Tomé: Isso só refuta seu argumento! Que a mudança existe é algo que se vê claramente.
Baruque: Isso não deve ser mais que uma ilusão, como diria o Parmênides.
Tomé: Num momento eu teria a ilusão de ver um fogo acender e depois a ilusão de ver algo cair! Mesmo que tudo seja uma ilusão existe mudança, pois eu tenho ilusões diferentes em momentos diferentes.
Baruque: A questão é que seus argumentos pressupõem que existe contingência e mudança, significando que eles pressupoem que eu estou errado, então usar eles contra mim é falacioso.
Tomé: Tudo mostra que você está errado.
Emanuel: Também me parece um ponto de vista louco, mas você tem algum argumento a mais, Tomé? Poderia ajudar.
Tomé: Não preciso, mas okay: vimos antes que tudo que é composto exige eventualmente coisas mais fundamentais e não compostas para serem suas partes, certo?
Emanuel: Sim, o composto precisa do não-composto.
Tomé: Exato. Além dos motivos dados antes, me parece obvio que uma porta é mais fundamental que uma casa, pois a porta pode existir sem a casa, enquanto ela não pode existir completa sem suas partes.
Emanuel: Isso é verdade.
Tomé: Como as partes podem existir sem a casa, precisamos de algo que explique o motivo de tudo estar junto, como os construtores com cimento e outros materiais. Mesmo que a casa fosse eterna, alguma razão existiria para as partes não estarem separadas.
Emanuel: Sim, então tudo que é composto é explicado por outro. Isso significa que as explicações vão até algo totalmente simples? Pois só esse simples não precisaria de algo mais para o explicar.
Baruque: Esse simples precisaria ser imutável, pois tudo que é mutável tem potências, e também necessário, pois o contingente tem sua essência diferente da existência. O Absolutamente Simples então é o Puro Ato e também o Ser Necessário, certo?
Emanuel: Pensando bem, os três argumento levam a exatamente as mesmas conclusões. É impressionante.
Tomé: Isso mesmo! O composto então depende da existência do Absolutamente Simples, que é Deus. Temos aqui mais um argumento para a existência divina e também aprendemos que Deus não é composto. Podemos chamar Ele de simples somente na linguagem de analogia também, pois não podemos falar d'Ele de forma unívoca.
Emanuel: Isso quer dizer que não existe qualquer diferenciação em Deus? Seu poder, Sua onisciência, Sua bondade, Sua justiça etc são todos a mesma coisa?
Tomé: Isso mesmo. Não existe em Sua natureza essas distinções que ocorrem em nós. Essas diferenciações existem em nossas mentes ao pensar n'Ele, mas não existem n'Ele.
Emanuel: Isso vale para o conhecimento também? Como então pode existir não-composição numa mente?
Tomé: Você está usando características e ideias de maneira unívoca. Está comparando Ele com nós, seres limitados no tempo que aprendem pela sensação as coisas em sequência. Se lembre que a natureza divina só é "compreendida" através do que não é, então nossa imaginação sempre falha nessas descrições.
Emanuel: Entendo. Realmente, usar a imaginação aqui é errar.
Baruque: Outro argumento interessante, mas ele pressupõe que existam seres compostos quando na verdade só Deus existe, então falha.
Tomé: Não nesse caso, pois você mesmo disse que acha que Ele se manifesta em infinitos modos, com a matéria e as mentes que vemos e somos sendo dois modos.
Emanuel: Verdade! O panteísmo exige então infinitas distinções, logo, o divino panteísta também é composto e precisa de algo que o explique, sendo Esse Deus.
Tomé: Você aprende rápido.
Baruque: Isso seria apenas uma ilusão, a composição é falsa.
Tomé: Nesse caso, a composição existe em nossas mentes, significando que elas não são Deus...
Baruque: Olha... Tem razão...
Emanuel: Isso significa que o universo e Deus são diferentes então. Logo, existe contingência, composição e mudança, significando que os três argumentos funcionam. Sabemos então que O Deus inefável e separado do universo existe e que nada poderia existir por um instante sem Ele.
Baruque: Só um bastava, mas os três funcionam. Então Deus certamente deve ter feito o mundo de forma que acabássemos com mentes capazes de entender o mundo e entender que Ele existe.
Tomé: Exato. Não vejo formas desses argumentos serem vencidos racionalmente. Uma banana, um sapato, o movimento de um elétron, qualquer coisa pode ser a base para esses argumentos funcionarem e vermos a Causa por seus efeitos.
Baruque: Basta o ateu fazer o que sempre faz: defender que a razão é falha. É claro, isso pressupõe que ele está certo e portanto exige argumentos para o ateísmo, que não podem ser justificados pois geram desconfiança na mesma razão que os defende. Nesse caso, o ateu nem deve ser levado a sério.
Tomé: O ateu é como um anão que sobe num banquinho para ser visto e grita "Não tem banquinhos aqui!". Eles precisam da razão para argumentar e até pagam de racionais, mas são os primeiros a admitir que não podem confiar nela no ateísmo.
Emanuel: É verdade. Os seus argumentos só podem ser negados se o ateísmo for verdade, pois só assim podemos desconfiar da razão. Afinal, o agnóstico sabe que não tem motivo para acreditar que a evolução trabalhou cega ou não, então não tem motivo para desconfiar da razão.
Baruque: Além disso, coisas como a ciência e suas previsões revelam que a razão humana é fantástica.
Emanuel: Exato. Obrigado, caras, pois me ajudaram com esse ceticismo. Acham que alguma religião é real?
Baruque: Eu estava interessado nas da Ásia, mas vi que vou ter que investir no monoteísmo mesmo, de lá ou daqui.
Tomé: Estou procurando também. Sabemos que Ele existe e que não conseguimos O compreender sozinhos, então deve ter algum jeito de se aproximar. É no mínimo frustrante como está agora...
Baruque: Mas já falamos muito, bora jogar?
Emanuel: Na hora! Tem que ver o combo que eu aprendi.
Tomé: No aguardo.
sábado, 23 de novembro de 2019
David
David: Eu diria que algo como ética não passa de sentimentos que parecem reais, Toledo. Não existe nada como certo ou errado no mundo, então é melhor manter esse papo longe da política.
Aris: O niilista conservador sempre me confunde. Se você não acha que existe um jeito certo de agir, ter padrões é bem estranho.
David: Todos querem viver numa sociedade que funciona.
Isaque: Não fica claro que forma funciona se não tem uma correta.
David: O tempo nos diz. Basta você observar o que dá certo com o tempo.
Aris: O niilista conservador sempre me confunde. Se você não acha que existe um jeito certo de agir, ter padrões é bem estranho.
David: Todos querem viver numa sociedade que funciona.
Isaque: Não fica claro que forma funciona se não tem uma correta.
David: O tempo nos diz. Basta você observar o que dá certo com o tempo.
Aris: Entendo. Mas me parece claro que o mundo realmente é capaz de nos mostrar o que é certo com sua ordem.
David: Como assim? Ser bom envolve cumprir certo padrão. Você acha que o mundo nos mostra algum tipo de padrão?
Aris: Ser bom consiste mesmo em cumprir padrões. Para se ter ética, precisamos então de algo como a essência do homem e o objetivo especifico do homem.
David: Isso soa estranho.
Isaque: Nem tanto: essência seria a natureza do homem que o define e o separa dos outros seres, como as características específicas dos relógios. O objetivo seria a finalidade das nossas capacidades, como a do relógio de dizer as horas.
Aris: Isso mesmo. Um bom relógio diz as horas e um mal não. Da mesma forma, existe um jeito certo do homem agir.
David: Eu entendi antes. Isso é muito estranho, pois os padrões devem ser impostos por alguém mas não tem nada assim no mundo.
Isaque: Eles devem ser impostos mesmo, mas eu discordo que não existam.
Aris: Não importa se o padrão existe por si só ou se foi criado por alguém. O importante é que ele existe, e que isso claramente se manifesta pela ordem que existe no mundo.
Isaque: Realmente. Mas acho que essa ordem sugere Alguém além do mundo que dita as regras.
David: E como esse Alguém dita as regras?
Isaque: Acho que a ordem vem de leis que o universo segue, como um tipo de programação. Cada lei científica seria uma lei da natureza.
David: Como as leis ordenam o mundo? Leis desse tipo são descritivas, só dizendo o que acontece mas sem explicar o motivo ou ser o motivo. Elas não tem poder de fazer algo.
Aris: Isso é verdade. Algo como uma lei da física é só uma descrição da realidade. Precisamos de algo mais pra explicar o motivo das coisas ocorrerem como ocorrem.
Isaque: A ordem só pode vir do próprio Deus, pois uma ordem só pode ser dada por alguém e só Ele teria como ordenar o mundo. Sabemos então que Ele é.
David: Então como isso tem relação com a ética?
Isaque: Todas as coisas não foram criadas por Deus?
David: É o que você supõe. Digamos que sim.
Isaque: Nesse caso não seria tudo propriedade divina?
David: Sim, seria.
Isaque: Achamos então a base para a ética, pois isso revela que se você se ferir ou ferir outro está ferindo a propriedade divina.
David: Tenho ainda um monte de dúvidas sobre isso, mas primeiro você poderia me dizer como Deus mantem a ordem do mundo físico? De que forma você acha que isso ocorreria?
Isaque: Acho que Ele teria que direcionar a matéria e a energia a cada momento. Não vejo outro motivo para essa ordem, já que Ele é a base das leis naturais.
David: Então a ordem é falsa? Se Ele precisa sempre estar direcionando um universo sem ordem, então o fósforo não gera fogo, mas Deus gera. Existem efeitos mas nada que os causa além de Deus.
Aris: É verdade. Se as coisas forem assim, então a ordem não existe e Deus faz tudo, inclusive o trabalho do nosso cérebro...
Isaque: Acho que me expressei mal. As coisas causam umas as outras sim, elas só precisam que Ele mantenha tudo funcionando.
David: Foi bom ter saído dos contos de fada, mas não sei pra que Deus é necessário se uma coisa tem a capacidade de causar outra, se bem que isso seria outro assunto, deixemos pra lá.
Isaque: Isso. Não falemos Dele então. Devemos procurar outra base pra ordem.
David: Mas que ordem? Nós vemos as coisas aconteceram sempre da mesma forma, mas quem garante que as coisas sempre serão como foram antes? Um animal acha que sempre que ouvir o barulho do potinho de comida vai se alimentar, mas isso não é algo necessário.
Isaque: Elas sempre fazem a mesma coisa, ué.
David: Exatamente, você espera que elas façam necessariamente a mesma coisa por já terem feito, mas o que te garante que existe uma necessidade ai?
Isaque: O fato delas fazerem sempre a mesma coisa? Os homens sempre foram capazes de prever o que ia acontecer razoavelmente bem, seja o comportamento de uma armadilha, o movimento das estrelas e planetas, o que vai acontecer no teste de uma teoria cientifica, ou se o café vai estar quente depois do fogo. Literalmente tudo que vemos prova que você está errado.
David: E que diferença esses casos fazem? Seu argumento pra provar que podemos ver regras gerais através de alguns casos antigos... Usa alguns casos antigos pra estabelecer uma regra geral.
Aris: Isso é verdade, é um argumento que só funciona se você aceita a conclusão. Mas não estou convencido de que não existe ordem. David, pode explicar isso melhor?
David: Acho que ideias como ordem são só ideias, não temos base pra falar de algo assim.
Isaque: Interessante. O que te leva a pensar assim?
David: Eu lhes digo que o conhecimento vem dos sentidos, algo que sei que vocês concordam. Eles devem se dividir em dois: conhecimento conceitual e conhecimento experimental.
Aris: Isso me parece pouco. Como seria cada um?
David: O conhecimento conceitual vem da razão ao entender os conceitos ou definições das coisas. Entendendo a definição de "careca" como alguém sem cabelo, sei que é verdade que carecas não tem cabelo. Essas verdades conceituais são verdade pela lógica, não tendo muito a ver com o mundo.
Aris: Certo.
David: O experimental vem de experiências , sejam científicas ou do dia a dia, seria sensações e a memória delas. Elas nos conectam ao mundo real, como ao nos ajudar a saber que existem carecas, algo que o conceito não te diz mas as sensações sim.
Aris: Sim, esses conhecimentos existem, embora venham ambos da experiência que temos com o mundo. Acho pouco ainda, muito pouco, mas continue.
David: Exatamente. A questão é que tudo que conhecemos do mundo seriam então sensações e memória. Mesmo os conceitos não passam de memórias com definições.
Aris: Como assim? Você acha que conceitos são algum tipo de imagem mental?
David: O que mais seriam? Você conhece vários cavalos e a memória de todos eles lhe permite gerar o conceito ou imagem mental de cavalo. Juntando com o conhecimento de chifres, você acaba gerando um unicórnio só combinando ideias ou sensações antigas.
Aris: Bizarro.
Isaque: Faz sentido. E o que isso tem a ver com ordem?
David: Bom, nossos conhecimentos se resumem então em memórias, imaginação, conceitos e sensações. Se é um conceito, não necessariamente tem relação com a realidade, pois são só definições criadas por nós.
Isaque: E sensações não podem nos mostrar se algo como uma regra geral existe, pois só vemos casos individuais? Seu argumento é que só experiências podem falar do mundo real e não experimentamos ordem diretamente?
David: Isso. Pensem em algo como uma lei da física. Essa lei é algum tipo de conceito ou definição abstrata? É algo que é verdade por pura necessidade lógica?
Aris: Não, já que tenta falar da realidade e pode ser falsa sem contradizer a lógica.
David: É então algo que vem da experiência? Você vê, ouve, cheira, prova ou sente essa lei?
Isaque: Não, pois só temos experiência de acontecimentos, e não de alguma necessidade além deles. Nem sei como ia dar pra sentir ordem diretamente, hehe.
David: Pronto! A ideia de leis da natureza é simplesmente uma coisa da nossa cabeça, pois vemos muitos casos parecidos e pensamos que sempre vai ser assim. Mas ninguém pode experimentar algo como ordem no mundo, é uma ideia que criamos quando fazemos a interpretação das nossas sensações.
Isaque: Não acho forma de provar que leis da natureza fazem parte de definições ou se são algo que podemos sentir como parte de nossas experiências, mas ainda acho que seu argumento falha.
David: Como? Essas "leis" não vem de conceitos nem de sensações.
Isaque: Bom, o seu argumento é só algum conceito?
David: Não.
Aris: Não é dado pela experiência também. Então, ele se refuta.
Isaque: Era isso que eu ia dizer! Esse argumento não se sustenta. Se ele está certo, está errado.
David: Talvez tenha essa falha, mas não vejo forma de se ter conhecimento sobre o mundo real sem ser dado pelas sensações e elas não nos dizem muita coisa. Nosso conhecimento é muito limitado pra dizer que existe ordem.
Aris: Você errou por achar que conceitos são como imagens mentais. O conhecimento do mundo vem da experiência, mas ele é mais que sensações antigas, então podemos conhecer mais do que os sentidos nos mostram diretamente.
David: Qual a diferença entre conceitos e imagens mentais então?
Aris: Vamos voltar pro cavalo: Ao você pensar no cavalo deve ter em você, além do conceito, algum tipo de sensação sobre o bicho. Talvez a imagem de um cavalo, talvez você ouviu ou viu a palavra, sei lá.
David: Sim. O conceito e a imagem são a mesma coisa, como provado por estarem tão associados.
Aris: Mas essa imagem sua não precisa ser de um cavalo negro, marrom, branco, ou outra cor?
David: Me veio na cabeça um cavalo mais marrom mesmo.
Isaque: Eu vi um de duas cores. Ouvi a palavra na cabeça também.
Aris: Então vocês tem na cabeça a imagem do cavalo de certa cor cada um. Mas o conceito de vocês só valem pros cavalos dessas cores?
Isaque: Não né, vale pra todo cavalo. O conceito de cavalo branco, por exemplo, seria meio que um subconceito, acho. Mas o de cavalo em geral vale pra todos.
Aris: Então o conceito vale pra todos os cavalos mas a imagem mental não. Isso significa que o conceito é universal e a imagem particular.
Isaque: Isso se nota mesmo.
Aris: Além disso, Isaque, você disse que ouviu tipo uma palavra ao pensar no cavalo? Isso acontece comigo também.
Isaque: Isso. Me veio o som na cabeça.
Aris: Mas a palavra "cavalo" necessariamente fala do animal ou poderia falar de outra coisa?
Isaque: Poderia, pois é só uma regra do português que esse som ou certos símbolos escritos falam do animal.
Aris: Mas o conceito que você tem de cavalos poderia ser de outra coisa ou seria um conceito diferente?
Isaque: Só pode ser sobre cavalos. A palavra pode mudar o significado e continuar a mesma, mas o conceito não. Se você tentar mudar o significado do conceito, simplesmente vai mudar de conceito.
Aris: Quanto a imagem na sua cabeça do cavalo de duas cores, ela também poderia significar outra coisa?
Isaque: Claro. Ela poderia ser de um cavalo do passado, de um cavalo que eu queria ter, de um que me assusta ou coisa assim ou até de algo que só parece um cavalo. A mesma imagem pode ser interpretada de várias formas, mesmo sendo mental.
Aris: Podemos então dizer que as imagens mentais tem significado ambíguo e os conceitos um significado determinado?
Isaque: Parece que sim.
Aris: Vamos testar então outra palavra: lei. Pensem nela e me digam o que veio na cabeça.
Isaque: Aquela estátua da cega com a balança. Cega a lei tá mesmo hoje, hehe.
Aris: Haha.
David: Verdade, he. Eu vi um juiz julgando.
Aris: Mas essas imagens mentais falam diretamente da lei ou são só de coisas associada com a lei?
David: São de coisas associadas com a lei. Acho que não tem forma de representar lei diretamente, é muito abstrato.
Aris: Isso é verdade. Mas vocês entendem o que é lei?
Isaque: Claro.
David: Sim, ué.
Aris: Então o conceito de lei existe sem uma imagem mental que o represente perfeitamente?
David: Sim.
Aris: Existe então conceitos sem uma imagem mental certa?
Isaque: Existe.
Aris: Então vamos recaptular: imagens mentais são particulares e ambiguas enquanto conceitos são universais e determinados? Além disso, conceitos podem existir sem imagens certas?
David: Isso mesmo. Imagens e conceitos são diferentes então. Faz sentido, já que nenhuma imagem ou qualquer outra sensação pode ter as características do conceito. Errei então.
Aris: Pois é. Apesar de dependerem das imagens, os conceitos são diferentes. Acho, David, que você confundiu os dois pela proximidade que eles tem.
Isaque: Faz sentido mesmo. Isso significa que temos mais que sensações isoladas na cabeça.
David: Isso. Mas como surge o conceito apartir dos sentidos?
Aris: Quando vemos cavalos notamos que eles tem características iguais, que são de todo cavalo. Acho que nossa razão passa a abstrair dos sentidos essas características universais dos cavalos e gera o conceito só com o que todo cavalo tem, um cavalo universal.
Isaque: Nesse caso, temos um novo tipo de conhecimento que sugiro que chamemos de conhecimento essencial, por vir das essências das coisas. Ele combina parte do conceitual e do experimental.
Aris: Isso. Como o experimental, vem da experiência e fala do mundo real. Como o conceitual, é necessário, como o conhecimento de que a molécula de água é formadada por um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio. O ceticismo do David quanto o nosso conhecimento da realidade não se sustenta.
David: Concordo. Mesmo que o conceito dependa da imagem como o significado de algo escrito dependa das letras, que também são coisas claramente diferentes, como vimos com a palavra "cavalo".
Aris: Entendeu mesmo! Essa é a única explicação para a ordem, e ainda nos diz a direção que devemos ir para achar a ética.
Isaque: Isso! Cada essência tem características necessárias, de forma que cada coisa tem ordem.
David: Mas eu consigo imaginar um olho, por exemplo, que serve para respirar ou atirar raios. Como isso é possível se essa essência existe?
Aris: Ai você está caindo de novo no erro de confundir uma imagem mental com o essencial da coisa que tenta entender. Se você entende a essência de um olho, conhece as características dele e sabe que ele não pode fazer essas coisas.
Isaque: Isso. A imaginação não nos permite fazer mais do que simular a aparência de algo.
David: Mas como isso gera ética? Você fala de como as coisas são e quer ir pra dizer como elas devem ser? Ai não vejo como, pois parecem coisas bem diferentes.
Aris: Qual a essência de um quadrado?
David: Acho que uma figura com quatro lados iguais e paralelos.
Aris: Entre um quadrado desenhado todo torto e um desenhado igual esse aqui na folha, qual está mais próximo dessa essência?
David: Nenhum chega a ser perfeito, mas é certeza que esse da folha está mais perto da essência que um quadrado torto.
Aris: Podemos então dizer que esse desenho representa sua essência de quadrado melhor?
David: Podemos então. Ele é um quadrado bom, acho.
Aris: Voltando pro olho então. Um olho que enxerga não representa sua essência melhor que um cego?
David: É claro.
Isaque: Então enxergar seria o objetivo específico do olho? Pois a essência dele parece ser direcionada a enxergar, de modo que ela é realizada se puder enxergar.
Aris: Isso mesmo! Além de ter uma essência, cada coisa tem um objetivo intrinsico que realiza se nada a atrapalhar. Sem esse objetivo interno, as coisas não teriam direção.
David: Podemos dizer o mesmo dos seres vivos então. Embora certamente tenhamos muito mais objetivos específicos.
Isaque: Isso. Uma planta saudável, por exemplo, busca fincar as suas raízes na terra e pegar um pouco de luz do sol. Ela só deixa de fazer isso se tiver algum defeito.
David: É essa então a forma de de achar o bom jeito de viver: descobrindo os nossos objetivos específicos.
Aris: Exatamente. A felicidade não é um sentimento apenas, mas uma vida correta com um cárater virtuoso. Somente assim podemos florescer como pessoas e ser realmente felizes.
Isaque: Isso é algo revelado claramente mesmo. A felicidade não é possível se você está levando uma vida que não é saudável.
David: Acho que sou um pouco mais hedonista, mas essa discussão parece ser bem mais importante que política ou epistemologia! Não tem nada mais útil do que aprender a viver bem.
Aris: Isso mesmo. Não acho outra forma de aprender a viver direito do que olhar bem nossa natureza.
David: Temos então um padrão de bom e ruim ou defeituoso com base nas essências ou naturezas das coisas. Mas de que forma isso atinge um nível moral?
Aris: Nos não podemos compreender o que é bom para nós e escolher agir de forma a realizar nossa natureza de forma que nenhum outro ser pode? Eu diria que é auto-evidente que escolhemos o que pensamos ser melhor. A conduta ética é o objetivo da razão prática.
Isaque: Nem sempre, pois é comum fazer algo que se sabe que é errado.
Aris: Digo melhor num sentido mais interesseiro e não necessariamente moral. Um pedófilo sabe que que o que faz é errado, mas ainda acha que não resistir a tentação é melhor de certa forma.
Isaque: Isso sim. Sempre buscamos o melhor para nós e florescer como humanos é melhor para nós, então é irracional não cumprir nossa natureza.
David: Entendi. Realmente podemos escolher florescer como humanos e sempre escolhemos o que pensamos ser melhor. Alguém que escolhe realizar sua natureza é bom e alguém que não escolhe é ruim então. Nossa liberdade é essencialmente uma obrigação natural haha.
Aris: Exatamente. O animal livre é o único com obrigações, hehe.
David: Então temos a obrigação de garantir a nossa saúde física e mental, mas isso parece pouco. Que tipos de obrigações teríamos com nós mesmos?
Isaque: Devemos olhar para nossa natureza. O homem é um ser bem diversificado, então certamente vamos ter várias obrigações.
Aris: Pra começar, devemos observar que temos um pouco em comum com plantas, pois também nós nos nutrimos, crescemos e nos reproduzimos, embora não aconteça em nós como nelas.
Isaque: Isso. Nossos corpos tem sistemas específicos para essas operações e esses sistemas tem objetivos específicos, que apontam para essas operações, exigindo que usemos esses sistemas direito.
Aris: Isso. Nossa natureza revela então desordem em coisas como beber venenos ou estuprar tortas. Esses atos são irracionais, envolvendo usar nossos sistemas de forma contrária a seus objetivos específicos de nutrição e reprodução, respectivamente, então são errados por si só.
David: Mas então algo como cortar o cabelo é errado? Pois seria contra nossa capacidade de crescimento.
Aris: Não acho que seja a mesma coisa, já que o que o corpo faz é produzir cabelo todo o tempo de forma que não possa ser controlado, diferente desses atos que falamos que tem um momento específico que ocorre e podemos controlar. A função específica é produzir cabelo, algo que não é afetado pelo corte. Não sei como produzir o cabelo sem cumprir a função de gerar cabelo, hahaha.
Isaque: Mas somos obrigados a ter filhos? Já que isso realiza nossa natureza.
Aris: O erro estaria em usar as funções reprodutivas de forma que frustre o objetivo dela, algo que não dá pra fazer se não usar. Tem que lembrar que as partes só existem por causa do todo, então você não precisa usar elas se o todo, ou você, vai sofrer.
David: Sim, algo como remover uma parte com câncer entra nisso de sacrificar uma parte pelo todo, suponho.
Aris: Isso. Além dessas funções, temos o que dividimos com os animais, a sensação e a locomoção. Algumas plantas se mexem, mas não exatamente como nós, hehe.
Isaque: Seria bizarro, hahah.
David: Então algo como remover um dos seus sentidos permanentemente seria desordenado também, acho.
Aris: Seria mesmo. Mas algo como colocar um protetor de ouvido pra dormir seria válido por, como no caso de não ter filhos, se deixar de usar para conseguir o bom da pessoa toda.
David: Mas isso não termina a natureza humana, falta a nossa função que nos separa dos outros seres e que envolve as drogas, o assunto de antes.
Aris: Tinha esquecido desse tema, haha. Sim, o homem é o animal racional, dotado do pensamento racional que nos permite conhecer e alterar o mundo de forma superior aos outros seres.
David: Suponho então que defenda que a razão tem o objetivo de achar a verdade e que utilizar ela de forma destroçada como no caso de drogas seria errado intrinsicamente.
Aris: Isso, embora algo como dormir seja válido por, além de ser útil para a pessoa inteira, nos impedir de usar a razão, então não poder ser um uso errado. O uso errado da função que é o erro, então não usar não tem problema se preciso.
Isaque: Então você concorda com o David que o Estado deve poder mexer nisso?
Aris: Pessoalmente sim, mas acho que ainda falta refletir sobre a liberdade e o Estado primeiro pra entender direito isso.
Isaque: Falando de direitos então. Já estabelecemos que temos deveres quanto a cuidar de nós, suponho então que tenhamos com os outros. Como você justificaria direitos naturais?
Aris: Acho que devemos começar do inicio: não nascemos através de outros e não somos criados por outros?
David: Sim. O ser humano depende de outros todos os momentos da vida, revelando sua natureza social. Individualistas como o Isaque estão meio doidos, hehe.
Isaque: Injusto já que não é o tema, seu babaca, haha. Já estabelecemos que ter filhos é algo que nossa natureza almeja, como isso ajuda na questão dos direitos?
Aris: Os pais não tem um interesse natural em passar seus genes adiante?
Isaque: Sim, é o objetivo principal do sexo reproduzir afinal. Isso revela que os pais devem cuidar dos filhos, certo?
David: Isso é claríssimo. Só um louco negaria que um pai, por exemplo, tem algum problema se não quer criar sua criança. Qualquer estudo animal ou sobre nós revela essa verdade tão obvia.
Aris: Nesse caso, é claro que os pais tem a obrigação de criar seus filhos. Os pequenos precisam ser cuidados e educados para poderem se desenvolver. Cuidar de alguém incapaz de decidir as coisas exige autoridade, de forma que os filhos ainda não independentes tem a obrigação de obedecer as ordens de seus pais que não lhes obrigue a fazer nada intrinsicamente errado.
David: Sim. Essas verdades também só são negadas por loucos.
Aris: Mas se A tem a obrigação de dar algo a B, então B tem um direito sobre A. Segue então que os filhos tem o direito de serem criados pelos pais e os pais tem o direito de serem obedecidos pelos filhos.
Isaque: Isso faz sentido. Nesse caso os direitos surgem de deveres, interessante. Somos animais sociais e, além das relações familiares, as relações em geral como de amizade e de trabalho surgem também naturalmente pela dependência que temos dos outros materialmente e emocionalmente. Temos direitos com quem está fora da família também então?
Aris: Temos. Lembra que somos obrigados naturalmente a cuidar de nós mesmos?
Isaque: Sim. Temos a obrigação de cuidar de nós mesmos e de florescer como humanos, significando que temos o direito de agir de forma correta, certo?
David: Como temos esse direito, então temos o direito de receber ajuda? Pois se tenho o direito de me alimentar corretamente e só posso conseguir isso se alguém com comida me ajudar, então tenho o direito de receber ajuda.
Aris: Vocês entenderam! Como tenho a obrigação de fazer o que é certo, tenho um direito de uma boa liberdade e também o direito de ser ajudado a fazer o que é certo se precisar. É muito claro que ajudar o outro a fazer o que é certo é algo bom.
Isaque: Além do direito a liberdade de realizar minhas funções naturais e florescer como humano, acho óbvio que temos o direito a vida, pois ela é necessária para qualquer ação. Segue então que assim como ninguém pode tirar minha vida injustamente, devo receber ajuda para continuar vivo se for necessário.
Aris: Exatamente. O direito a vida é a base para todos os outros, ao contrário das ideias de uns.
Isaque: Mas se o direito a vida vem da obrigação de cuidar da vida e só seres racionais tem obrigações, então bebês não tem direito a vida?
David: Todos os direitos vem de obrigações, então parece que essa conclusão faz sentido. Essa conclusão monstruosa tem que estar errada...
Aris: Quando eu digo que gatos tem quatro patas eu falo de quem?
David: Não fala de um gato só, obviamente.
Isaque: Nem de todos, pois alguns não tem. Isso é relacionado com o assunto?
Aris: Sim. Não falo nessa frase então algo como: "É natural para um gato ter quatro patas"? Isso não é verdade mesmo que alguns não tenham?
Isaque: Afirmativo.
Aris: E não vimos que é natural para o ser humano ser racional e ter obrigações e diretos?
David: Entendi. Assim como ter quatro patas faz parte da essência do gato mesmo deficiente, ter a racionalidade e as obrigações faz parte da do bebê, embora ele não possa usar a primeira nem cumprir a segunda.
Aris: Isso ai. Mesmo que o bebê não possa ser mal por não cumprir suas obrigações, elas estão nele essencialmente, lhe garantindo o direito. Segue então que todo ser humano tem direito a vida, independente de poder ou não usar sua racionalidade natural.
Isaque: Mas eu suponho que haja exceções nos direitos. Como no da liberdade, que é importante para o tema de antes.
David: Se a nossa liberdade se resume ao direito de fazer o que é certo então não somos livres para fazer o que é errado, como tirar nossas vidas ou usar drogas.
Aris: Exatamente isso.
Isaque: Então o governo é obrigado a nos impedir de fazer o que é errado? Isso assusta...
David: Outra conclusão ruim.
Aiis: Devemos então ver o que é o objetivo do Estado pra ver se ele precisa proibir tudo que não temos direito de fazer. O que nos motiva a ter um líder?
David: No geral é a crença de que isso nos dará uma vida melhor. O homem nasce e morre sob hierarquias, o natural então é o melhor liderar.
Aris: Sim. Então nós naturalmente formamos ordem para dar o melhor para o grupo.
David: Sim. Diferente do que alguns palhaços dizem, o Estado sempre se forma. Mesmo numa tribo ou uma roda de amigos existe uma ordem informal que estabelece como agir. Isso sempre é para garantir o bem do grupo.
Isaque: Você sempre esquece do indivíduo...
Aris: O justo meio entre vocês é a família como base da sociedade, mas fica pra outra hora. Podemos dizer então que o objetivo do Estado é garantir o bem comum?
Isaque: Podemos. Isso significa que ele só deve proibir o que afeta o bem comum?
Aris: Isso mesmo. Não se é possível obrigar alguém a ser virtuoso, só obrigar a agir corretamente e olhe lá. Além disso, fazer todo mundo agir bem é muito imprático, então o governante deve tolerar certos comportamentos se for o melhor para o bem comum.
David: Exatamente isso! Iluminados pensam que podem melhorar tudo com base em teorias, mas a sociedade é complexa demais para isso. Meras ideias não podem nos dizer como agir na política.
Aris: Isso mesmo. As coisas são complicadas, então as vezes um mal tem que ser tolerado para garantir o bem coletivo.
Isaque: Isso significa que você estaria aberto para a legalização de drogas?
Aris: Não por um apelo a uma suposta liberdade para se reduzir a um macaco por diversão, mas talvez sim de uma forma mais utilitária.
Isaque: Entendi. Vamos ver então se isso seria melhor pro coletivo?
Aris: Claro.
David: Finalmente um debate prático por aqui...
David: Como assim? Ser bom envolve cumprir certo padrão. Você acha que o mundo nos mostra algum tipo de padrão?
Aris: Ser bom consiste mesmo em cumprir padrões. Para se ter ética, precisamos então de algo como a essência do homem e o objetivo especifico do homem.
David: Isso soa estranho.
Isaque: Nem tanto: essência seria a natureza do homem que o define e o separa dos outros seres, como as características específicas dos relógios. O objetivo seria a finalidade das nossas capacidades, como a do relógio de dizer as horas.
Aris: Isso mesmo. Um bom relógio diz as horas e um mal não. Da mesma forma, existe um jeito certo do homem agir.
David: Eu entendi antes. Isso é muito estranho, pois os padrões devem ser impostos por alguém mas não tem nada assim no mundo.
Isaque: Eles devem ser impostos mesmo, mas eu discordo que não existam.
Aris: Não importa se o padrão existe por si só ou se foi criado por alguém. O importante é que ele existe, e que isso claramente se manifesta pela ordem que existe no mundo.
Isaque: Realmente. Mas acho que essa ordem sugere Alguém além do mundo que dita as regras.
David: E como esse Alguém dita as regras?
Isaque: Acho que a ordem vem de leis que o universo segue, como um tipo de programação. Cada lei científica seria uma lei da natureza.
David: Como as leis ordenam o mundo? Leis desse tipo são descritivas, só dizendo o que acontece mas sem explicar o motivo ou ser o motivo. Elas não tem poder de fazer algo.
Aris: Isso é verdade. Algo como uma lei da física é só uma descrição da realidade. Precisamos de algo mais pra explicar o motivo das coisas ocorrerem como ocorrem.
Isaque: A ordem só pode vir do próprio Deus, pois uma ordem só pode ser dada por alguém e só Ele teria como ordenar o mundo. Sabemos então que Ele é.
David: Então como isso tem relação com a ética?
Isaque: Todas as coisas não foram criadas por Deus?
David: É o que você supõe. Digamos que sim.
Isaque: Nesse caso não seria tudo propriedade divina?
David: Sim, seria.
Isaque: Achamos então a base para a ética, pois isso revela que se você se ferir ou ferir outro está ferindo a propriedade divina.
David: Tenho ainda um monte de dúvidas sobre isso, mas primeiro você poderia me dizer como Deus mantem a ordem do mundo físico? De que forma você acha que isso ocorreria?
Isaque: Acho que Ele teria que direcionar a matéria e a energia a cada momento. Não vejo outro motivo para essa ordem, já que Ele é a base das leis naturais.
David: Então a ordem é falsa? Se Ele precisa sempre estar direcionando um universo sem ordem, então o fósforo não gera fogo, mas Deus gera. Existem efeitos mas nada que os causa além de Deus.
Aris: É verdade. Se as coisas forem assim, então a ordem não existe e Deus faz tudo, inclusive o trabalho do nosso cérebro...
Isaque: Acho que me expressei mal. As coisas causam umas as outras sim, elas só precisam que Ele mantenha tudo funcionando.
David: Foi bom ter saído dos contos de fada, mas não sei pra que Deus é necessário se uma coisa tem a capacidade de causar outra, se bem que isso seria outro assunto, deixemos pra lá.
Isaque: Isso. Não falemos Dele então. Devemos procurar outra base pra ordem.
David: Mas que ordem? Nós vemos as coisas aconteceram sempre da mesma forma, mas quem garante que as coisas sempre serão como foram antes? Um animal acha que sempre que ouvir o barulho do potinho de comida vai se alimentar, mas isso não é algo necessário.
Isaque: Elas sempre fazem a mesma coisa, ué.
David: Exatamente, você espera que elas façam necessariamente a mesma coisa por já terem feito, mas o que te garante que existe uma necessidade ai?
Isaque: O fato delas fazerem sempre a mesma coisa? Os homens sempre foram capazes de prever o que ia acontecer razoavelmente bem, seja o comportamento de uma armadilha, o movimento das estrelas e planetas, o que vai acontecer no teste de uma teoria cientifica, ou se o café vai estar quente depois do fogo. Literalmente tudo que vemos prova que você está errado.
David: E que diferença esses casos fazem? Seu argumento pra provar que podemos ver regras gerais através de alguns casos antigos... Usa alguns casos antigos pra estabelecer uma regra geral.
Aris: Isso é verdade, é um argumento que só funciona se você aceita a conclusão. Mas não estou convencido de que não existe ordem. David, pode explicar isso melhor?
David: Acho que ideias como ordem são só ideias, não temos base pra falar de algo assim.
Isaque: Interessante. O que te leva a pensar assim?
David: Eu lhes digo que o conhecimento vem dos sentidos, algo que sei que vocês concordam. Eles devem se dividir em dois: conhecimento conceitual e conhecimento experimental.
Aris: Isso me parece pouco. Como seria cada um?
David: O conhecimento conceitual vem da razão ao entender os conceitos ou definições das coisas. Entendendo a definição de "careca" como alguém sem cabelo, sei que é verdade que carecas não tem cabelo. Essas verdades conceituais são verdade pela lógica, não tendo muito a ver com o mundo.
Aris: Certo.
David: O experimental vem de experiências , sejam científicas ou do dia a dia, seria sensações e a memória delas. Elas nos conectam ao mundo real, como ao nos ajudar a saber que existem carecas, algo que o conceito não te diz mas as sensações sim.
Aris: Sim, esses conhecimentos existem, embora venham ambos da experiência que temos com o mundo. Acho pouco ainda, muito pouco, mas continue.
David: Exatamente. A questão é que tudo que conhecemos do mundo seriam então sensações e memória. Mesmo os conceitos não passam de memórias com definições.
Aris: Como assim? Você acha que conceitos são algum tipo de imagem mental?
David: O que mais seriam? Você conhece vários cavalos e a memória de todos eles lhe permite gerar o conceito ou imagem mental de cavalo. Juntando com o conhecimento de chifres, você acaba gerando um unicórnio só combinando ideias ou sensações antigas.
Aris: Bizarro.
Isaque: Faz sentido. E o que isso tem a ver com ordem?
David: Bom, nossos conhecimentos se resumem então em memórias, imaginação, conceitos e sensações. Se é um conceito, não necessariamente tem relação com a realidade, pois são só definições criadas por nós.
Isaque: E sensações não podem nos mostrar se algo como uma regra geral existe, pois só vemos casos individuais? Seu argumento é que só experiências podem falar do mundo real e não experimentamos ordem diretamente?
David: Isso. Pensem em algo como uma lei da física. Essa lei é algum tipo de conceito ou definição abstrata? É algo que é verdade por pura necessidade lógica?
Aris: Não, já que tenta falar da realidade e pode ser falsa sem contradizer a lógica.
David: É então algo que vem da experiência? Você vê, ouve, cheira, prova ou sente essa lei?
Isaque: Não, pois só temos experiência de acontecimentos, e não de alguma necessidade além deles. Nem sei como ia dar pra sentir ordem diretamente, hehe.
David: Pronto! A ideia de leis da natureza é simplesmente uma coisa da nossa cabeça, pois vemos muitos casos parecidos e pensamos que sempre vai ser assim. Mas ninguém pode experimentar algo como ordem no mundo, é uma ideia que criamos quando fazemos a interpretação das nossas sensações.
Isaque: Não acho forma de provar que leis da natureza fazem parte de definições ou se são algo que podemos sentir como parte de nossas experiências, mas ainda acho que seu argumento falha.
David: Como? Essas "leis" não vem de conceitos nem de sensações.
Isaque: Bom, o seu argumento é só algum conceito?
David: Não.
Aris: Não é dado pela experiência também. Então, ele se refuta.
Isaque: Era isso que eu ia dizer! Esse argumento não se sustenta. Se ele está certo, está errado.
David: Talvez tenha essa falha, mas não vejo forma de se ter conhecimento sobre o mundo real sem ser dado pelas sensações e elas não nos dizem muita coisa. Nosso conhecimento é muito limitado pra dizer que existe ordem.
Aris: Você errou por achar que conceitos são como imagens mentais. O conhecimento do mundo vem da experiência, mas ele é mais que sensações antigas, então podemos conhecer mais do que os sentidos nos mostram diretamente.
David: Qual a diferença entre conceitos e imagens mentais então?
Aris: Vamos voltar pro cavalo: Ao você pensar no cavalo deve ter em você, além do conceito, algum tipo de sensação sobre o bicho. Talvez a imagem de um cavalo, talvez você ouviu ou viu a palavra, sei lá.
David: Sim. O conceito e a imagem são a mesma coisa, como provado por estarem tão associados.
Aris: Mas essa imagem sua não precisa ser de um cavalo negro, marrom, branco, ou outra cor?
David: Me veio na cabeça um cavalo mais marrom mesmo.
Isaque: Eu vi um de duas cores. Ouvi a palavra na cabeça também.
Aris: Então vocês tem na cabeça a imagem do cavalo de certa cor cada um. Mas o conceito de vocês só valem pros cavalos dessas cores?
Isaque: Não né, vale pra todo cavalo. O conceito de cavalo branco, por exemplo, seria meio que um subconceito, acho. Mas o de cavalo em geral vale pra todos.
Aris: Então o conceito vale pra todos os cavalos mas a imagem mental não. Isso significa que o conceito é universal e a imagem particular.
Isaque: Isso se nota mesmo.
Aris: Além disso, Isaque, você disse que ouviu tipo uma palavra ao pensar no cavalo? Isso acontece comigo também.
Isaque: Isso. Me veio o som na cabeça.
Aris: Mas a palavra "cavalo" necessariamente fala do animal ou poderia falar de outra coisa?
Isaque: Poderia, pois é só uma regra do português que esse som ou certos símbolos escritos falam do animal.
Aris: Mas o conceito que você tem de cavalos poderia ser de outra coisa ou seria um conceito diferente?
Isaque: Só pode ser sobre cavalos. A palavra pode mudar o significado e continuar a mesma, mas o conceito não. Se você tentar mudar o significado do conceito, simplesmente vai mudar de conceito.
Aris: Quanto a imagem na sua cabeça do cavalo de duas cores, ela também poderia significar outra coisa?
Isaque: Claro. Ela poderia ser de um cavalo do passado, de um cavalo que eu queria ter, de um que me assusta ou coisa assim ou até de algo que só parece um cavalo. A mesma imagem pode ser interpretada de várias formas, mesmo sendo mental.
Aris: Podemos então dizer que as imagens mentais tem significado ambíguo e os conceitos um significado determinado?
Isaque: Parece que sim.
Aris: Vamos testar então outra palavra: lei. Pensem nela e me digam o que veio na cabeça.
Isaque: Aquela estátua da cega com a balança. Cega a lei tá mesmo hoje, hehe.
Aris: Haha.
David: Verdade, he. Eu vi um juiz julgando.
Aris: Mas essas imagens mentais falam diretamente da lei ou são só de coisas associada com a lei?
David: São de coisas associadas com a lei. Acho que não tem forma de representar lei diretamente, é muito abstrato.
Aris: Isso é verdade. Mas vocês entendem o que é lei?
Isaque: Claro.
David: Sim, ué.
Aris: Então o conceito de lei existe sem uma imagem mental que o represente perfeitamente?
David: Sim.
Aris: Existe então conceitos sem uma imagem mental certa?
Isaque: Existe.
Aris: Então vamos recaptular: imagens mentais são particulares e ambiguas enquanto conceitos são universais e determinados? Além disso, conceitos podem existir sem imagens certas?
David: Isso mesmo. Imagens e conceitos são diferentes então. Faz sentido, já que nenhuma imagem ou qualquer outra sensação pode ter as características do conceito. Errei então.
Aris: Pois é. Apesar de dependerem das imagens, os conceitos são diferentes. Acho, David, que você confundiu os dois pela proximidade que eles tem.
Isaque: Faz sentido mesmo. Isso significa que temos mais que sensações isoladas na cabeça.
David: Isso. Mas como surge o conceito apartir dos sentidos?
Aris: Quando vemos cavalos notamos que eles tem características iguais, que são de todo cavalo. Acho que nossa razão passa a abstrair dos sentidos essas características universais dos cavalos e gera o conceito só com o que todo cavalo tem, um cavalo universal.
Isaque: Nesse caso, temos um novo tipo de conhecimento que sugiro que chamemos de conhecimento essencial, por vir das essências das coisas. Ele combina parte do conceitual e do experimental.
Aris: Isso. Como o experimental, vem da experiência e fala do mundo real. Como o conceitual, é necessário, como o conhecimento de que a molécula de água é formadada por um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio. O ceticismo do David quanto o nosso conhecimento da realidade não se sustenta.
David: Concordo. Mesmo que o conceito dependa da imagem como o significado de algo escrito dependa das letras, que também são coisas claramente diferentes, como vimos com a palavra "cavalo".
Aris: Entendeu mesmo! Essa é a única explicação para a ordem, e ainda nos diz a direção que devemos ir para achar a ética.
Isaque: Isso! Cada essência tem características necessárias, de forma que cada coisa tem ordem.
David: Mas eu consigo imaginar um olho, por exemplo, que serve para respirar ou atirar raios. Como isso é possível se essa essência existe?
Aris: Ai você está caindo de novo no erro de confundir uma imagem mental com o essencial da coisa que tenta entender. Se você entende a essência de um olho, conhece as características dele e sabe que ele não pode fazer essas coisas.
Isaque: Isso. A imaginação não nos permite fazer mais do que simular a aparência de algo.
David: Mas como isso gera ética? Você fala de como as coisas são e quer ir pra dizer como elas devem ser? Ai não vejo como, pois parecem coisas bem diferentes.
Aris: Qual a essência de um quadrado?
David: Acho que uma figura com quatro lados iguais e paralelos.
Aris: Entre um quadrado desenhado todo torto e um desenhado igual esse aqui na folha, qual está mais próximo dessa essência?
David: Nenhum chega a ser perfeito, mas é certeza que esse da folha está mais perto da essência que um quadrado torto.
Aris: Podemos então dizer que esse desenho representa sua essência de quadrado melhor?
David: Podemos então. Ele é um quadrado bom, acho.
Aris: Voltando pro olho então. Um olho que enxerga não representa sua essência melhor que um cego?
David: É claro.
Isaque: Então enxergar seria o objetivo específico do olho? Pois a essência dele parece ser direcionada a enxergar, de modo que ela é realizada se puder enxergar.
Aris: Isso mesmo! Além de ter uma essência, cada coisa tem um objetivo intrinsico que realiza se nada a atrapalhar. Sem esse objetivo interno, as coisas não teriam direção.
David: Podemos dizer o mesmo dos seres vivos então. Embora certamente tenhamos muito mais objetivos específicos.
Isaque: Isso. Uma planta saudável, por exemplo, busca fincar as suas raízes na terra e pegar um pouco de luz do sol. Ela só deixa de fazer isso se tiver algum defeito.
David: É essa então a forma de de achar o bom jeito de viver: descobrindo os nossos objetivos específicos.
Aris: Exatamente. A felicidade não é um sentimento apenas, mas uma vida correta com um cárater virtuoso. Somente assim podemos florescer como pessoas e ser realmente felizes.
Isaque: Isso é algo revelado claramente mesmo. A felicidade não é possível se você está levando uma vida que não é saudável.
David: Acho que sou um pouco mais hedonista, mas essa discussão parece ser bem mais importante que política ou epistemologia! Não tem nada mais útil do que aprender a viver bem.
Aris: Isso mesmo. Não acho outra forma de aprender a viver direito do que olhar bem nossa natureza.
David: Temos então um padrão de bom e ruim ou defeituoso com base nas essências ou naturezas das coisas. Mas de que forma isso atinge um nível moral?
Aris: Nos não podemos compreender o que é bom para nós e escolher agir de forma a realizar nossa natureza de forma que nenhum outro ser pode? Eu diria que é auto-evidente que escolhemos o que pensamos ser melhor. A conduta ética é o objetivo da razão prática.
Isaque: Nem sempre, pois é comum fazer algo que se sabe que é errado.
Aris: Digo melhor num sentido mais interesseiro e não necessariamente moral. Um pedófilo sabe que que o que faz é errado, mas ainda acha que não resistir a tentação é melhor de certa forma.
Isaque: Isso sim. Sempre buscamos o melhor para nós e florescer como humanos é melhor para nós, então é irracional não cumprir nossa natureza.
David: Entendi. Realmente podemos escolher florescer como humanos e sempre escolhemos o que pensamos ser melhor. Alguém que escolhe realizar sua natureza é bom e alguém que não escolhe é ruim então. Nossa liberdade é essencialmente uma obrigação natural haha.
Aris: Exatamente. O animal livre é o único com obrigações, hehe.
David: Então temos a obrigação de garantir a nossa saúde física e mental, mas isso parece pouco. Que tipos de obrigações teríamos com nós mesmos?
Isaque: Devemos olhar para nossa natureza. O homem é um ser bem diversificado, então certamente vamos ter várias obrigações.
Aris: Pra começar, devemos observar que temos um pouco em comum com plantas, pois também nós nos nutrimos, crescemos e nos reproduzimos, embora não aconteça em nós como nelas.
Isaque: Isso. Nossos corpos tem sistemas específicos para essas operações e esses sistemas tem objetivos específicos, que apontam para essas operações, exigindo que usemos esses sistemas direito.
Aris: Isso. Nossa natureza revela então desordem em coisas como beber venenos ou estuprar tortas. Esses atos são irracionais, envolvendo usar nossos sistemas de forma contrária a seus objetivos específicos de nutrição e reprodução, respectivamente, então são errados por si só.
David: Mas então algo como cortar o cabelo é errado? Pois seria contra nossa capacidade de crescimento.
Aris: Não acho que seja a mesma coisa, já que o que o corpo faz é produzir cabelo todo o tempo de forma que não possa ser controlado, diferente desses atos que falamos que tem um momento específico que ocorre e podemos controlar. A função específica é produzir cabelo, algo que não é afetado pelo corte. Não sei como produzir o cabelo sem cumprir a função de gerar cabelo, hahaha.
Isaque: Mas somos obrigados a ter filhos? Já que isso realiza nossa natureza.
Aris: O erro estaria em usar as funções reprodutivas de forma que frustre o objetivo dela, algo que não dá pra fazer se não usar. Tem que lembrar que as partes só existem por causa do todo, então você não precisa usar elas se o todo, ou você, vai sofrer.
David: Sim, algo como remover uma parte com câncer entra nisso de sacrificar uma parte pelo todo, suponho.
Aris: Isso. Além dessas funções, temos o que dividimos com os animais, a sensação e a locomoção. Algumas plantas se mexem, mas não exatamente como nós, hehe.
Isaque: Seria bizarro, hahah.
David: Então algo como remover um dos seus sentidos permanentemente seria desordenado também, acho.
Aris: Seria mesmo. Mas algo como colocar um protetor de ouvido pra dormir seria válido por, como no caso de não ter filhos, se deixar de usar para conseguir o bom da pessoa toda.
David: Mas isso não termina a natureza humana, falta a nossa função que nos separa dos outros seres e que envolve as drogas, o assunto de antes.
Aris: Tinha esquecido desse tema, haha. Sim, o homem é o animal racional, dotado do pensamento racional que nos permite conhecer e alterar o mundo de forma superior aos outros seres.
David: Suponho então que defenda que a razão tem o objetivo de achar a verdade e que utilizar ela de forma destroçada como no caso de drogas seria errado intrinsicamente.
Aris: Isso, embora algo como dormir seja válido por, além de ser útil para a pessoa inteira, nos impedir de usar a razão, então não poder ser um uso errado. O uso errado da função que é o erro, então não usar não tem problema se preciso.
Isaque: Então você concorda com o David que o Estado deve poder mexer nisso?
Aris: Pessoalmente sim, mas acho que ainda falta refletir sobre a liberdade e o Estado primeiro pra entender direito isso.
Isaque: Falando de direitos então. Já estabelecemos que temos deveres quanto a cuidar de nós, suponho então que tenhamos com os outros. Como você justificaria direitos naturais?
Aris: Acho que devemos começar do inicio: não nascemos através de outros e não somos criados por outros?
David: Sim. O ser humano depende de outros todos os momentos da vida, revelando sua natureza social. Individualistas como o Isaque estão meio doidos, hehe.
Isaque: Injusto já que não é o tema, seu babaca, haha. Já estabelecemos que ter filhos é algo que nossa natureza almeja, como isso ajuda na questão dos direitos?
Aris: Os pais não tem um interesse natural em passar seus genes adiante?
Isaque: Sim, é o objetivo principal do sexo reproduzir afinal. Isso revela que os pais devem cuidar dos filhos, certo?
David: Isso é claríssimo. Só um louco negaria que um pai, por exemplo, tem algum problema se não quer criar sua criança. Qualquer estudo animal ou sobre nós revela essa verdade tão obvia.
Aris: Nesse caso, é claro que os pais tem a obrigação de criar seus filhos. Os pequenos precisam ser cuidados e educados para poderem se desenvolver. Cuidar de alguém incapaz de decidir as coisas exige autoridade, de forma que os filhos ainda não independentes tem a obrigação de obedecer as ordens de seus pais que não lhes obrigue a fazer nada intrinsicamente errado.
David: Sim. Essas verdades também só são negadas por loucos.
Aris: Mas se A tem a obrigação de dar algo a B, então B tem um direito sobre A. Segue então que os filhos tem o direito de serem criados pelos pais e os pais tem o direito de serem obedecidos pelos filhos.
Isaque: Isso faz sentido. Nesse caso os direitos surgem de deveres, interessante. Somos animais sociais e, além das relações familiares, as relações em geral como de amizade e de trabalho surgem também naturalmente pela dependência que temos dos outros materialmente e emocionalmente. Temos direitos com quem está fora da família também então?
Aris: Temos. Lembra que somos obrigados naturalmente a cuidar de nós mesmos?
Isaque: Sim. Temos a obrigação de cuidar de nós mesmos e de florescer como humanos, significando que temos o direito de agir de forma correta, certo?
David: Como temos esse direito, então temos o direito de receber ajuda? Pois se tenho o direito de me alimentar corretamente e só posso conseguir isso se alguém com comida me ajudar, então tenho o direito de receber ajuda.
Aris: Vocês entenderam! Como tenho a obrigação de fazer o que é certo, tenho um direito de uma boa liberdade e também o direito de ser ajudado a fazer o que é certo se precisar. É muito claro que ajudar o outro a fazer o que é certo é algo bom.
Isaque: Além do direito a liberdade de realizar minhas funções naturais e florescer como humano, acho óbvio que temos o direito a vida, pois ela é necessária para qualquer ação. Segue então que assim como ninguém pode tirar minha vida injustamente, devo receber ajuda para continuar vivo se for necessário.
Aris: Exatamente. O direito a vida é a base para todos os outros, ao contrário das ideias de uns.
Isaque: Mas se o direito a vida vem da obrigação de cuidar da vida e só seres racionais tem obrigações, então bebês não tem direito a vida?
David: Todos os direitos vem de obrigações, então parece que essa conclusão faz sentido. Essa conclusão monstruosa tem que estar errada...
Aris: Quando eu digo que gatos tem quatro patas eu falo de quem?
David: Não fala de um gato só, obviamente.
Isaque: Nem de todos, pois alguns não tem. Isso é relacionado com o assunto?
Aris: Sim. Não falo nessa frase então algo como: "É natural para um gato ter quatro patas"? Isso não é verdade mesmo que alguns não tenham?
Isaque: Afirmativo.
Aris: E não vimos que é natural para o ser humano ser racional e ter obrigações e diretos?
David: Entendi. Assim como ter quatro patas faz parte da essência do gato mesmo deficiente, ter a racionalidade e as obrigações faz parte da do bebê, embora ele não possa usar a primeira nem cumprir a segunda.
Aris: Isso ai. Mesmo que o bebê não possa ser mal por não cumprir suas obrigações, elas estão nele essencialmente, lhe garantindo o direito. Segue então que todo ser humano tem direito a vida, independente de poder ou não usar sua racionalidade natural.
Isaque: Mas eu suponho que haja exceções nos direitos. Como no da liberdade, que é importante para o tema de antes.
David: Se a nossa liberdade se resume ao direito de fazer o que é certo então não somos livres para fazer o que é errado, como tirar nossas vidas ou usar drogas.
Aris: Exatamente isso.
Isaque: Então o governo é obrigado a nos impedir de fazer o que é errado? Isso assusta...
David: Outra conclusão ruim.
Aiis: Devemos então ver o que é o objetivo do Estado pra ver se ele precisa proibir tudo que não temos direito de fazer. O que nos motiva a ter um líder?
David: No geral é a crença de que isso nos dará uma vida melhor. O homem nasce e morre sob hierarquias, o natural então é o melhor liderar.
Aris: Sim. Então nós naturalmente formamos ordem para dar o melhor para o grupo.
David: Sim. Diferente do que alguns palhaços dizem, o Estado sempre se forma. Mesmo numa tribo ou uma roda de amigos existe uma ordem informal que estabelece como agir. Isso sempre é para garantir o bem do grupo.
Isaque: Você sempre esquece do indivíduo...
Aris: O justo meio entre vocês é a família como base da sociedade, mas fica pra outra hora. Podemos dizer então que o objetivo do Estado é garantir o bem comum?
Isaque: Podemos. Isso significa que ele só deve proibir o que afeta o bem comum?
Aris: Isso mesmo. Não se é possível obrigar alguém a ser virtuoso, só obrigar a agir corretamente e olhe lá. Além disso, fazer todo mundo agir bem é muito imprático, então o governante deve tolerar certos comportamentos se for o melhor para o bem comum.
David: Exatamente isso! Iluminados pensam que podem melhorar tudo com base em teorias, mas a sociedade é complexa demais para isso. Meras ideias não podem nos dizer como agir na política.
Aris: Isso mesmo. As coisas são complicadas, então as vezes um mal tem que ser tolerado para garantir o bem coletivo.
Isaque: Isso significa que você estaria aberto para a legalização de drogas?
Aris: Não por um apelo a uma suposta liberdade para se reduzir a um macaco por diversão, mas talvez sim de uma forma mais utilitária.
Isaque: Entendi. Vamos ver então se isso seria melhor pro coletivo?
Aris: Claro.
David: Finalmente um debate prático por aqui...
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